Endometriose: 4 condições associadas à doença que você talvez não saiba
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 28 de outubro de 2026
Infertilidade, enxaqueca, alterações dermatológicas e lipedema podem coexistir com a endometriose e exigem investigação e tratamento específicos
A endometriose é uma doença inflamatória crônica que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva. A condição ocorre quando células do endométrio, mucosa que reveste a parede do útero, crescem fora da cavidade uterina. “A endometriose pode provocar cólicas incapacitantes, dor pélvica, dor durante a relação sexual e alterações intestinais e urinárias”, explica a ginecologista Dra. Ana Paula Fabricio, com Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (TEGO). Mas o cuidado não deve se restringir às manifestações da própria endometriose. A doença pode aparecer associada a outras condições que também merecem investigação e abordagem individualizada. A seguir, conheça quatro delas que ainda são pouco discutidas:
Infertilidade: A endometriose figura como a principal causa da infertilidade em mulheres. “Ao se espalharem pelo aparelho reprodutivo, as células do endométrio atrapalham a implantação do embrião fecundado”, explica o Dr. Rodrigo Rosa, especialista em reprodução humana e diretor clínico da Clínica Mater Prime, em São Paulo. E como a endometriose tem como principal sintoma dor pélvica intensa, que geralmente não recebe atenção por ser confundida com cólicas menstruais, muitas mulheres só descobrem a doença justamente quando encontram alguma dificuldade para engravidar. E não é incomum que, mesmo com o tratamento, a mulher ainda não consiga engravidar. “A endometriose é uma doença crônica e o tratamento atua no alívio dos sintomas e controle da condição. Logo, os sintomas e a dificuldade de engravidar podem retornar após algum tempo. Além disso, apenas 50% das pacientes tratadas por meio da laparoscopia possuem chances de engravidar futuramente”, alerta o médico. Por isso, a Fertilização In Vitro pode ser indicada. “O processo de fertilização in vitro em pacientes com endometriose é igual a qualquer outro, com a coleta dos óvulos após indução medicamentosa da ovulação para que sejam fecundados em laboratório e, em seguida, implantados de volta no útero. E as taxas de sucesso do procedimento em mulheres com a condição são as mesmas de quando a fertilização é realizada por outros motivos”, destaca o Dr. Rodrigo Rosa.
Enxaqueca: A endometriose e a enxaqueca são condições distintas, mas compartilham mecanismos biológicos semelhantes e a associação das duas condições em mulheres é mais frequente do que se imagina. “Entre os pontos de conexão das doenças está a sensibilidade às oscilações do estrogênio, principal hormônio sexual feminino. Na enxaqueca, a variação hormonal pode aumentar a excitabilidade cerebral e facilitar a ativação do sistema trigeminovascular, envolvido no surgimento da dor. Já na endometriose, a ação de substâncias inflamatórias, como prostaglandinas e citocinas, também pode aumentar a sensibilidade aos estímulos dolorosos”, detalha o Dr. Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP) e membro da International Headache Society (IHS). “Provavelmente também existe uma sobreposição genética entre as duas doenças”, acrescenta. Segundo o médico, muitas pacientes e até médicos encaram as dores de cabeça causadas pela enxaqueca como um mero sintoma da endometriose, restringindo-se a tratar a doença ginecológica. Mas ele alerta que a presença da endometriose não deve encerrar a investigação da dor de cabeça. “Atribuir as crises apenas à condição ginecológica pode atrasar o reconhecimento da enxaqueca e fazer com que a paciente permaneça sem cuidado adequado, com impacto progressivo sobre a qualidade de vida. A enxaqueca é uma doença neurológica independente e precisa de acompanhamento e tratamento próprios, mesmo quando a paciente também apresenta endometriose”, alerta o neurologista.
Condições de pele: A endometriose também pode estar relacionada a alterações dermatológicas. “Alguns estudos observacionais relatam maior frequência de acne e oleosidade, psoríase, alopecia areata e outras dermatoses inflamatórias ou autoimunes em mulheres com endometriose. Mas, com exceção da endometriose cutânea, essas manifestações não são causadas diretamente pela doença e parecem estar relacionadas a mecanismos hormonais e imunológicos compartilhados, como alterações de estrogênio, progesterona e andrógenos, além da inflamação crônica”, explica a dermatologista Dra. Glauce Eiko, membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD). Segundo a médica, as evidências sobre essas associações ainda são iniciais e não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito. Já a endometriose cutânea é uma manifestação direta, embora rara, da doença. “Ela ocorre quando o tecido endometrial se implanta na pele, geralmente formando nódulos dolorosos em cicatrizes abdominais ou na região umbilical”, destaca a Dra. Glauce. A dermatologista ressalta que lesões que aumentam de tamanho, doem, sangram ou mudam de cor de maneira cíclica, acompanhando a menstruação, merecem atenção e avaliação dermatológica.
Lipedema: Segundo o cirurgião plástico Dr. Rafael Erthal, referência no tratamento de lipedema e fundador da clínica Blue, especializada em lipedema e cirurgia plástica, não são raras as mulheres que têm lipedema e, ao mesmo tempo, endometriose. “Os mecanismos das doenças são semelhantes, com forte aspecto hormonal envolvido, além de compartilharem uma série de outros pontos em comum, incluindo processos inflamatórios, dor crônica e diagnóstico demorado”, explica o médico. O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo, caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente em pernas, quadris e, em alguns casos, braços. “A doença é acompanhada de dor, sensibilidade ao toque, sensação de peso, inchaço e hematomas frequentes”, diz o cirurgião plástico. Ele afirma que, quando as doenças coexistem, há uma sobreposição de sintomas dolorosos que dificulta o diagnóstico adequado e torna o quadro mais complexo. “A inflamação gerada pela endometriose pode funcionar como um gatilho para os sintomas do lipedema. Então, caso as doenças coexistam, não adianta focar apenas no tratamento do lipedema, por exemplo, através da realização de cirurgia. É preciso tratar, simultaneamente, a endometriose”, completa o Dr. Rafael Erthal.
Por fim, o Dr. Nélio Veiga Junior, pós-doutorando em Menopausa, com foco em saúde hormonal e qualidade de vida da mulher no climatério, reforça a importância do acompanhamento ginecológico regular para todas as mulheres, principalmente para aquelas que fazem uso de pílula anticoncepcional e outros métodos contraceptivos. “O acompanhamento é a melhor maneira de detectar uma condição como a endometriose precocemente, o que aumenta as chances de tratamento e evita complicações”, pontua o ginecologista. Ele explica que a doença ainda não possui causa definida, estando relaciona a fatores genéticos e imunológicos, ou seja, uma resposta imunológica que desencadeia inflamação. Logo, torna-se muito difícil falar em prevenção. “Mas tem tratamento, que é indicado de acordo com a gravidade da endometriose e as características individuais da paciente”, diz o ginecologista. A Dra. Ana Paula Fabricio explica que o tratamento da endometriose envolve, além de mudanças de estilo de vida, otimizar as alterações hormonais e o uso de analgésicos e anti-inflamatórios. “Em casos mais graves, o tratamento cirúrgico pode ser indicado”, completa a médica.
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