Danilo Pastorelli: a educação socioemocional é tão fundamental quanto Matemática e Português
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 31 de julho de 2026
Pesquisas mostram que competências como autorregulação emocional e empatia influenciam diretamente o desempenho escolar.
Quem se formou nos anos 1980 ou 1990 jamais ouviu falar em “educação socioemocional” durante a graduação. As faculdades de pedagogia e as licenciaturas estavam voltadas para o conteúdo disciplinar, os métodos de ensino e a didática clássica. Aprender a ensinar significava dominar o conteúdo e saber transmiti-lo. Não que as emoções fossem completamente ignoradas, mas sequer havia uma linguagem, tampouco metodologia consolidada, para integrá-las ao processo de ensino e aprendizagem de forma intencional. Nos últimos anos, no entanto, esse cenário mudou de maneira irreversível. A educação socioemocional deixou de ser uma pauta alternativa ou periférica e passou a ocupar o centro das discussões mais sérias sobre aprendizagem, desenvolvimento humano e futuro do trabalho.
Com vinte anos de experiência formando alunos e professores na educação básica, no ensino superior e na pós-graduação, posso afirmar com convicção, e com respaldo científico robusto, que as variáveis socioemocionais influenciam decisivamente o que acontece dentro e fora da sala de aula. A tese que defendo aqui é direta: aprender a regular emoções, desenvolver empatia, cultivar a persistência diante do erro e construir relacionamentos saudáveis são competências tão fundamentais quanto aprender Matemática ou Português.
Emoção é matéria-prima da aprendizagem
Durante anos, os professores mais experientes apontaram para algo que a ciência demorou a formalizar: o estado emocional do estudante não é um fator secundário na aprendizagem, mas uma condição central para ela. Em 2011, o Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL) consolidou evidências de que programas de aprendizagem socioemocional produzem ganhos mensuráveis não apenas no comportamento dos estudantes, mas também no desempenho acadêmico. Em 2015, David Paunesku e colaboradores demonstraram que intervenções breves focadas em mentalidade de crescimento produziram melhora significativa nas notas de estudantes em risco de evasão escolar nos Estados Unidos. Há pesquisas que apontam eficácia também nos resultados de estudantes no modelo EAD.
Um dos estudos mais importantes nesse campo veio do Chile, em 2016. Claro, Paunesku e Dweck investigaram como a mentalidade de crescimento atenua os efeitos da pobreza sobre o desempenho acadêmico. Os resultados foram inequívocos e mostraram que estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica que apresentavam mentalidade de crescimento alcançavam desempenho acadêmico semelhante ao de estudantes de renda mais alta com mentalidade fixa. Em outras palavras, o autoconhecimento e a crença de que se pode aprender e melhorar funcionam como um escudo contra adversidades externas. Em 2017, Ellen, Dorn e Frank reforçaram esse quadro ao demonstrar que competências socioemocionais têm correlação direta com resultados de longo prazo, tanto educacionais quanto profissionais. Ignorar esses dados é permanecer no século XX.
O que o SAEB não mede
Enquanto as pesquisas acumulam evidências sobre o peso das competências socioemocionais na aprendizagem, os sistemas de avaliação em larga escala permanecem majoritariamente focados em habilidades cognitivas mensuráveis por testes padronizados. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) é o principal instrumento de diagnóstico da educação pública brasileira, e suas métricas orientam políticas, recursos e metas. Ao concentrar esforços quase exclusivos na melhoria dos índices de Língua Portuguesa e Matemática, corremos o risco de tratar o sintoma sem compreender a doença.
Isso não significa que o SAEB seja um instrumento inútil, ao contrário. Mas é necessário reconhecer que um estudante que enfrenta ansiedade severa, que não aprendeu a lidar com a frustração ou que vive em ambientes emocionalmente inseguros terá dificuldade real em aprender qualquer conteúdo disciplinar, por mais competente que seja o professor ou bem estruturado o currículo. Tratar a aprendizagem socioemocional como um extra que se encaixa quando o “conteúdo de verdade” já foi dado é apostar num edifício sem alicerce. Evasão, desmotivação, dificuldades de aprendizagem acumuladas não são fatalidades do acaso.
Professores sabem disso e querem ferramentas para agir
Nesses anos todos em escolas e universidades, sou testemunha de uma percepção que se repete: professores sentem, antes de qualquer pesquisa confirmar, que algo além do conteúdo está em jogo. Relatos de estudantes emocionalmente esgotados, incapazes de se concentrar ou de se relacionar positivamente com colegas, são recorrentes em qualquer conversa honesta nos intervalos entre uma aula e outra. A grande maioria dos docentes está aberta à ideia de trabalhar competências socioemocionais e reconhece que, sem esse componente, faz menos pelos seus estudantes do que gostaria. O que frequentemente falta não é disposição, mas formação específica, materiais adequados e apoio institucional para que esse trabalho seja reconhecido como parte integrante do currículo.
É, certamente, uma mudança de paradigma que não é apenas pedagógica, mas também cultural. Significa reconhecer que educar vai além de instruir e implica formar pessoas capazes de se conhecer, de se autorregular e de construir vínculos. Essa tarefa exige que professores também sejam formados nessa direção, que recebam suporte e que as instituições de ensino sejam ambientes onde a confiança seja uma premissa. Os argumentos aqui convergem para uma conclusão comum, isto é, a aprendizagem socioemocional não compete com a aprendizagem cognitiva, mas a torna potente.
Uma aposta que já está sendo feita
O que temos, portanto, é um chamado à ação. A Sigma Educação compreende esse movimento e tem investido consistentemente em produções que levam a educação socioemocional para dentro das escolas de forma intencional e qualificada. A coleção Eu Sinto, voltada ao desenvolvimento de competências socioemocionais na infância e na pré-adolescência, é uma expressão concreta desse compromisso editorial e pedagógico. Em breve, novos títulos chegarão também aos estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental, uma ampliação que reconhece que a jornada socioemocional não se encerra na alfabetização, mas acompanha o ser humano por toda a sua trajetória de aprendizagem.
A pergunta que fica para cada educador, gestor e formulador de política pública é simples e urgente: podemos continuar avaliando e formando crianças e jovens como se emoções fossem irrelevantes para a aprendizagem? As pesquisas dizem que não, os professores dizem que não e os estudantes, ainda que muitas vezes em silêncio, dizem o mesmo. É hora de ouvir.
Danilo Pastorelli é Mestre em Economia, Graduado em História, Especialista em Ensino e Aprendizagem, Especialista em Gestão Escolar e professor desde 2005.
A OESP não é(são) responsável(is) por erros, incorreções, atrasos ou quaisquer decisões tomadas por seus clientes com base nos Conteúdos ora disponibilizados, bem como tais Conteúdos não representam a opinião da OESP e são de inteira responsabilidade da Agência Saftec