Gestão de riscos em grandes obras: Elmar Varjão mostra por que o problema nasce no projeto
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 26 de outubro de 2026
Para o CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, antecipar falhas técnicas e logísticas custa menos do que corrigi-las durante a execução.
Segundo Elmar Varjão, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, boa parte dos problemas de uma grande obra já está escrita antes da primeira escavação. Sondagem incompleta, projeto executivo com interferências não resolvidas e cronograma que ignora o período de chuvas são lacunas que reaparecem meses depois como aditivo contratual, retrabalho ou acidente.
Em razão disso, a gestão de riscos em grandes obras não funciona como um anexo do planejamento. Ela é o próprio planejamento. A diferença entre um projeto que absorve o imprevisto e outro que paralisa raramente está na sorte. Depende de quanto do risco foi mapeado, precificado e distribuído antes de a equipe chegar ao canteiro. Entender onde esses riscos nascem é o primeiro passo para tirá-los do caminho.
Onde o risco se esconde em obras de alta complexidade?
Pense em uma obra institucional em área urbana adensada, com fundação profunda ao lado de edificações antigas. Uma vibração mal dimensionada pode provocar fissuras no imóvel vizinho, embargo e disputa judicial. Nenhum desses custos aparece no orçamento inicial se ninguém fizer a pergunta certa ainda na fase de projeto.
Na prática, os riscos da engenharia de alta complexidade costumam se agrupar em três famílias. Os técnicos dizem respeito ao solo, às estruturas e às interfaces entre disciplinas, como a estrutura que não conversa com as instalações. Os operacionais envolvem produtividade, mobilização de equipes e desempenho de fornecedores. Os logísticos tratam de acesso, armazenamento e janelas de entrega.
Contudo, o erro frequente é analisar cada família isoladamente. Um atraso de fornecedor parece problema operacional, mas pode empurrar uma concretagem para a estação chuvosa e virar risco técnico. Mapear essas cadeias de causa e efeito é o que separa uma lista de preocupações de uma gestão de riscos de verdade.
Matriz de riscos: do documento de gaveta à ferramenta de decisão
Na contratação pública, a Lei 14.133/2021 passou a exigir matriz de alocação de riscos em obras de grande vulto e nos regimes de contratação integrada e semi-integrada. O documento define quem responde por cada evento: chuva acima da média histórica, variação no preço de insumos, atraso de licença ambiental. Ainda assim, a matriz pode perder utilidade quando é tratada apenas como exigência formal e deixa de ser consultada depois da assinatura do contrato.
Na avaliação de Elmar Varjão, a matriz só cumpre seu papel quando está ligada ao cronograma e ao orçamento. Cada risco relevante precisa de um indicador de alerta, um responsável e uma resposta já desenhada, seja uma contingência financeira, um fornecedor alternativo ou outra sequência construtiva. Sem esse vínculo, a obra descobre o risco no mesmo dia em que ele se materializa.
Logística pesa tanto quanto o cálculo estrutural
Estruturas metálicas e pré-moldados aceleram a execução, mas transferem parte do risco para fora do canteiro. A peça depende da fábrica, do transporte e de uma janela de içamento com guindaste locado por diária. Como desdobramento, a falha de qualquer elo para a montagem e deixa a equipe ociosa.
Em paralelo, obras distantes dos grandes centros ampliam o desafio. Estradas sem condição para cargas especiais, fornecedores locais com capacidade limitada e longos prazos de reposição exigem estoque estratégico e um plano de suprimentos tão detalhado quanto o projeto estrutural.
Dessa forma, Elmar Varjão aponta que a resposta mais eficaz costuma ser trazer a logística para dentro do planejamento desde o início. Rotas, áreas de armazenagem e sequência de entregas entram no cronograma como atividades críticas, e não como detalhes resolvidos pela equipe de campo quando o caminhão já está na porta.
Risco bem gerido também é questão de cultura
Nenhuma matriz substitui a informação que circula no canteiro. O encarregado que percebe uma escora mal posicionada ou o técnico que nota um atraso recorrente de material são os primeiros sensores de risco da obra. Quando relatar um quase acidente gera punição em vez de análise, esses sinais desaparecem.
O que esse percurso demonstra é que a gestão de riscos em grandes obras termina onde começa a liderança. Sob a perspectiva de Elmar Varjão, previsibilidade depende de uma operação que valoriza as equipes, mantém responsabilidade financeira e trata a segurança do trabalho como critério de decisão, não como item de protocolo. A obra mais previsível não é a que nunca enfrenta imprevistos, e sim a que já sabia o que fazer quando eles chegaram.
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