Trocar de auditor não é problema; esconder os motivos, sim
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 27 de maio de 2026
*Rodrigo Barbeti, diretor e sócio-fundador da Grupo BLB
No Brasil, a troca de auditor independente quase sempre vira manchete, e raramente pelo motivo certo. O anúncio costuma acender alertas no mercado, levantar suspeitas e alimentar especulações sobre irregularidades. Mas essa reação automática não reflete, necessariamente, a realidade dos fatos nem a evolução das práticas de governança corporativa no país.
Em muitos casos, a substituição é simplesmente regulatória. Empresas supervisionadas pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) estão sujeitas a regras de rotatividade do sócio responsável pela auditoria, mecanismo criado justamente para preservar independência técnica e evitar vínculos excessivamente longos. Ou seja, parte das trocas não decorre de crise, mas de conformidade.
Há ainda um movimento estrutural em curso. O perfil das empresas brasileiras mudou, e rapidamente. O crédito ficou mais seletivo, o escrutínio regulatório aumentou, investidores estão mais exigentes e operações estruturadas, como debêntures, FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) e M&A (Fusões e Aquisições), tornaram-se mais frequentes. Esse novo ambiente exige auditorias com maior especialização técnica e capacidade de dialogar com bancos, fundos e conselhos de administração.
Quando as empresas crescem, passam por reorganizações societárias, profissionalizam a gestão ou acessam o mercado de capitais, revisar parceiros estratégicos, inclusive auditores, é uma decisão de governança. Não de ocultação. O problema surge quando a comunicação falha. Em um cenário ainda marcado por crises corporativas recentes e perda de confiança institucional, a percepção pesa tanto quanto o fato. A ausência de explicações claras sobre os critérios da mudança abre espaço para ruídos que poderiam ser evitados com transparência objetiva.
E transparência, aqui, não significa exposição indevida. Mas sim, explicar o contexto, houve mudança de porte? Nova estratégia? Exigência regulatória? Especialização setorial? Rodízio previsto? A narrativa precisa acompanhar a decisão para que o mercado compreenda o racional técnico por trás dela.
Mais transparência, menos ruído
Quando bem conduzida e comunicada, a troca de auditor tende a produzir o efeito oposto ao da suspeita, pois reforça credibilidade. Em operações de crédito e processos de M&A, por exemplo, o parecer do auditor é elemento central na avaliação de risco. A clareza sobre a transição reduz incertezas, protege a reputação e preserva valor.
O verdadeiro risco, portanto, não está na mudança, mas na opacidade. Em mercados mais maduros, como o norte-americano, substituições de auditor são formalizadas com detalhamento público de motivos e procedimentos. No Brasil, esse debate ainda avança, mas o amadurecimento institucional passa justamente por normalizar decisões técnicas e afastar leituras precipitadas.
A questão não deveria ser apenas a troca de auditor, mas como foi conduzido esse processo. Mudar pode ser parte natural do ciclo de crescimento, o que gera dúvida é a omissão das reais motivações. Em um ambiente em que confiança se tornou ativo estratégico, maturidade corporativa se mede menos pela permanência de parceiros e mais pela forma como se gerenciam, e se comunicam, as mudanças.
* Rodrigo Barbeti é CEO e sócio-fundador do Grupo BLB. Com mais de 25 anos de experiência em Auditoria Independente, Consultoria Tributária e Societária, Operações Estruturadas e processos de M&A, é reconhecido nacionalmente por sua atuação nas áreas de auditoria, consultoria e educação executiva. Ao longo da carreira esteve à frente de importantes negociações com fundos de investimentos e players estratégicos nacionais e internacionais. O histórico profissional lhe confere uma visão clínica, sistêmica e integrada de todas as dimensões do negócio.
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