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Mudança no comportamento do adolescente nem sempre é rebeldia

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 31 de agosto de 2026

 Irritação, isolamento e impaciência podem ser a forma que o jovem encontrou para nomear as próprias emoções, explica terapeuta

A irritação constante, as respostas impacientes, o isolamento no quarto, a sensação de que o filho adolescente “não é mais o mesmo”. Apesar da preocupação, muitos pais costumam minimizar a situação, resumindo o comportamento a uma revolta típica da idade.

Criadora do Método Aprofundar, a terapeuta Juliana Zorzi afirma, porém, que esse conjunto de sinais pode não ser rebeldia, mas a linguagem que o jovem encontrou para nomear o que sente. Em um cérebro que ainda está em construção, o comportamento muitas vezes fala mais alto do que as palavras.

O alerta ganha dimensão diante dos números: três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos no Brasil declararam sentir tristeza sempre ou na maioria das vezes, conforme dado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). O levantamento entrevistou 118.099 alunos de 4.167 instituições públicas e privadas de ensino no país.

Cérebro em construção

Esse cenário preocupa as famílias, que muitas vezes não conseguem entender os motivos que se escondem em determinados comportamentos. Para Juliana Zorzi, sinais como rebeldia, busca por limites, isolamento e falhas na comunicação nem sempre indicam um problema de conduta. “Às vezes é emoção demais para idade”, afirma.

A avaliação da terapeuta é a de que o comportamento funciona como uma tentativa de se expressar. “É a maneira que ele encontrou para se comunicar, para se fazer entender, para tentar nomear as suas emoções.”

Quando as palavras falham, as atitudes assumem o papel de transmissor. Portanto, cabe ao adulto decifrar a mensagem, ao invés de apenas rotular e reprimir a conduta. Afinal, o mesmo comportamento que os pais enxergam como rebeldia pode ser, na visão da terapeuta, um pedido de ajuda.

A explicação para tamanha intensidade está, em parte, na biologia. O córtex pré-frontal, região responsável pelo controle de impulsos e pela regulação das emoções, é a última área do cérebro a amadurecer, consolidando-se por volta dos 25 anos. Enquanto isso, o sistema responsável pelas emoções opera em alta intensidade.

Na prática, o adolescente sente tudo com mais intensidade e ainda, mas possui a estrutura neurológica desenvolvida para frear as próprias reações. “Esse cérebro em construção vai nomeando e criando novos caminhos para se desenvolver”, explica Juliana Zorzi.

Para a neurociência, o comportamento adolescente não é escolha, mas resultado de um órgão em desenvolvimento. Dessa forma, a função do adulto é atuar como regulador externo, ajudando o filho a construir as próprias ferramentas.

Quando o comportamento pede ajuda

Mudanças bruscas de conduta, isolamento social prolongado, queda no rendimento escolar, distúrbios do sono e irritabilidade persistente estão entre os sinais que merecem atenção, principalmente, quando o sofrimento passa a interferir na rotina do jovem, nas relações familiares e na escola.

O que diferencia o comportamento típico do sofrimento é a persistência dos sintomas e o impacto na rotina do dia a dia. Nesses casos, a avaliação de um profissional especializado é a solução mais apropriada. “A terapia ajuda o adolescente a se entender e se expressar com segurança”, afirma Juliana Zorzi.

Quando o comportamento do filho muda, a primeira reação dos pais costuma ser corrigir o sintoma. Entretanto, a especialista propõe o caminho inverso, que é primeiro identificar o que está por trás de cada comportamento.

“No consultório, o lema é encontrar um espaço seguro, onde ele possa se desenvolver e pertencer”, diz Juliana Zorzi. Na prática, isso significa priorizar a escuta sem julgamento, dar nome aos sentimentos junto com o jovem e manter canais de diálogo abertos, mesmo quando a resposta vem com rispidez.

Além disso, é indispensável observar o que mudou na vida do filho: escola, amigos, sono, tempo de telas. Com essa resposta, fica mais fácil conversar em momentos em um momento apropriado e com calma, longe do calor de uma discussão.

Desenvolvido pela terapeuta, o Método Aprofundar integra psicopedagogia, arteterapia, terapia cognitivo-comportamental (TCC) e psicoeducação parental, incluindo a família no processo terapêutico.

Para Juliana Zorzi, o primeiro passo não é corrigir o adolescente, mas compreendê-lo. Entender essa mudança de comportamento como uma tentativa de se comunicar facilita para que o adolescente encontre maneiras mais saudáveis para se expressar e pedir ajuda.

Muitas vezes, o adolescente não necessita de correção, mas de presença e escuta. Nesse processo de amadurecimento, contar com a ajuda de um profissional facilita passar por essa etapa da vida.

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