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David do Prado analisa o crescimento recorde do mercado de seminovos e o que ele revela sobre o consumo no país
Por SAFTEC DIGITAL

David do Prado analisa o crescimento recorde do mercado de seminovos e o que ele revela sobre o consumo no país

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 3 de julho de 2026

As vendas de veículos usados avançaram dois dígitos no primeiro trimestre e o setor projeta cerca de 20 milhões de transações no ano. Para o vendedor com mais de dez anos de experiência no ramo automotivo, o número conta uma história maior: a de como o brasileiro está se adaptando ao crédito caro.

O mercado de veículos seminovos e usados vive seu melhor momento da história. Dados da Fenauto, federação que reúne os revendedores do setor, mostram 4,37 milhões de unidades negociadas no primeiro trimestre de 2026, alta de 12,7% sobre o mesmo período do ano anterior. Março sozinho registrou 1,67 milhão de transações, avanço de 21,5% na comparação anual. O resultado vem depois de um 2025 recorde, com cerca de 18,5 milhões de veículos usados comercializados. Se o ritmo atual se mantiver, a projeção da entidade aponta para aproximadamente 20 milhões de transações no fechamento de 2026.

O desempenho chama atenção por acontecer sob juros altos, com a taxa Selic ainda acima de 14%. David do Prado, que vende veículos há mais de dez anos, vê no balcão a explicação que os números sugerem. “O usado virou o novo popular. O cliente que ia comprar o zero entra na loja, faz a conta da parcela e sai com um seminovo de dois ou três anos. Ele não desistiu do carro. Ele mudou de prateleira”, resume. A leitura dele coincide com a das entidades do setor: o mercado de seminovos cresce porque absorve a demanda que o carro novo, encarecido, deixou de atender.

Por que o setor cresce com o crédito caro?

Por que o mercado de seminovos avança justamente com juros altos? A resposta está no efeito substituição. O preço médio do zero-quilômetro subiu de forma acentuada nos últimos anos, e o custo do financiamento amplificou a distância entre o carro novo e o orçamento das famílias. O consumidor que precisa do veículo não sai do mercado: desce um degrau. Migra do zero para o seminovo recente, ou do seminovo recente para o usado mais antigo. Cada degrau dessa escada gera uma transação, e é essa cadeia de trocas que sustenta os volumes recordes do setor.

Dirigentes do segmento estimam que hoje se vendem cerca de sete usados para cada carro novo emplacado no país. A proporção mostra o tamanho do papel social do mercado de seminovos: é por ele que a maioria dos brasileiros acessa o automóvel. A estabilização dos preços dos usados nos últimos dois anos ajudou a movimentar o estoque, e a oferta de crédito para o segmento cresceu junto. Pesquisas de intenção de compra reforçam a tendência. O financiamento parcial segue como a forma de pagamento preferida do consumidor, citada por quase metade dos entrevistados em levantamento recente do setor.

O carro novo alimenta a esteira do usado

Os dois mercados andam juntos, e o elo entre eles é a troca. A Fenabrave, que representa as concessionárias, projeta cerca de 2,62 milhões de emplacamentos de automóveis e comerciais leves em 2026, crescimento na casa de 3%. Cada carro novo vendido tende a colocar um usado na esteira, entregue como parte do pagamento. “Todo zero emplacado gera um usado na troca. Quando a concessionária vende bem, meu estoque melhora junto. É uma engrenagem só”, observa David do Prado. Por isso, analistas acompanham os emplacamentos de novos como indicador antecedente da oferta de seminovos.

Há um componente novo nessa esteira: a eletrificação. As vendas de veículos híbridos e elétricos cresceram mais de 60% em 2025, somando 285 mil unidades, segundo a Fenabrave. Os primeiros compradores desses modelos já começam o ciclo de troca, o que forma um mercado secundário de eletrificados ainda pequeno, mas em expansão. A precificação desses usados é um dos temas em aberto do setor. A depreciação dos elétricos, a vida útil das baterias e o custo de reposição ainda não têm histórico consolidado no Brasil, e isso deve ocupar lojistas e financeiras nos próximos anos.

Os sinais que merecem acompanhamento no restante do ano

O calendário de 2026 adiciona variáveis ao cenário. Copa do Mundo e eleições costumam alterar o ritmo do varejo automotivo, e a própria Fenauto adota tom de cautela nas projeções de preço. A entidade descarta queda generalizada no valor dos usados no curto prazo. Lançamentos pontuais de novos podem pressionar modelos concorrentes diretos, mas o comportamento geral dos preços depende de um conjunto maior de fatores: oferta e demanda, custo do crédito, renda das famílias e o ritmo de produção dos zero-quilômetro.

O principal termômetro segue sendo a trajetória da Selic. O início do ciclo de cortes ainda não devolveu o crédito barato, e a velocidade dessa queda deve definir se a demanda continua descendo a escada dos usados ou volta a subir em direção ao carro novo. Para quem acompanha o varejo, os dados mensais da Fenauto e da Fenabrave funcionam como leitura cruzada do mesmo fenômeno. Emplacamento de novo em alta indica esteira de troca abastecida. Transferência de usado em alta indica consumo ativo na base da pirâmide automotiva.

Um recorde que fala sobre renda, não só sobre carros

O avanço do mercado de seminovos diz menos sobre o setor automotivo e mais sobre a economia das famílias. O brasileiro segue disposto a comprar carro, mas ajustou o alvo ao tamanho do orçamento e do juro. Essa adaptação sustenta um mercado de dimensão própria, com volume sete vezes maior que o de novos e presença em todas as faixas de renda. Enquanto o crédito não ficar mais barato, a tendência é que essa configuração se mantenha.

Para o segundo semestre, tradicionalmente mais aquecido no varejo automotivo, as entidades do setor projetam continuidade do crescimento, ainda que em ritmo menor pela base de comparação elevada. O dado a observar não é apenas o volume total, e sim a composição das vendas: a idade média dos veículos negociados e o peso do financiamento em cada faixa. São esses recortes que mostrarão se o consumidor está subindo ou descendo a escada. Por ora, o recado dos números é claro. Em tempos de juro alto, o seminovo deixou de ser a segunda opção do brasileiro e virou a primeira.

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