Obsessão pela perda de peso impulsiona mercado clandestino de canetas emagrecedoras
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 5 de novembro de 2026
Por Brunna Boaventura

O Brasil está diante de uma contradição preocupante. Nunca tivemos tantas possibilidades de tratamento para a obesidade e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão fácil transformar um medicamento em símbolo de aceitação social. As chamadas canetas emagrecedoras, à base de princípios ativos como semaglutida e tirzepatida, representam um avanço importante da medicina, mas sua popularização também revela uma relação cada vez mais imediatista com o corpo. Em uma sociedade que valoriza resultados rápidos, a promessa de perder peso em poucas semanas passou a justificar decisões que colocam a própria saúde em risco.
O problema ganhou uma dimensão que vai muito além dos consultórios. Segundo estimativas do Itaú BBA, o mercado de medicamentos para emagrecimento comercializados fora das drogarias deve movimentar quase R$ 19 bilhões no Brasil em 2026. Desse total, aproximadamente R$ 6,5 bilhões correspondem a produtos trazidos ilegalmente do Paraguai. Estamos falando de um comércio que cresce impulsionado não apenas pela dificuldade de acesso aos tratamentos, mas também pela disposição de consumidores de recorrer a canais clandestinos para alcançar o corpo que desejam.
O alerta não se restringe ao Brasil. Em março de 2026, a revista científica The Lancet publicou a reportagem The boom in counterfeit obesity drugs, da jornalista Sophie Cousins, sobre a expansão internacional dos medicamentos falsificados para obesidade. A publicação aponta que preços elevados, dificuldades de cobertura dos tratamentos e a crescente procura pelo emagrecimento criam condições favoráveis à comercialização de produtos fraudulentos. O fenômeno evidencia como a demanda por esses medicamentos também se tornou um problema de saúde pública.
É importante reconhecer que esses medicamentos mudaram o tratamento da obesidade e de determinadas condições metabólicas. Para pacientes com indicação clínica, acompanhamento adequado e avaliação individualizada, eles podem trazer benefícios significativos. O problema começa quando uma ferramenta terapêutica passa a ser tratada como um produto de consumo, utilizado por influência de amigos, celebridades ou redes sociais, independentemente das necessidades de cada organismo.
A comparação constante com corpos que emagrecem rapidamente cria uma sensação de inadequação mesmo entre pessoas que não apresentam indicação médica para o tratamento. O emagrecimento deixa de ser uma decisão relacionada à saúde e passa a funcionar como uma exigência de pertencimento. Se todos estão perdendo peso, permanecer com o mesmo corpo parece significar estar ficando para trás. É nesse ambiente que o desejo pelo resultado pode superar a preocupação com a procedência do medicamento.
Pesquisa realizada pela Scanntech ajuda a dimensionar esse fenômeno. Cerca de 6% dos brasileiros já utilizam medicamentos dessa categoria, enquanto quase um terço demonstra interesse em recorrer a eles caso os preços sejam menores. O dado não significa que todas essas pessoas precisem de tratamento farmacológico. Revela, sobretudo, o tamanho de uma demanda que mistura necessidades legítimas de saúde, expectativas estéticas e influência social.
Quando o acesso ao medicamento se dá por grupos de mensagens, vendedores informais ou indicações de conhecidos, o consumidor perde garantias fundamentais. Não há segurança sobre a composição, a concentração, a esterilidade ou as condições de transporte e armazenamento do produto. No caso de medicamentos injetáveis, essas incertezas são especialmente graves. Uma embalagem aparentemente intacta não comprova que o conteúdo seja autêntico ou tenha sido conservado corretamente.
Também não podemos ignorar os riscos do uso sem acompanhamento. Náuseas, vômitos, desidratação, alterações gastrointestinais e perda de massa muscular estão entre as preocupações que exigem avaliação profissional. O tratamento precisa considerar o histórico clínico, a alimentação, a preservação da musculatura e as condições de saúde do paciente, incluindo aspectos psicossociais. Reduzir o peso na balança não é, por si só, sinônimo de melhorar a saúde.
Essa discussão foi aprofundada no artigo Behavior change support in the new era of obesity care, que publiquei em parceria com o pesquisador Stuart W. Flint, da Universidade de Leeds, na revista científica BMC Medicine, em 2026. Defendemos que a ampliação do acesso aos medicamentos contra a obesidade precisa ser acompanhada de suporte comportamental, psicológico e social. O tratamento farmacológico, isoladamente, não contempla todos os fatores que influenciam a saúde e a capacidade de sustentar mudanças ao longo do tempo.
Há ainda uma questão que costuma receber menos atenção: o impacto psicológico do emagrecimento e o medo de recuperar o peso perdido. No artigo, destacamos que a perda de peso não elimina necessariamente as consequências do estigma, as dificuldades com a imagem corporal ou os desafios de adaptação às mudanças físicas. Essas questões podem persistir mesmo quando o tratamento apresenta bons resultados clínicos.
Isso não significa que o uso prolongado dos medicamentos seja inadequado. A obesidade é uma doença crônica e exige tratamento contínuo. O risco está em reduzir todo o cuidado ao número mostrado na balança, sem considerar alimentação, comportamento, saúde mental e qualidade de vida. Quando o medicamento se torna a única resposta para a autoestima, a relação com o próprio corpo pode continuar marcada por insegurança e insatisfação.
O avanço do mercado clandestino mostra que a discussão sobre as canetas emagrecedoras não pode ficar restrita à eficácia dos medicamentos ou à redução de preços. É necessário enfrentar a desinformação, ampliar o acesso a tratamentos seguros e, principalmente, questionar a cultura que transforma o emagrecimento em uma obrigação permanente. Enquanto o corpo ideal for apresentado como algo que precisa ser conquistado a qualquer custo, haverá espaço para quem promete atalhos.
A medicina avançou ao oferecer novas ferramentas contra a obesidade. O desafio agora é impedir que esse progresso seja capturado pela ansiedade estética e por um mercado que lucra com a vulnerabilidade das pessoas. Nenhum resultado na balança compensa a perda da segurança, da autonomia e da saúde.
(*) Brunna Boaventura, PhD, é nutricionista, pesquisadora e educadora, com pós-doutorado em obesidade vinculado à Harvard Medical School