Incerteza política pode adiar compra de máquinas e implementos agrícolas
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 23 de setembro de 2026
Setor faturou R$ 26,2 bilhões entre janeiro e julho, queda de 25,8% sobre 2025; histórico de outros anos eleitorais mostra que política pode aumentar cautela, mas crédito, juros, renda do produtor e commodities também pesam nas decisões de investimento.
* Conteúdo desenvolvido pela jornalista Daiane de Souza (0007147/SC).
O mercado brasileiro de máquinas e implementos agrícolas atravessa 2026 em ritmo mais lento. Entre janeiro e julho, as vendas do segmento movimentaram R$ 26,2 bilhões, valor 25,8% inferior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
Somente em julho, a receita líquida da indústria de máquinas e implementos agrícolas ficou em aproximadamente R$ 4,86 bilhões. O resultado representa retração de 27,5% na comparação com julho de 2025 e queda de 2,1% diante de junho de 2026.
O desempenho acontece justamente em um ano de eleição presidencial e em um cenário no qual produtores precisam conciliar incerteza econômica, rentabilidade das safras, custo do financiamento e decisões de investimento.
A proximidade das eleições já aparece, inclusive, nos indicadores de incerteza. Em agosto de 2026, o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), calculado pela FGV IBRE, avançou 2,3 pontos e chegou a 111,7 pontos. Segundo a economista Anna Carolina Gouveia, da FGV IBRE, o movimento refletiu, entre outros fatores, o debate sobre contas públicas e as políticas econômicas propostas pelos candidatos.
Isso não significa, entretanto, que a eleição seja responsável pela queda das vendas de máquinas agrícolas. O histórico de outros anos eleitorais mostra que essa relação não é automática.
Máquinas agrícolas acumulam queda de 25,8% em 2026
Os números de 2026 mostram uma retração significativa.
De janeiro a julho, a receita de R$ 26,2 bilhões do segmento ficou 25,8% abaixo do mesmo período do ano anterior. A Abimaq trabalha com a possibilidade de alguma recuperação entre agosto e outubro, meses que tradicionalmente concentram negociações do setor, mas ainda projeta queda de aproximadamente 20% nas vendas de máquinas agrícolas no fechamento de 2026.
Os números de tratores e colheitadeiras também ajudam a dimensionar o momento.
Em julho foram comercializados 6.981 tratores, contra 7.402 em junho, retração de 5,69%. Considerando somente as vendas para usuários finais, foram 2.790 unidades, quantidade 23,3% inferior à de julho de 2025.
No mercado de colheitadeiras, foram comercializadas 166 unidades em julho. Dessas, 121 foram destinadas ao usuário final, resultado 37,6% menor que o registrado no mesmo mês do ano anterior.
O cenário atual também dá continuidade a uma sequência de resultados mais fracos observada nos últimos anos.
Segundo a Anfavea, o mercado de máquinas agrícolas registrou 49,8 mil unidades vendidas no varejo em 2025, queda de 3,6% sobre o ano anterior e cerca de 10 mil unidades abaixo do resultado de 2021. Para 2026, a associação projetou nova retração, desta vez de 6,2% nas vendas no varejo.
As metodologias da Abimaq e da Anfavea são diferentes — inclusive porque uma acompanha receitas e a outra determinados grupos de máquinas em unidades —, mas ambas apontam para um ambiente desafiador para o setor em 2026.
Juros e rentabilidade ajudam a explicar a retração
Embora 2026 seja um ano eleitoral, representantes da indústria vêm apontando principalmente para fatores econômicos ao explicar o desempenho das vendas.
A Abimaq relacionou a demanda mais fraca ao período prolongado de juros elevados, ao endividamento e ao alto custo de captação. A entidade também destacou a rentabilidade do produtor como um dos principais problemas enfrentados pelo mercado de máquinas agrícolas neste ano.
O problema é particularmente importante porque tratores, colheitadeiras e implementos são bens duráveis.
Um produtor pode utilizar o mesmo equipamento durante vários anos. Consequentemente, a decisão de compra costuma envolver projeções sobre produtividade, receitas futuras, juros e capacidade de pagamento.
Se o financiamento fica caro e as margens da atividade diminuem, investimentos que poderiam ser realizados imediatamente podem ser adiados.
Esse comportamento também aparece no setor de máquinas e equipamentos como um todo. Em setembro, a Abimaq revisou sua previsão para 2026 e passou a projetar queda de 8,4% na receita líquida total da indústria de máquinas e equipamentos. Anteriormente, a expectativa era de retração de 3,2%. A entidade atribuiu a revisão principalmente ao ambiente de juros elevados.
Plano Safra 2026/2027 tenta estimular investimentos
O crédito rural continua sendo uma das principais ferramentas para viabilizar investimentos no campo.
O Plano Safra 2026/2027 destinou R$ 525,1 bilhões à agricultura empresarial. Desse total, R$ 384,9 bilhões estão direcionados ao custeio e à comercialização e R$ 140,2 bilhões a investimentos.
As linhas destinadas a investimentos apresentam taxas entre 8,5% e 12,5% ao ano, dependendo do programa e da finalidade.
Entre os programas contemplados estão Moderfrota, Inovagro, Proirriga, RenovAgro, PCA, Prodecoop e Procap-Agro. Os recursos podem financiar modernização das propriedades e aquisição de máquinas, equipamentos e implementos agrícolas.
Essa diferença nas condições de crédito ajuda a explicar por que programas subsidiados ou direcionados são tão relevantes para o mercado.
A própria Anfavea observou que, apesar da retração geral, tratores de baixa potência ligados à agricultura familiar apresentaram desempenho mais favorável, associado, entre outros fatores, às condições do Pronaf Mais Alimentos.
Incerteza econômica voltou a subir perto das eleições de 2026
Além dos juros e da rentabilidade agrícola, existe outro componente no cenário atual: a incerteza.
O IIE-Br havia recuado 1,9 ponto em julho de 2026, chegando a 109,4 pontos. Em agosto, entretanto, voltou a subir e alcançou 111,7 pontos.
A FGV associou o movimento de agosto não apenas às eleições, mas também às discussões sobre contas públicas, às propostas econômicas apresentadas durante a campanha, aos potenciais efeitos do El Niño, ao conflito no Oriente Médio e às dúvidas sobre a trajetória dos juros.
Ou seja, o ambiente eleitoral é um dos componentes da incerteza atual, e não uma explicação isolada.
Essa distinção é importante porque o Brasil já passou por eleições em que a incerteza econômica cresceu de maneira expressiva e outras em que isso não aconteceu.
Eleição de 2002 teve forte aumento da incerteza
Um dos exemplos históricos mais marcantes aconteceu em 2002.
Naquele ano, o Indicador de Incerteza da Economia aumentou cerca de 27 pontos entre janeiro e outubro, segundo análise histórica da FGV IBRE.
Em outubro, o indicador chegou a 132,1 pontos, um dos maiores níveis de sua série histórica. A FGV relaciona aquele pico à tensão existente antes da primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial.
Aquele cenário envolvia dúvidas do mercado sobre os rumos da política econômica brasileira.
Depois, a chamada Carta ao Povo Brasileiro ajudou a reduzir parte das preocupações e o indicador recuou.
O episódio mostra como expectativas relacionadas a uma eleição podem interferir na percepção de risco dos agentes econômicos.
Em 2010, eleição não elevou a incerteza da mesma forma
O comportamento não se repetiu em todas as eleições.
Segundo a FGV, 2010 foi uma exceção entre os ciclos analisados. Naquele momento, o cenário externo era favorável, os preços das commodities estavam elevados e havia expectativa de continuidade de parte da política econômica existente.
Como resultado, a eleição presidencial não produziu um choque de incerteza comparável ao observado em 2002.
Isso reforça que o efeito de uma eleição sobre investimentos depende das circunstâncias econômicas e das expectativas existentes naquele momento.
Em 2018, vendas cresceram mesmo em ano eleitoral
O próprio mercado de máquinas oferece um exemplo ainda mais claro.
Em 2018, outro ano de eleição presidencial, foram comercializadas 47,8 mil máquinas agrícolas e rodoviárias no Brasil.
Em 2017 haviam sido 42,4 mil.
Isso significa que as vendas cresceram 12,7% em pleno ano eleitoral, segundo a Anfavea. A produção também avançou 23,8%, passando de aproximadamente 53 mil para 65,7 mil unidades.
Portanto, não existe base histórica para afirmar que eleições necessariamente provocam queda nas vendas de máquinas e implementos.
O efeito depende de fatores como juros, disponibilidade de financiamento, preços agrícolas, confiança, câmbio, condições climáticas e perspectivas para a economia.
2022 também terminou com mercado aquecido
O comportamento observado em 2022 reforça essa conclusão.
Aquele foi outro ano marcado por eleição presidencial e por níveis elevados de incerteza em determinados momentos.
Ainda assim, o mercado de máquinas agrícolas vinha de um período de forte expansão.
Segundo a Anfavea, o início desta década teve três anos consecutivos de crescimento e culminou em mais de 70 mil tratores de rodas e colheitadeiras de grãos vendidos em 2022.
Depois desse pico, o cenário mudou.
Em 2024, as vendas no atacado desses equipamentos chegaram a 48,9 mil unidades, quase 20% abaixo de 2023. A entidade relacionou o resultado à redução da safra de grãos, à queda nos preços das commodities e à menor atratividade das linhas de financiamento.
Mais uma vez, os dados mostram que o desempenho do setor não acompanha automaticamente o calendário eleitoral.
Então por que 2026 preocupa o mercado?
A particularidade de 2026 está na combinação de diferentes fatores.
Há retração concreta nas vendas de máquinas agrícolas, juros ainda elevados, problemas de rentabilidade em algumas atividades e aumento recente da incerteza econômica justamente durante a aproximação das eleições.
Para o produtor, isso pode aumentar a necessidade de selecionar investimentos.
Comprar um equipamento de alto valor significa comprometer recursos que poderiam permanecer disponíveis para custeio, compra de insumos ou formação de reserva financeira.
Por outro lado, deixar de comprar um implemento necessário também pode ter custo.
Se um equipamento permite transportar mais carga por viagem, diminuir horas de trator ou reduzir trabalho manual, adiar sua aquisição pode significar manter uma operação menos eficiente.
Implementos menores também entram nessa conta
Nem todo investimento em mecanização rural envolve uma colheitadeira ou um trator de centenas de milhares de reais.
Implementos utilizados junto aos equipamentos já existentes também podem melhorar a produtividade da propriedade.
Um exemplo é a carreta agrícola basculante de 5 toneladas, utilizada para movimentar materiais dentro da propriedade rural.
A PCH 5000, da Porto Agro, possui capacidade nominal para até 5.000 kg e pode ser utilizada no transporte de café, milho, outros grãos, silagem, adubos, sementes, terra e cargas gerais.
Segundo as especificações disponibilizadas pela fabricante, o equipamento possui 3 metros de comprimento, 1,80 metro de largura e 0,95 metro de altura, além de chassi reforçado em chapa de 1/4 e basculamento hidráulico automático.
A carreta pode ser configurada com rodado simples de duas rodas, rodado felipado de quatro rodas ou rodado tandem.
Capacidade de transporte pode reduzir viagens
Para avaliar um investimento desse tipo, uma das contas possíveis envolve a capacidade operacional.
A PCH 5000 suporta nominalmente até 5 toneladas.
Em uma atividade na qual é necessário transportar grandes volumes de café, grãos, silagem ou adubo, uma capacidade maior pode diminuir o número de deslocamentos necessários dentro da propriedade.
A Porto Agro informa, por exemplo, uma referência de aproximadamente 166 balaios de café de 30 kg, equivalentes a cerca de 4.980 kg.
A quantidade efetivamente transportada deve respeitar os limites técnicos do equipamento e do trator, além das características do terreno e do próprio material.
Ainda assim, o exemplo permite visualizar como o produtor pode calcular o retorno.
Se um equipamento reduz viagens, ele potencialmente reduz horas trabalhadas do trator, consumo de combustível e tempo do operador.
Basculamento hidráulico também interfere na produtividade
Outro elemento é o tempo gasto na descarga.
Em uma carreta basculante hidráulica, o sistema do trator aciona o mecanismo que eleva a carroceria.
Isso pode facilitar a descarga de determinados materiais e reduzir a necessidade de trabalho manual.
Para uma propriedade que realiza esse tipo de operação frequentemente, a economia acumulada durante meses ou anos pode entrar no cálculo de retorno do investimento.
O raciocínio vale para praticamente qualquer implemento.
Em vez de analisar somente o preço de compra, é possível calcular quanto custa executar determinada atividade atualmente e quanto custaria realizá-la com o novo equipamento.
Comprar ou esperar passar a eleição?
Os dados históricos não oferecem uma resposta universal.
Em 2002, a incerteza econômica disparou durante o período eleitoral. Em 2010, o comportamento foi diferente. Em 2018, as vendas de máquinas agrícolas e rodoviárias cresceram 12,7%, apesar da eleição. Em 2022, tratores e colheitadeiras alcançaram um pico superior a 70 mil unidades.
Em 2026, por sua vez, existe uma combinação mais desfavorável para o setor: as vendas de máquinas agrícolas acumulavam queda de 25,8% até julho, enquanto o indicador de incerteza econômica voltou a subir em agosto.
Mas os próprios representantes da indústria vêm apontando juros, crédito e rentabilidade do produtor como fatores centrais para explicar a retração atual.
Isso significa que esperar simplesmente o resultado das urnas não necessariamente resolve a questão.
Para o produtor, a análise pode ser mais objetiva: qual é o custo do equipamento, quanto custará financiá-lo, qual economia operacional ele proporciona e em quanto tempo o investimento poderá retornar?
Planejamento se torna mais importante em 2026
O mercado de máquinas agrícolas chega ao período eleitoral de 2026 em uma situação diferente daquela observada em 2018 ou 2022.
Depois do forte crescimento do início da década, as vendas perderam força. Em 2025, a Anfavea registrou o quarto ano consecutivo de retração nas vendas internas de máquinas agrícolas e projetou nova queda de 6,2% no varejo para 2026.
Já os números mais recentes da Abimaq mostram uma retração ainda mais intensa em receita: 25,8% entre janeiro e julho.
Ao mesmo tempo, existem R$ 140,2 bilhões previstos pelo Plano Safra 2026/2027 especificamente para investimentos, com diferentes programas permitindo financiar modernização, máquinas e implementos.
O cenário, portanto, não é simplesmente de paralisação dos investimentos rurais.
É um ambiente em que custo do crédito, rentabilidade, incerteza econômica e necessidade operacional precisam ser colocados na mesma conta.
Para quem depende de novos equipamentos para aumentar capacidade, diminuir deslocamentos ou reduzir trabalho manual, o investimento pode continuar fazendo sentido mesmo em um ano eleitoral.
Para quem consegue operar sem prejuízo com a estrutura atual, preservar caixa e aguardar melhores condições também pode ser uma possibilidade.
Os ciclos anteriores mostram justamente isso: eleição pode aumentar a incerteza e interferir nas expectativas, mas não determina sozinha quanto o produtor brasileiro investirá em máquinas e implementos.
Referências
FGV IBRE — Indicador de Incerteza da Economia e análises dos ciclos eleitorais brasileiros.
Anfavea — Balanços e perspectivas do mercado de máquinas agrícolas.
Abimaq — Indicadores Conjunturais da indústria de máquinas e equipamentos.
Ministério da Agricultura e Pecuária — Plano Safra 2026/2027.
Porto Agro — especificações técnicas da PCH 5000.