Na corrida da inteligência artificial, Brasil precisa ser protagonista, diz executiva da Abria
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 26 de outubro de 2026
- Talento existe, mas faltam condições para desenvolver e manter tecnologia no País
- Expansão de data centers precisa estimular pesquisa, formação profissional e geração de propriedade intelectual
- Aplicações em agricultura, saúde e serviços financeiros abrem espaço para empresas brasileiras se destacarem
O uso da inteligência artificial em trabalhos corriqueiros e burocráticos cresce, mas o Brasil ainda tem muito a avançar no desenvolvimento estratégico dessa tecnologia. Essa é a avaliação de Elaine Coimbra, palestrante, professora, vice-presidente de comunicação e marketing da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria) e diretora de comunicação da AI Safety Brazil. Na entrevista a seguir, Elaine fala sobre a necessidade de infraestrutura e regulação para o País avançar nessa área, apesar de contar com criatividade e profissionais capacitados. “Meu receio é que o Brasil continue na plateia, consumindo e aplaudindo o espetáculo tecnológico dos Estados Unidos e da China, quando também deveria estar no palco”, diz.
Há também preocupações com a forma como a tecnologia é utilizada no Brasil. A questão é compartilhada por outros países do continente: a América Latina lidera o ranking global de exposição de dados sensíveis em ferramentas de IA generativa. Segundo levantamento da Check Point Research realizado em julho e agosto de 2026, 3,5% das solicitações enviadas à IA na região, o equivalente a uma em cada 29, apresentam alto potencial de vazamento. A taxa supera as registradas na América do Norte, na Europa e na Ásia-Pacífico, acendendo um alerta sobre a segurança das informações compartilhadas em plataformas que processam textos, documentos e tarefas automatizadas. “Dados são patrimônio estratégico. Quando uma empresa não sabe onde suas informações estão sendo processadas e armazenadas, ela pode estar colocando em risco sua vantagem competitiva”, explica a vice-presidente da Abria.
Confira a entrevista completa.
Engrenagens do Crescimento — A inteligência artificial passou de tema de nicho a assunto de conselho de administração em poucos anos. Onde o Brasil está hoje nessa corrida: somos mais usuários ou também produtores de tecnologia de IA?
Elaine Coimbra — O Brasil é muito mais usuário do que produtor de inteligência artificial. E usuário avançado, diga-se de passagem! Não é por falta de talento. Temos cientistas, pesquisadores e profissionais muito capacitados, mas o problema é que muitos acabam trabalhando para empresas estrangeiras ou deixando o Brasil em busca de melhores oportunidades, financiamento e infraestrutura.
As empresas brasileiras também estão acelerando a adoção da IA. Algumas de maneira estratégica, outras simplesmente porque não querem ficar para trás. Adotar tecnologia não significa necessariamente desenvolver corretamente projetos que usam inteligência artificial.
Quando falamos em produzir tecnologia de ponta, desenvolver modelos de fronteira ou criar novas arquiteturas de IA, o Brasil ainda está engatinhando.
Gosto de fazer uma analogia: a IA que o brasileiro utiliza hoje é, basicamente, um gringo que fala português bem pra caramba! Ela conversa conosco, entende nossas perguntas, mas boa parte da tecnologia que está por trás foi desenvolvida fora do Brasil, com dados e referências culturais que nem sempre representam nossa realidade. Isso evidencia a dependência tecnológica. Temos excelentes pesquisadores, cientistas, startups e iniciativas para desenvolver modelos em português. Mas ainda estamos longe do protagonismo global.
Meu receio é que o Brasil continue na plateia, consumindo e aplaudindo o espetáculo tecnológico dos Estados Unidos e da China, quando também deveria estar no palco.
Engrenagens do Crescimento — Como vice-presidente de comunicação e marketing da Abria, que vê o ecossistema por dentro, quais são os principais gargalos para o setor crescer no País: talento, capital, infraestrutura de dados ou regulação?
Elaine Coimbra — Talento nós temos de sobra. O que falta é criar condições para que esse talento produza tecnologia aqui. O Brasil forma profissionais excelentes, mas enfrenta uma competição desigual. As grandes empresas internacionais conseguem oferecer salários, infraestrutura e oportunidades de pesquisa que muitas organizações brasileiras não conseguem acompanhar.
O capital é outro problema. Desenvolver inteligência artificial exige financiamento de longo prazo, e ainda temos dificuldade para atrair capital disposto a financiar projetos de alto risco tecnológico, sem exigir retorno em seis meses.
A infraestrutura também pesa. Precisamos de capacidade computacional, dados de qualidade, conectividade e, principalmente, energia elétrica.
Falamos muito em construir data centers, mas, sem energia disponível, confiável e competitiva, não existe data center que funcione. Teremos data centers prontos, mas sem energia elétrica e cabeamento chegando a eles. E ainda temos a questão regulatória, o que piora tudo.
O que me preocupa é a combinação de incerteza jurídica com a ideia de que basta criar uma “IA brasileira” por decreto. Precisamos de uma estratégia nacional que conecte pesquisa científica, universidades, empresas e infraestrutura.
Engrenagens do Crescimento — Fala-se muito em empregos que a IA vai extinguir, mas pouco nos que ela cria. Quais funções e competências ganham valor no Brasil e quais profissões estão mais expostas?
Elaine Coimbra — A inteligência artificial está assumindo tarefas repetitivas e padronizadas: produzir relatórios, resumir reuniões, classificar documentos, analisar informações e elaborar primeiras versões de textos. Por outro lado, aumenta o valor de competências profundamente humanas: pensamento crítico, criatividade, capacidade de decisão, empatia, conhecimento especializado e, principalmente, a habilidade de questionar a resposta da máquina. Não basta saber fazer uma pergunta para a IA. É preciso ter repertório para questionar a resposta e perceber quando ela está errada.
Se a IA começar a executar todas as tarefas dos profissionais juniores, como vamos formar os profissionais seniores de amanhã? Muita gente aprendeu uma profissão realizando justamente aquelas atividades mais operacionais. Se essas etapas desaparecerem sem que criemos novas formas de aprendizagem, teremos um problema de formação profissional no futuro. Um sênior não nasce sênior: ele se forma.
Engrenagens do Crescimento — Como as empresas brasileiras devem requalificar equipes sem transformar a IA em ameaça interna? O que você tem visto funcionar nas organizações?
Elaine Coimbra — O pior jeito de implantar inteligência artificial em uma empresa é entregar a ferramenta para os funcionários e dizer: “Agora vocês precisam usar!”. Isso pode gerar medo, resistência, problemas de segurança e uma enorme confusão.
O que tenho defendido é começar pelas pessoas, não pela tecnologia. Antes de falar em produtividade, precisamos explicar o que a IA faz, o que ela não faz, quais são seus limites e como pode ajudar cada profissional em seu trabalho.
Não adianta fazer uma palestra bonita sobre inteligência artificial e achar que a empresa está preparada. As pessoas precisam trabalhar com problemas reais, testar soluções, errar, aprender e compartilhar experiências.
Outro ponto fundamental é o letramento em IA. Letramento não é ensinar a fazer um prompt bonito. É ensinar a pensar criticamente diante da resposta da máquina. É saber conferir fontes, identificar informações inventadas, reconhecer vieses e perceber quando a IA está simplesmente concordando com você, mesmo quando você está errado.
A tecnologia pode ampliar enormemente nossa capacidade. Mas o julgamento, a responsabilidade e as decisões críticas precisam continuar sob supervisão humana.
Engrenagens do Crescimento — Levantamentos têm apontado problemas de segurança para bancos, instituições e empresas relacionados ao uso de IA por funcionários mal orientados quanto à proteção de dados. Qual é o nível de maturidade das empresas e dos usuários nesse sentido?
Elaine Coimbra — Estamos adotando inteligência artificial em uma velocidade muito maior do que estamos aprendendo a utilizá-la com segurança. Existem bancos e grandes empresas com políticas estruturadas, ambientes corporativos controlados, equipes de segurança e regras claras para utilização da IA.
Mas essa ainda não é a realidade de muitas organizações, especialmente das pequenas e médias empresas. Entre usuários individuais, a situação também preocupa: há pessoas ensinando a usar IA sem ensinar ética e segurança.
Estamos repetindo um erro que cometemos com as redes sociais: primeiro adotamos em massa, depois começamos a discutir as consequências.
Imagine um funcionário que copia uma estratégia comercial, dados de clientes ou informações confidenciais e coloca tudo em uma ferramenta pública de inteligência artificial para ganhar alguns minutos, pois o seu gestor quer a resposta imediatamente. Mas, dependendo da ferramenta, da configuração e do contrato de utilização, essas informações podem ficar expostas a riscos de armazenamento, acesso indevido ou uso não autorizado.
Dados são patrimônio estratégico. Quando uma empresa não sabe onde suas informações estão sendo processadas e armazenadas, ela pode estar colocando em risco sua vantagem competitiva.
Segurança não pode entrar no projeto depois que a IA já está espalhada pela empresa. A construção e a divulgação de uma governança de IA dentro da empresa são essenciais!
Engrenagens do Crescimento — Na prática, que regras uma empresa deveria ter antes de liberar a IA generativa para seus funcionários? Como evitar que informações sensíveis, como dados de clientes ou estratégias, sejam enviadas para ferramentas públicas?
Elaine Coimbra — A primeira regra é simples: informação confidencial não pode ser colocada em ferramenta pública não autorizada. Ponto. Não é sugestão. Precisa ser uma política corporativa clara. Mas proibir, sozinho, não resolve. Se a empresa não oferecer alternativas seguras, muitos funcionários vão continuar procurando ferramentas por conta própria. Por isso, é fundamental disponibilizar ambientes corporativos controlados, com regras contratuais de proteção de dados, controle de acesso e políticas claras sobre armazenamento, retenção e utilização das informações.
Também é necessário treinar os profissionais. Essa é uma etapa que não pode ser pulada. E não apenas para aprenderem a usar IA. Eles precisam saber exatamente quais informações podem compartilhar, quais são confidenciais e quais exigem autorização.
Outro ponto é a governança. Quando a IA começa a participar de processos de atendimento, RH, finanças, marketing, jurídico ou decisões de negócios, precisamos definir responsabilidades, controles, auditoria, rastreabilidade e supervisão humana.
Engrenagens do Crescimento — Como diretora de comunicação da AI Safety Brazil, como você explicaria ao público não técnico o que é “segurança em IA” e por que ela importa para o dia a dia, e não só para o futuro distante?
Elaine Coimbra — Segurança em inteligência artificial é uma coisa muito simples de entender: queremos que a tecnologia nos ajude, não que nos prejudique. Imagine uma IA que participa da análise de crédito e discrimina um consumidor injustamente. Ou um sistema que recomenda um tratamento de saúde inadequado. Ou ainda uma IA que manipula nossas decisões com respostas aparentemente convincentes. Tudo isso envolve segurança em inteligência artificial.
A IA já participa de processos em bancos, hospitais, empresas, plataformas digitais e serviços que utilizamos diariamente. Por isso, precisamos discutir transparência, responsabilidade, testes, proteção de dados, supervisão humana e mecanismos para identificar e reduzir riscos.
Na AI Safety Brazil, uma das nossas metas é justamente ampliar o conhecimento da população sobre segurança em IA.
Gosto de comparar com um carro: não podemos entregar o volante para uma tecnologia sem saber se ela tem freio, se foi testada e quem responde quando alguma coisa dá errado.
Engrenagens do Crescimento — A IA depende de data centers, energia e conectividade, e o Brasil tem atraído recursos para esse tipo de infraestrutura. Isso é uma vantagem competitiva real ou o País pode ficar só com a infraestrutura, sem a inovação?
Elaine Coimbra — O Brasil tem uma oportunidade enorme. Mas precisamos tomar cuidado para não virar apenas o condomínio de servidores do mundo. Ter data centers, disponibilidade de energia, conectividade e infraestrutura computacional é importante. Mas isso, sozinho, não transforma um país em potência de inteligência artificial.
Se a tecnologia continuar sendo desenvolvida no exterior e nós apenas hospedarmos equipamentos, teremos infraestrutura, mas não necessariamente protagonismo tecnológico. Podemos acabar nos tornando uma espécie de colônia digital sofisticada. O Brasil precisa transformar esses investimentos em desenvolvimento científico, formação profissional, inovação e geração de propriedade intelectual.
Precisamos incentivar universidades, centros de pesquisa, startups e empresas brasileiras a desenvolver e adaptar modelos de IA. Também precisamos criar condições para que nossos pesquisadores tenham acesso à infraestrutura computacional necessária.
Engrenagens do Crescimento — O debate sobre a regulação da IA no País está em andamento. Como equilibrar proteção de direitos e segurança com espaço para inovar, sem engessar o setor?
Elaine Coimbra — O Brasil não pode escolher entre inovar e proteger as pessoas. Precisamos fazer as duas coisas. Uma inteligência artificial utilizada para recomendar um filme não pode receber o mesmo tratamento de um sistema que influencia decisões sobre crédito, saúde, justiça ou segurança pública. Quanto maior o potencial de dano, maiores precisam ser as exigências de segurança, transparência e responsabilidade.
Mas existe outro risco: criar uma legislação tão detalhada e prescritiva que fique ultrapassada rapidamente. A tecnologia muda em uma velocidade enorme. Se a legislação tentar determinar cada detalhe técnico, poderá dificultar a inovação e exigir revisões constantes.
Precisamos de princípios claros, responsabilidades definidas, mecanismos de fiscalização e capacidade de atualização. E precisamos oferecer segurança jurídica para quem quer investir. Porque, quando não existe previsibilidade, o investimento procura outro país.
Engrenagens do Crescimento — Startups e empresas médias brasileiras conseguem competir com as gigantes globais de IA? Em que nichos o País tem mais chance de se destacar?
Elaine Coimbra — Se a ideia for competir diretamente com OpenAI, Google ou outras gigantes na criação de modelos de fronteira, o desafio é enorme e não deveríamos perder tempo com essa ideia. Estados Unidos e China estão anos-luz à frente. Essas empresas possuem bilhões em investimentos, infraestrutura computacional e equipes de pesquisa em uma escala muito diferente da nossa. Mas isso não significa que o Brasil não possa competir. Temos oportunidades extraordinárias em aplicações especializadas.
Pense no agronegócio, na saúde, na educação, nos serviços financeiros, na gestão pública e nas soluções desenvolvidas para a realidade brasileira. Uma startup que conhece profundamente um problema do nosso mercado pode desenvolver soluções muito mais adequadas do que uma ferramenta genérica criada no exterior. No agronegócio, temos dados suficientes para treinar modelos de IA.
E existe uma riqueza brasileira que ainda exploramos pouco estrategicamente: nossos dados e nossa biodiversidade. O Brasil reúne a maior diversidade genética humana, animal e vegetal. Imagine o potencial de desenvolver modelos especializados em doenças tropicais, biodiversidade, agricultura e necessidades específicas da nossa população.
Também temos grandes bases públicas, como as relacionadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), que poderiam contribuir para pesquisas e aplicações relevantes, desde que sejam respeitados a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), o sigilo, a segurança, a qualidade dos dados e os direitos dos cidadãos. Isso não significa que qualquer base possa ser utilizada livremente para treinar modelos. Precisamos de critérios científicos, jurídicos e éticos muito rigorosos.
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