Como São Paulo consolidou liderança na resposta ao HIV

Especialistas explicam como a capital paulista se tornou referência global no enfrentamento ao vírus

29 de março de 2026

Como São Paulo consolidou liderança na resposta ao HIV

Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, a cidade reduziu em cerca de 55% as novas infecções por HIV entre 2016 e 2023, devido às políticas públicas contínuas voltadas à ampliação do acesso aos métodos de prevenção.

Durante a live do Meet Point Estadão Think – São Paulo como case global de prevenção ao HIV: da conquista da PrEP oral ao horizonte da injetável, Robinson Camargo, coordenador da Assistência da Coordenadoria de IST/Aids da capital, disse que o primeiro diferencial é a continuidade.

“A primeira coisa é uma política pública de Estado. A Aids aqui não depende de governo.” Ele também lembrou que o município atua desde os anos 1990 com uma rede “potente”, capaz de sustentar estratégias de longo prazo², um exemplo é a eliminação da transmissão vertical registrada em 2019.

Cinco frentes

Especialistas apontam cinco frentes decisivas para que o Brasil avance na prevenção ao HIV e cumpra a meta global de eliminar a Aids como problema de saúde pública:

1 . Ampliar o acesso à PrEP oral

Para Robinson Camargo, coordenador da Assistência da Coordenadoria de IST/Aids de São Paulo, iniciar a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) é apenas o começo. “Temos 30% a 40% de perda9. Muitas vezes, a pessoa deixa de usar porque não se vê mais em risco ou porque enfrenta barreiras práticas”, afirma.

Para esses grupos, soluções precisam ser adaptadas ao cotidiano. “Às vezes, o comprimido não pode ficar com a pessoa. Então deixamos o medicamento na unidade e oferecemos café da manhã”, diz. Segundo ele, ampliar a PrEP exige presença territorial, serviços flexíveis e estratégias que reforcem vínculos7.

2 . Enfrentar o estigma que afasta populações vulnerabilizadas

A médica infectologista Maria Felipe Medeiros (CRM SP183075) ressalta que o estigma continua sendo uma barreira decisiva para a prevenção. Ela observa que preconceitos ligados a orientação sexual, raça e identidade de gênero ainda afastam muitas pessoas dos serviços de saúde. “Quando essas violências se somam, a prevenção deixa de ser uma escolha possível”, afirma.

Já o infectologista Álvaro Costa (CRM SP108207) reforça que o preconceito também compromete a etapa mais básica da resposta ao HIV. “Poucas pessoas sabem que indetectável significa zero transmissão. O estigma afasta usuários da testagem precoce e da terapia antirretroviral”, diz. Para ele, combater discriminações é condição para que qualquer tecnologia — inclusive a PrEP injetável — produza impacto real.

3 . Estruturar serviços onde não há rede especializada

Embora São Paulo tenha conseguido organizar uma estratégia contínua de prevenção, grande parte do País enfrenta limitações significativas. Faltam equipes, serviços preparados e políticas que articulem saúde, assistência e alcance comunitário, elementos fundamentais para reduzir novas infecções.

Liliana Cristina Mussi, vice-presidente do Fórum das ONGs/Aids, lembra que a desigualdade territorial é profunda. “Há municípios que nem têm serviço especializado para implantar a PrEP oral. Se isso já é um desafio, a PrEP injetável exigirá planejamento mais sólido”, destaca. Segundo ela, políticas regionais precisam considerar realidades locais — geográficas, culturais e socioeconômicas — para que a prevenção seja, de fato, acessível.

4 . Fortalecer a sociedade civil e as redes comunitárias

Os especialistas enfatizam que a sociedade civil é responsável por conquistas estruturantes da resposta brasileira ao HIV — desde o acesso universal a antirretrovirais até a expansão de direitos. Para Liliana, essa presença continua indispensável. “As ONGs acessam grupos que o serviço de saúde não alcança, levam informação, cobram gestores e defendem direitos”, afirma. Em regiões com pouco investimento público, essa articulação se torna ainda mais decisiva para evitar retrocessos e manter políticas de prevenção ativas.

5 . Novas alternativas de prevenção, com a PrEP injetável

Embora ainda não esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), a PrEP injetável surge como mais uma alternativa. A preferência da população deve ser sempre levada em consideração. O médico Álvaro Costa observa que: “Pessoas que têm dificuldade com comprimidos diários podem se beneficiar. Mas é preciso garantir custo viável e profissionais treinados”, afirma.

Para os especialistas, a incorporação exige planejamento nacional, financiamento estável e estratégias para evitar que a inovação fique restrita às grandes capitais. O desafio central é garantir que o novo modelo não reproduza desigualdades já observadas na implementação da PrEP oral. Na avaliação dos participantes, sem unir inovação, financiamento, acolhimento e continuidade das políticas, o Brasil não conseguirá avançar.

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