Conectados nas redes, desconectados da vida real: o socorro silencioso dos adolescentes
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 16 de outubro de 2026
Terapeuta Juliana Zorzi defende limites, resiliência e a participação da família; dados mostram que metade dos jovens passa mais tempo online do que gostaria

Cada vez mais conectados nas plataformas digitais, mas distantes da vida real, muitos adolescentes não almejam mais liberdade, mas ajuda. A avaliação é da terapeuta Juliana Zorzi, criadora do Método Aprofundar, que abordou o tema em sua participação durante o Women Invest Summit, realizado em 24 de setembro, no Jockey Club de São Paulo.
O alerta de Juliana ganha peso diante dos números. Em levantamento divulgado em agosto de 2026, o Instituto Alana, em parceria com a Koga, ouviu 505 adolescentes de 13 a 17 anos, entre 15 e 25 de junho, e identificou que um em cada dois jovens brasileiros se diz refém de um tempo de conexão maior do que aquele que consideraria adequado.
O uso diário é intenso: em quase oito em cada dez casos, a conexão supera as três horas por dia, e, para 15% dos entrevistados, a marca passa de oito horas. Quase metade (49%) percebe, ainda, perda de criatividade que atribui à internet.
As consequências desse excesso vão além da autopercepção dos próprios jovens. O World Happiness Report 2026, que comparou adolescentes de 47 países, incluindo o Brasil, aponta que o risco de depressão é duas vezes maior entre quem permanece cinco horas ou mais por dia nas plataformas. Além disso, a cada hora adicional na frente da tela, esse risco cresce 13%.
A América Latina lidera a exposição: um em cada oito adolescentes da região (12,1%) passa sete horas ou mais por dia nas redes, índice mais que o dobro do registrado na Europa Ocidental (4,9%).
Fio condutor para as famílias
Se o comportamento do adolescente comunica um pedido de ajuda, decifrar essa linguagem é uma competência. A tese de Juliana não nasceu apenas da observação clínica. Ela carrega a marca de uma experiência pessoal. “Em um determinado momento da minha vida eu tive que ter muita calma, muita resiliência, para modificar algumas coisas e respeitar o processo”, contou ao público do evento. “E nessa construção eu comecei a perceber que eu poderia ser um fio de condução para outras famílias”, disse.
É na clínica que essa percepção se materializa. A especialista acompanha diariamente o descompasso entre a vida digital e a real dos jovens que atende. “Eu trabalho muito tanto com adolescentes como com famílias”.
Em meio a esse processo de entendimento e dúvidas tanto por parte dos pais quanto dos filhos, a ausência do acolhimento humano correto leva o jovem a buscar substitutos digitais.
A inteligência artificial generativa já faz parte da rotina de 65% das crianças e dos adolescentes brasileiros, apontou pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação. Entre os usos registrados está o apoio emocional, em que uma parcela dos jovens conversa com chatbots sobre sentimentos e problemas pessoais.
“Na clínica a gente fala muito sobre isso, sobre como respeitar os seus processos e entender a dor e todo esse crescimento, que é muito importante”, complementou Juliana Zorzi.
O importante papel da família
Se o adolescente busca no digital o acolhimento que não encontra atualmente na vida real, o caminho de resgate passa pela família. Para Juliana Zorzi, o processo terapêutico não pode se limitar ao jovem: os pais precisam entrar na conversa. “Eu abraço as famílias nesse processo também, com alguns treinamentos com os pais, mostrando como eles percebem determinados códigos e assim eles vão saber conduzir nessa caminhada”, explicou.
A proposta tem nome: psicoeducação parental, base do Método Aprofundar, que integra psicopedagogia, arteterapia e terapia cognitivo-comportamental (TCC). Na prática, os pais aprendem a decifrar o que o comportamento do filho comunica, do sono ao rendimento escolar, e a agir antes que os sinais evoluam para quadros mais graves. “Com a humanização das terapias, direcionamento estratégico e acolhimento, é possível ter uma maior qualidade de vida”, destacou Juliana Zorzi.
A recomendação aos pais é observar mudanças persistentes de comportamento, manter canais de diálogo abertos e procurar avaliação profissional quando o sofrimento interferir na rotina.
Caso você esteja passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito 24 horas por dia pelo telefone 188, por e-mail, pelo chat no site.
Para conhecer mais sobre o trabalho de Juliana Zorzi e sobre o Método Aprofundar, acesse o perfil da terapeuta no Instagram.