NAvegue pelos canais

IA na música e no cinema: artistas questionam até onde a tecnologia pode substituir o humano
Por Divulgação

IA na música e no cinema: artistas questionam até onde a tecnologia pode substituir o humano

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 7 de agosto de 2026

Após crítica de Maria Rita ao uso da inteligência artificial na música, cantores, atores e profissionais do audiovisual discutem limites da ferramenta e defendem criatividade, autoria e emoção

A inteligência artificial já faz parte da rotina da indústria criativa. Está presente na produção audiovisual, na música, na publicidade e no mercado de influência, ajudando a organizar ideias, editar conteúdos, criar referências e reduzir custos. O avanço, porém, também provoca resistência entre artistas que temem que a ferramenta deixe de ser um recurso de apoio e passe a ocupar o lugar de quem cria.

A discussão ganhou força após a cantora Maria Rita criticar o uso indiscriminado da IA na música. O debate também chegou a Hollywood, onde atores e profissionais do audiovisual discutem o uso de réplicas digitais, personagens artificiais e performances geradas por tecnologia. O sindicato norte-americano SAG-AFTRA ampliou em seu acordo de 2026 as proteções relacionadas às réplicas digitais e performances sintéticas.

Entre artistas brasileiros independentes, a posição não é necessariamente de rejeição completa. O ponto de convergência está no limite entre utilizar a tecnologia para facilitar o trabalho e permitir que ela substitua o processo artístico.

O ator, criador de conteúdo e apresentador Luís Augusto Brito (@luisaugustobrito), conhecido por seus esquetes de comédia e trabalhos no teatro e na televisão, vê utilidade da IA desde a pesquisa de personagens até aspectos técnicos das produções. Para ele, a ferramenta pode acelerar processos, mas não reproduz o que existe por trás de uma interpretação.

“A IA pode ajudar muito na pesquisa de personagens, na análise de roteiros, em referências e até na parte técnica. Ao mesmo tempo, graças à inteligência artificial, as produções audiovisuais estão ficando mais rápidas e acessíveis. Mas, no fim das contas, ela não passa de uma ferramenta, quem dá vida ao personagem continua sendo o ator, com sua interpretação, sensibilidade e presença.”

Brito considera que personagens digitais podem ter espaço em animações ou homenagens, mas rejeita a substituição de atores em produções realistas. “É importante que os direitos dos artistas sejam respeitados e que a tecnologia complemente o trabalho humano, em vez de substituí-lo”, afirma.

A mesma fronteira aparece entre os músicos. Mafé Peccin (@mafepeccin), cantora, compositora, produtora musical e criadora de conteúdo digital, conhecida pela carreira solo independente e por trabalhos em trilhas sonoras de novelas, não utiliza IA para compor ou criar arranjos. A ferramenta, em seu caso, fica restrita às tarefas estratégicas.

“Na hora de compor, pensar nos arranjos ou decidir o que eu quero dizer em uma letra, prefiro que esse processo venha de mim e das pessoas com quem eu estou criando. Onde a IA entra na minha rotina é muito mais na parte estratégica. Como sou uma artista independente e não tenho uma grande equipe por trás, ela acaba sendo uma ferramenta de apoio para planejamento de marketing, organização de ideias e divulgação do meu trabalho.”

Ao mesmo tempo, Mafé reconhece que a tecnologia pode democratizar o acesso à produção musical. Para um artista que trabalha com orçamento reduzido, uma ferramenta capaz de viabilizar determinados recursos pode significar a diferença entre conseguir ou não colocar uma ideia em prática.

“Acho que a inteligência artificial pode ampliar ainda mais esse acesso. Um artista independente pode querer muito ter um violino ou algum instrumento específico em uma música, mas não ter condições de contratar um músico para gravá-lo naquele momento. A IA pode ser uma ferramenta para viabilizar ideias que, por uma questão financeira, talvez não fossem possíveis.”

A cantora, porém, aponta uma contradição que considera cada vez mais difícil de ignorar: enquanto a tecnologia amplia possibilidades, também cria dúvidas sobre autoria e remuneração.

“É difícil se sentir completamente seguro como compositor e artista diante de tecnologias que são treinadas a partir de músicas já lançadas. Quando uma música que é criada praticamente inteira por inteligência artificial alcança milhões de reproduções e gera receita, surgem perguntas importantes: quem está ganhando por essa obra? Quem compôs? Quem interpretou? Quem tocou?”

É nesse ponto que Mafé estabelece o limite entre ferramenta e substituição. “Existe uma linha muito tênue entre utilizar a IA como uma ferramenta que auxilia e potencializa o trabalho de um artista e entregar a ela todo o processo criativo. Para mim, são coisas muito diferentes.”

Divulgação 2
Divulgação 2

A cantora Malu Rodrigues (@itsmalurdz) também separa o uso operacional da IA da criação artística. Para ela, planejamento e organização podem se beneficiar da tecnologia, mas composição e arranjos dependem de um processo emocional que não deveria ser automatizado.

“Acho que para uma produção emocional como composições ou criações de arranjos, a IA tira parte do processo orgânico que é essencial para criar a conexão emocional da música. A arte consumida por humanos deve ser feita por humanos.”

O cantor Pedro Bustamante (@pedrobustamanteofc), por outro lado, utiliza IA justamente nas áreas estratégicas de sua carreira. Como artista independente, ele considera que ferramentas capazes de economizar tempo podem ajudar quem precisa cuidar de várias etapas da própria produção.

“Hoje eu uso a IA mais como uma ferramenta de apoio na parte de comunicação e estratégia. Ela me ajuda a organizar ideias de conteúdo, pensar em campanhas e até melhorar alguns textos. Mas, quando o assunto é música, faço questão de que tudo continue sendo autoral.”

Para Bustamante, o limite está em quem permanece responsável pelas decisões criativas. “A tecnologia pode potencializar o processo, mas não substituir a essência de quem está fazendo a arte.”

A cantora e compositora Bea Duarte (@beadarte) adota uma posição mais crítica e afirma que a IA não participa de nenhuma etapa de seu trabalho. Ela também questiona a ideia de que a ferramenta seria uma solução para os artistas independentes que não possuem grandes orçamentos.

“A IA não faz parte de absolutamente nenhuma parte do meu trabalho, nem na criação, na produção e jamais na divulgação e, no que depender de mim, nunca fará.”

Para Bea, existe ainda um problema relacionado à própria ideia de criação. “Reproduzir e jamais produzir. Copiar, roubar, fazer um compilado de traços, estilos, timbres e muito mais criado por artistas de verdade. Isso é tudo que a IA pode fazer, imitar, mas gerar sentimento real não.”

No audiovisual, a discussão ganha uma perspectiva diferente quando observada por quem já utiliza a tecnologia na produção. Gabriel Nascimento (@eu.gabrielnascimento), sócio fundador e diretor executivo da Novelo Produções, radialista e pós-graduado em Direção de Arte para Propaganda, vê ganhos concretos de produtividade em processos como brainstorming, referências visuais, edição e otimização de conteúdo.

“A IA está redesenhando a régua de tempo e custo da produção, não substituindo a essência criativa. Processos que levavam dias agora levam horas.”

Para ele, o risco está em transformar a tecnologia em um atalho para eliminar profissionais e etapas criativas. “Quem trata IA como atalho perde qualidade; quem trata como aceleradora de processo ganha competitividade.”

Divulgação 1
Divulgação 1

A discussão também chegou ao mercado de influência. Isabela Soller (@isabelasoller), fundadora e CEO do Grupo Soller, que atua na gestão de carreira de influenciadores, afirma que marcas já recorrem à IA para encontrar criadores e desenvolver estratégias. O problema é que dados disponíveis na internet não conseguem medir completamente fatores subjetivos, como comportamento, autenticidade e capacidade de conexão.

“A IA precisa ser um organizador de ideias e/ou um lapidador. A ideia macro ainda precisa da autenticidade e da identificação humana, para que impacte os humanos. Pessoas se conectam com pessoas, e isso é irrefutável.”

Para os profissionais ouvidos, portanto, a discussão não está mais em decidir se a inteligência artificial fará parte do mercado criativo. Ela já faz. A questão é definir qual será o seu lugar.

Na música, no cinema e no mercado de influência, a defesa é semelhante: a IA pode acelerar processos, reduzir custos e ampliar possibilidades, mas não deveria assumir o controle daquilo que dá identidade à arte. Em um cenário em que máquinas conseguem reproduzir vozes, rostos, estilos e estruturas musicais, artistas defendem que ainda existe uma diferença fundamental entre reproduzir uma obra e ter uma experiência humana que dê origem a ela.

Mafé resume esse limite a partir da própria experiência: “A gente tem que tratar a IA como se fosse um amigo te dando uma opinião. Não vai ser ela que vai começar a ideia, vai ser você. Para mim, é muito diferente usar a IA como alguém que está ali te dando uma opinião e deixar que ela faça todo o processo por você. Esse é o limite.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Compartilhe