Diante do recorde de endividamento, política pública de educação financeira ganha urgência institucional; Márcio Pires de Moraes analisa o desafio
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 31 de julho de 2026
O avanço da inadimplência no país reacende o debate sobre o papel do Estado na formação financeira da população e na sustentação de programas de renegociação de dívidas.
A escalada do endividamento das famílias brasileiras deixou de ser apenas um problema individual e passou a ocupar espaço na agenda de políticas públicas. O país atingiu recentemente o maior patamar de famílias endividadas de toda a série histórica medida pela Confederação Nacional do Comércio, o que levou o governo federal a relançar um programa de renegociação de dívidas voltado a famílias de renda mais baixa, instituído por medida provisória e vinculado ao Ministério da Fazenda.
Márcio Pires de Moraes, profissional com atuação em análise financeira, avalia que esse tipo de resposta emergencial tende a aliviar sintomas, mas dificilmente ataca a raiz estrutural do problema. Para ele, o país carece de uma política contínua de formação financeira, e não apenas de mutirões pontuais de renegociação acionados quando os indicadores já chegaram ao limite.
O Estado como responsável pela formação financeira da população
Dados do Banco Central mostram que o brasileiro médio possui conhecimento financeiro considerado baixo, com apenas uma parcela pequena da população conseguindo responder corretamente a perguntas simples sobre cálculo de juros. Esse déficit de letramento financeiro é apontado por especialistas como um dos fatores estruturais por trás do uso recorrente do crédito como complemento de renda, prática que aprofunda o ciclo de endividamento ao longo dos anos.
Nesse cenário, Márcio Pires de Moraes defende que a educação financeira deveria ser tratada como política de Estado, e não como iniciativa isolada de instituições privadas ou campanhas esporádicas. Ele cita experiências internacionais em que a inclusão de conteúdo financeiro na educação básica ajudou a reduzir o endividamento estrutural ao longo de gerações, um caminho ainda pouco explorado no arcabouço educacional brasileiro.
Programas emergenciais funcionam, mas têm limite de alcance
O programa de renegociação, relançado em 2026, permite que famílias com renda de até cinco salários mínimos reorganizem dívidas em atraso de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, em condições facilitadas. A iniciativa tem atraído adesão relevante, mas sua natureza temporária levanta questionamentos sobre a sustentabilidade da solução no médio prazo, já que boa parte dos inadimplentes do país carrega dívidas há mais de uma década, indicando um padrão recorrente, não pontual.
Segundo Márcio Pires de Moraes, programas emergenciais cumprem papel importante ao dar fôlego imediato às famílias, mas não substituem uma estrutura permanente de acompanhamento financeiro. Ele pondera que, sem mecanismos contínuos de orientação, é provável que parte significativa dos beneficiários volte a se endividar após o período de renegociação, reiniciando o mesmo ciclo que a política pretendia resolver.
Um desafio que atravessa gerações e perfis diferentes
O perfil do endividamento no país também mudou ao longo da última década, com maior participação de mulheres e de pessoas acima de 60 anos entre os inadimplentes. Essa transformação demográfica exige que políticas públicas de educação financeira sejam desenhadas de forma mais ampla, considerando diferentes fases da vida e não apenas o público mais jovem, tradicionalmente visado por campanhas de conscientização financeira.
Márcio Pires de Moraes chama atenção para essa lacuna institucional. Na avaliação dele, iniciativas voltadas exclusivamente a estudantes ou jovens adultos deixam de fora justamente parte da população que hoje mais cresce entre os inadimplentes, o que exige um redesenho de estratégia por parte de órgãos públicos e entidades de defesa do consumidor.
Um problema estrutural que exige resposta de Estado
O recorde de endividamento das famílias brasileiras expõe um desafio que combina fatores macroeconômicos, comportamentais e institucionais. Programas de renegociação seguem sendo instrumentos importantes de curto prazo, mas a raiz do problema, segundo analisa Márcio Pires de Moraes, está na ausência de uma política pública permanente e abrangente de educação financeira. Sem esse pilar estrutural, o país corre o risco de repetir, a cada nova geração de endividados, o mesmo ciclo que hoje tenta resolver por meio de medidas emergenciais.
A OESP não é(são) responsável(is) por erros, incorreções, atrasos ou quaisquer decisões tomadas por seus clientes com base nos Conteúdos ora disponibilizados, bem como tais Conteúdos não representam a opinião da OESP e são de inteira responsabilidade da Agência Saftec