O presidente da Faesp/Senar-SP defende que o sucesso do agro depende do produtor atuar como gestor de negócios e da união entre profissionalização e assistência técnica gerencial.
3 de março de 2026
O agronegócio brasileiro consolida-se como uma complexa engrenagem de empreendedorismo e alta tecnologia. Para Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-SP), o sucesso do setor reside na capacidade do produtor rural de agir como um gestor de negócios. Segundo o líder setorial, a “chave da sobrevivência” no campo é a união entre profissionalização extrema e assistência técnica gerencial.
O foco no empreendedorismo redefine o setor: o Brasil não apenas planta, mas aplica inteligência de mercado em tempo real. A introdução de engenheiros agrônomos e veterinários diretamente nas propriedades gera saltos de produtividade de 30% já no primeiro ano de gestão. O objetivo estratégico é transformar arranjos produtivos locais, como o polo cafeeiro de Caconde (SP), em centros de agroindústria. “Em vez de vender apenas commodities, a meta é agregar valor à produção. É assim que mantemos o homem, a mulher e o jovem no campo, com renda e dignidade”, afirma Meirelles. Ele destaca, ainda, o protagonismo feminino por meio do programa “Semeadoras do Agro”, que integra capacitação empresarial e saúde preventiva.
Tirso Meirelles, presidente do Sistema Faesp/Senar-SP. Foto: Daniel Teixeira/Estadão Blue Studio
Enquanto o empreendedorismo avança internamente, as fronteiras enfrentam um cenário geopolítico conturbado. O Brasil, que há cinco décadas era um importador de alimentos, hoje sustenta 25% do PIB e 50% das exportações nacionais graças a uma revolução tecnológica que ampliou a produtividade em 540%. Contudo, esse gigantismo desperta reações protecionistas de potências globais.
A análise de Meirelles sobre a geopolítica atual é pragmática. Manobras da China e da União Europeia criam barreiras que testam a resiliência nacional, enquanto o setor contabiliza perdas bilionárias em virtude de disputas tarifárias com os Estados Unidos.
Sobre o acordo Mercosul-União Europeia, o presidente da FAESP mantém um otimismo cauteloso.
Embora o mercado de 700 milhões de pessoas seja essencial, ele critica a falta de reciprocidade em cláusulas ambientais. Meirelles defende a aplicação de uma “lei de reciprocidade” para responder a sanções que, muitas vezes, escondem puros interesses comerciais. A estratégia defendida é a diversificação: o Brasil busca reduzir a dependência de poucos compradores, focando em novos horizontes como Índia, Indonésia e Japão.
A eficiência “dentro da porteira” esbarra em gargalos que precisam de solução imediata. O principal deles é o custo de produção, inflado pela dependência externa de fertilizantes. Meirelles aponta a urgência de um código mineral que permita ao Brasil explorar seus próprios nutrientes, evitando o envio de royalties ao exterior enquanto as riquezas nacionais seguem intocadas. Além disso, o cenário de juros elevados — que podem chegar a 23% na ponta final — trava investimentos de longo prazo em uma atividade cujo retorno médio leva de 8 a 10 anos.
No campo ambiental, Meirelles rejeita o estigma de “vilão” das mudanças climáticas. Ele posiciona o agronegócio brasileiro como o maior aliado do meio ambiente por meio do cumprimento rigoroso do Código Florestal. Atualmente, o Brasil preserva 65% de sua área nacional, e os produtores abrem mão de produzir em 30% de suas terras em prol da conservação. “Se monetizarmos essa área preservada pelo produtor, estamos falando de uma doação ambiental de US$ 1 trilhão para o mundo.”
A sustentabilidade brasileira é mensurável: a matriz energética do agro é 53% renovável, patamar muito superior à média mundial de 13%. Na pecuária, o ciclo de abate caiu de 48 para 20 meses, reduzindo drasticamente a emissão de metano. Para Meirelles, o combate ao desmatamento deve focar na demanda internacional que consome madeira ilegal, atacando a origem do problema financeiro.
A visão é clara: sustentabilidade e produção são indissociáveis. Para um mundo que hoje opera sem estoques de segurança alimentar, o fortalecimento de uma classe média rural forte no Brasil é a única garantia de estabilidade para as próximas décadas, defende um dos líderes do agronegócio nacional.
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A Série de Entrevista: Rota Brasil <-> Mundo é um espaço para convidados compartilharem suas perspectivas e inspirações na relação comercial entre o mercado brasileiro e mundial. As informações e opiniões formadas neste artigo são de responsabilidade única do autor. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.
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