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IBRAM vê risco de retrocesso em projeto de lei sobre rastreabilidade do ouro aprovado na Câmara
Ouro. Imagem: Reprodução da Internet.

IBRAM vê risco de retrocesso em projeto de lei sobre rastreabilidade do ouro aprovado na Câmara

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 24 de abril de 2026

Para o IBRAM, faltou diálogo com o setor; texto reduz controle na origem e pode comprometer combate ao garimpo ilegal e à lavagem de dinheiro no país.

Warley Pereira

O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) criticou a aprovação do projeto de lei na Câmara dos Deputados sobre rastreabilidade do ouro no país. Na avaliação do presidente da entidade, Pablo Cesário, o texto contém falhas que ampliam brechas para o garimpo ilegal.

Cesário afirmou ao Minera Brasil que o setor discorda de pontos centrais do projeto relatado pelo deputado Max Beltrão (PP-AL), que apresentou um substitutivo à proposta original do governo. Segundo ele, as alterações desvirtuaram o texto inicial e representam um retrocesso no combate ao mercado ilegal de ouro dominado por organizações criminosas.

“O texto enviado pelo Executivo está alinhado com medidas que o setor defende há anos, como o fortalecimento da rastreabilidade ao longo de toda a cadeia produtiva. Não pode retroceder no que já havia avançado”, disse.

Cesário argumenta que o Brasil tem registrado avanços no controle da produção de ouro. Ele cita como marco a decisão do STF, em 2023, que derrubou o princípio da boa-fé na comercialização do metal, aumentando a responsabilidade dos compradores.

A medida, somada à atuação da Receita Federal e da Polícia Federal, contribuiu para reduzir a lavagem de ouro no mercado formal. “Houve melhora no encadeamento de notas fiscais e nos documentos de transporte. A lavagem de ouro ilegal caiu bastante”, afirma.

As críticas do IBRAM se concentram em dois pontos do texto aprovado. O primeiro é a limitação do controle ao primeiro ponto de compra do ouro. Segundo Cesário, isso retoma um modelo baseado na autodeclaração, que no passado permitiu a entrada de grandes volumes de ouro ilegal no mercado formal.

“O controle precisa estar na origem e acompanhar toda a cadeia. Do jeito que foi proposto, reabre a porta para lavagem de ouro ilegal”, pondera.

O segundo ponto de preocupação é a centralização da rastreabilidade na Casa da Moeda, que não tem experiência nesse processo.  Segundo o presidente do IBRAM, o modelo não apresenta estudos de viabilidade, não foi testado e pode gerar custos elevados para o setor.

Ele afirma ainda que a cobrança prevista pode chegar a quase o dobro do que as empresas pagam hoje em CFEM (royalties da mineração), o que considera uma distorção.

“Você cria um sistema em que a fiscalização custa mais do que o benefício arrecadado pelo Estado. Há o temor de que se crie não só um monopólio.”

O setor também questiona a exigência de que a comercialização ocorra apenas por meio de DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários). A medida pode restringir o mercado e afetar pequenos operadores, sem garantir maior efetividade no controle da origem.

Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF) identificaram diversas DTVMs envolvidas na lavagem de ouro extraído ilegalmente, especialmente de terras indígenas como Yanomami e unidades de conservação.

Além disso, o IBRAM critica a tramitação do projeto, que, segundo Cesário, ocorreu sem debate público e sem participação efetiva do setor. A Agência Nacional de Mineração também tem manifestado resistência ao modelo aprovado.

“A ANM tem condições de conduzir o processo de rastreabilidade do ouro e permitir que diferentes modelos sejam testados ao longo do tempo”, afirmou Cesário, destacando que o debate deve considerar custos, concorrência e diferentes formas de execução.

Ele citou como exemplo o setor madeireiro, que possui sistema de rastreabilidade baseado principalmente em notas fiscais. “Hoje você praticamente não vê mais notícias sobre tráfico de madeira”, disse.

Agora, o IBRAM pretende atuar no Senado para tentar modificar o texto. A avaliação é que, embora a rastreabilidade seja necessária, o formato aprovado pode produzir o efeito oposto ao desejado.

“Aumentar custos e reduzir a efetividade do combate ao garimpo ilegal é andar na direção errada”, afirma Cesário.

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