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Geopolítica e demanda por IA transformam minerais críticos em ativos estratégicos
Para Matt Blundell, a disputa por minerais críticos está sendo impulsionada pela expansão da inteligência artificial, da transição energética e do setor de defesa. Foto: IBRAM / Divulgação.

Geopolítica e demanda por IA transformam minerais críticos em ativos estratégicos

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 10 de junho de 2026

Analista da S&P Global alerta que segurança de suprimento passou a ser tão importante quanto a posse dos recursos e aponta risco de déficit global de cobre até 2040

A corrida global por minerais críticos deixou de ser uma questão exclusivamente econômica e passou a ocupar o centro das disputas geopolíticas e industriais do século XXI. O alerta foi feito nesta terça-feira (9) pelo analista sênior de geopolítica e relações internacionais da S&P Global Energy, Matt Blundell, durante o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos, promovido pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).

Segundo Blundell, a crescente demanda provocada pela inteligência artificial, centros de dados, defesa, eletrificação e transição energética está transformando minerais estratégicos em ativos de segurança nacional, ao mesmo tempo em que a concentração do processamento global na China amplia vulnerabilidades para governos e empresas.

“Hoje não basta perguntar se você possui o recurso. A questão é: onde você está na cadeia de valor e quão exposto você está? No sistema atual, posição importa tanto quanto posse”, afirmou.

O especialista destacou que o setor mineral já não opera sob a lógica tradicional de oferta e demanda. Em sua avaliação, fatores como nacionalismo de recursos, restrições comerciais, controles de exportação, disputas geopolíticas e políticas industriais passaram a influenciar diretamente preços, investimentos e acesso aos insumos.

China domina etapa estratégica da cadeia

Um dos principais pontos da apresentação foi a concentração global da capacidade de processamento e refino de minerais críticos na China.

Segundo Blundell, o país construiu ao longo de três décadas uma estrutura integrada de beneficiamento, refino e manufatura apoiada por políticas industriais coordenadas, investimentos subsidiados e aquisição global de recursos minerais.

“O processamento é o guardião da cadeia. É ele que transforma matérias-primas em insumos estratégicos e determina quem controla o fornecimento”, disse.

De acordo com o analista, o domínio chinês não se limita à mineração, mas se estende à produção de baterias, painéis solares e outras tecnologias associadas à transição energética. Em alguns segmentos, afirmou, a participação chinesa alcança entre 70% e 90% da produção global.

Blundell citou ainda medidas recentes adotadas por Pequim, como controles de exportação e restrições a minerais estratégicos, como demonstração do poder geopolítico associado ao controle dessas cadeias produtivas.

“O mundo deixou de otimizar apenas custos. Agora está redesenhando cadeias de suprimento para controle, resiliência e segurança”, afirmou.

Inteligência artificial e defesa ampliam pressão sobre demanda

Além da eletrificação e da expansão dos veículos elétricos, o especialista apontou dois novos vetores de crescimento da demanda por minerais: a inteligência artificial e os gastos militares.

Segundo ele, a expansão acelerada dos data centers voltados à IA deverá adicionar cerca de 2 milhões de toneladas de demanda adicional por cobre até 2040.

Centros de dados exigem grandes volumes do metal para sistemas elétricos, refrigeração, subestações e conexões com redes de transmissão.

“Estamos observando o surgimento de um novo vetor estrutural de demanda”, afirmou.

Na área de defesa, Blundell destacou que programas de rearmamento em diversas regiões do mundo devem aumentar significativamente o consumo de cobre, alumínio, terras raras e outros minerais estratégicos.

Ao contrário de outros setores, observou, a demanda militar não recua quando os preços sobem.

“As compras para defesa são não discricionárias. Elas não param quando os preços aumentam, porque são determinadas por necessidades de segurança nacional”, explicou.

Déficit de cobre preocupa indústria global

A S&P Global projeta que a demanda global por cobre crescerá cerca de 50% até 2040, passando de 28 milhões para 42 milhões de toneladas anuais.

Entretanto, a expansão da oferta não acompanha o mesmo ritmo.

Segundo Blundell, mesmo considerando avanços na reciclagem, o mercado poderá enfrentar um déficit estrutural próximo de 10 milhões de toneladas por ano até 2040 — o equivalente a aproximadamente um quarto da demanda prevista.

Foto: IBRAM / Divulgação.

Entre os fatores que limitam a expansão da produção estão a redução dos teores minerais, dificuldades de licenciamento, falta de investimentos e prazos cada vez maiores para implantação de novos projetos.

“Atualmente são necessários, em média, 18 anos para colocar uma mina em operação. Nos anos 1990, esse processo levava cerca de seis anos”, afirmou.

Investimentos seguem abaixo do necessário

Apesar das projeções de crescimento da demanda por minerais críticos, o analista argumenta que os investimentos no setor ainda são insuficientes.

Segundo dados apresentados, os 30 maiores grupos mineradores do mundo devem investir cerca de US$ 400 bilhões entre 2025 e 2027, valor significativamente inferior aos aproximadamente US$ 2 trilhões destinados ao setor de inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, os investimentos em exploração mineral permanecem concentrados no ouro, impulsionados pela instabilidade geopolítica global.

“O sistema está lento, incerto e subinvestido. E isso cria as condições para novos ciclos de escassez e volatilidade”, alertou.

Valor industrial exige integração da cadeia

Ao abordar oportunidades para países produtores, como o Brasil, Blundell afirmou que agregar valor aos recursos minerais exige mais do que investir em processamento ou refino.

Segundo ele, projetos industriais bem-sucedidos dependem da integração entre mineração, processamento, demanda garantida, infraestrutura, financiamento e qualificação de mão de obra.

“Mover-se para etapas mais avançadas da cadeia não gera automaticamente mais valor. Processamento e refino estão entre os segmentos mais complexos e desafiadores da indústria”, afirmou.

Para o especialista, a competitividade futura dependerá da capacidade dos países de criar ecossistemas industriais integrados e coordenados entre governos, empresas, instituições financeiras e centros de pesquisa.

“O sucesso não depende apenas de geologia ou capital. Depende de alinhar todo o ecossistema com infraestrutura, financiamento, tecnologia e parcerias”, concluiu.

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