Sonegação no setor de combustíveis ameaça a economia formal e fortalece o crime organizado

Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela como fraudes e evasão fiscal financiam o crime organizado e prejudicam a concorrência

14 de novembro de 2025

Sonegação no setor de combustíveis ameaça a economia formal e fortalece o crime organizado

O volume de combustível ilegal no Brasil seria suficiente para abastecer toda a frota nacional por três semanas, considerando um tanque médio de 50 litros por veículo. Esse dado faz parte do relatório “Follow the products — Rastreamento de produtos e enfrentamento ao crime organizado no Brasil”, divulgado em 2025.

O estudo integra um levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que mostra que, em 2022, facções criminosas faturaram mais de R$ 61 bilhões com a venda irregular de combustíveis e lubrificantes — quase quatro vezes o tráfico de cocaína.

Por trás desses números há uma engrenagem sofisticada de sonegação, inadimplência premeditada, reiterada e deliberada e adulterações que drena recursos públicos, distorce a concorrência e fortalece o poder econômico das facções criminosas.

“O crime organizado usa setores legais, como o de combustíveis, para lavar o dinheiro obtido em atividades ilícitas — especialmente o proveniente do tráfico de drogas, do roubo de cargas e de outros crimes”, explica Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP e professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Eaesp).

De acordo com ele, o avanço do crime sobre mercados formais é um movimento calculado. “Setores como fintechs, apostas online, criptoativos e o próprio comércio de combustíveis e bebidas tornam-se canais de lavagem de dinheiro e geração de novas receitas.”

Lima destaca que o crime organizado já não vive apenas da venda de drogas. “Hoje, ele lucra também com o próprio processo de lavagem, transformando fraudes fiscais, sonegação e adulteração de produtos em parte essencial de seu modelo de negócio.”

Por isso, defende, o combate à fraude fiscal é também uma estratégia de segurança pública, pois corta o fluxo financeiro que alimenta o crime.

O devedor contumaz e o rombo bilionário

O devedor contumaz — empresas ou indivíduos que adotam a inadimplência deliberada como modelo de negócio – está entre os principais responsáveis por manter esse sistema.

“Não se trata de quem passa por uma crise pontual, mas de quem constrói sua operação sobre a fraude fiscal. Esse comportamento financia o crime organizado e sufoca quem atua dentro da lei”, explica Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL).

Por isso, o enfrentamento ao crime organizado passa, necessariamente, pelo bloqueio de suas fontes de financiamento.

Ao unir poder público, setor privado e instituições de controle em torno de uma mesma causa, o ICL reforça que combater a sonegação e a inadimplência deliberada é também proteger a economia e o consumidor.

“Estamos falando de bilhões de reais desviados de áreas essenciais como saúde, educação, saneamento e segurança pública. É por isso que o combate à sonegação e à adulteração no setor de combustíveis é, também, uma pauta de segurança nacional”, afirma Kapaz.

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