Cineasta Celina Torrealba integra conferência sobre Elizabeth Bishop na Sorbonne e destaca potencial de documentário sobre a passagem da poeta pelo Brasil
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 29 de maio de 2026
Participação da diretora em encontro acadêmico internacional em Paris reacende debate sobre memória, literatura e as conexões culturais entre Elizabeth Bishop e o Brasil no audiovisual contemporâneo
A relação entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e o Brasil volta ao centro do debate cultural internacional com a realização da conferência “ Postcard Poetry and Poetics ”, promovida pela Sorbonne Université entre os dias 3 e 6 de junho de 2026. O encontro reúne pesquisadores, escritores, curadores, cineastas e especialistas de universidades europeias e norte-americanas para discutir literatura modernista, arquivos visuais, memória e circulação cultural transnacional, tendo Bishop como uma das figuras centrais da programação.
Entre os integrantes do board da conferência está a cineasta Celina Torrealba, que acompanha o crescimento do interesse internacional pela dimensão brasileira da trajetória da poeta. A programação inclui mesas acadêmicas sobre as cartas-postais de Bishop, leituras dramáticas, debates sobre arquivo literário e uma exibição especial do documentário Elizabeth Bishop: From Brazil with Love (2025), da cineasta Vivian Ostrovsky, seguida de debate no Christine Cinéma Club. Segundo a diretora, a conferência na Sorbonne amplia a internacionalização desse debate ao aproximar pesquisadores europeus e latino-americanos em torno da obra da poeta.
Para Celina Torrealba, o documentário ganha relevância justamente por conectar literatura, afetividade e linguagem cinematográfica em torno da experiência brasileira de Bishop: “ Esse documentário é especialmente significativo porque mostra como o Brasil foi decisivo para a formação da voz poética da Elizabeth Bishop. Alguns de seus poemas mais importantes nasceram durante os anos em que viveu aqui ”, afirma a diretora.
Elizabeth Bishop, Brasil e a construção de uma memória cultural compartilhada
Considerada uma das principais vozes da poesia do século XX, Elizabeth Bishop viveu no Brasil por mais de 15 anos, especialmente entre as décadas de 1950 e 1960. Durante esse período, construiu uma relação profunda com cidades como Petrópolis, Ouro Preto e Rio de Janeiro. Foi companheira de Lota de Macedo Soares por quase duas décadas, urbanista e arquiteta autodidata brasileira com quem dividiu casa e vida, numa relação que o mundo da época não nomeava, mas que as duas construíram com a mesma exigência com que Lota construía tudo.
A relação entre Bishop e Lota é considerada por pesquisadores uma das histórias afetivas mais emblemáticas do meio artístico e intelectual do século XX, influenciando diretamente a produção literária da poeta e ampliando o debate contemporâneo sobre memória, identidade e pertencimento.
Segundo Celina Torrealba, esse aspecto histórico-afetivo ajuda a explicar o interesse renovado do audiovisual pela autora. “ O filme também revela uma das grandes histórias de amor entre mulheres no meio artístico do século XX. Existe uma dimensão profundamente humana nessa relação entre Bishop e Lota, que atravessa literatura, arquitetura, paisagem e criação”, analisa.
A cineasta destaca ainda que a permanência de Bishop no Brasil transformou a percepção da autora sobre território, deslocamento e observação cotidiana, elementos centrais de sua obra.
“ A trajetória da Bishop no Brasil permite discutir pertencimento, estrangeiridade e transformação cultural. São temas extremamente contemporâneos e muito potentes para o documentário”, diz.
Linguagem experimental e cinema-ensaio ampliam força do documentário
Outro ponto destacado por Celina Torrealba é a abordagem estética adotada por Vivian Ostrovsky no documentário exibido durante a conferência da Sorbonne. Conhecida por trabalhos ligados ao cinema experimental e ao uso de arquivos pessoais, Ostrovsky constrói a narrativa a partir da combinação entre imagens, fragmentos poéticos, cartas e registros históricos.
Para Celina, essa linguagem aproxima o longa do chamado cinema-ensaio contemporâneo, formato que ganhou espaço crescente em festivais internacionais e instituições culturais.
“ Existe uma sensibilidade muito própria na linguagem da Vivian Ostrovsky . Ela une arquivo, poesia e cinema-ensaio de uma forma muito orgânica, criando uma experiência que vai além da biografia tradicional ”, afirma.
A diretora observa que o crescimento do interesse por documentários autorais e narrativas híbridas vem ampliando o espaço para produções ligadas à memória cultural e trajetórias artísticas internacionais.
Além da exibição do longa, a conferência da Sorbonne também promove debates sobre arquivos literários, circulação transnacional de imagens, poesia modernista e processos de curadoria ligados ao acervo de Bishop, incluindo a mesa “ Curating Bishop’s Postcards ”, organizada por pesquisadores da University of Sheffield, University of Georgia e Vassar College.
Conferência da Sorbonne reforça diálogo entre cinema, literatura e identidade cultural
Para Celina Torrealba, a força do documentário também está na identificação subjetiva entre a diretora e a personagem. Tanto Vivian Ostrovsky quanto Elizabeth Bishop compartilham experiências ligadas ao deslocamento cultural e à relação afetiva construída com o Brasil.

“ Existe uma cumplicidade íntima entre diretora e sujeito. Ambas encontraram no Brasil uma fonte inesgotável de criação artística”, afirma.
A participação da cineasta no board da conferência evidencia ainda a crescente internacionalização dos debates sobre patrimônio cultural brasileiro e sua representação no audiovisual contemporâneo. Em um cenário no qual universidades, festivais e plataformas buscam narrativas autorais e transnacionais, a experiência brasileira de Elizabeth Bishop ganha novo potencial de circulação global.
“ Quando a universidade, cinema e literatura se encontram, surgem novas formas de preservar a memória e construir narrativas culturais mais amplas. Esse diálogo internacional é fundamental para manter essas histórias vivas ”, conclui.
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