Brasil tem uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo, mas produção segue abaixo do potencial, aponta estudo
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 11 de junho de 2026
Levantamento do Ipea e da ANM mostra que país ocupa posições de destaque em reservas de grafita e terras raras, mas perde participação no mercado global; alta dos investimentos pode alterar cenário na próxima década
O Brasil reúne algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos para a transição energética, mas ainda transforma pouco desse potencial em produção efetiva e participação no mercado global. A conclusão é de um estudo apresentado nesta quarta-feira (10), durante o Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).
Elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com a Agência Nacional de Mineração (ANM), o levantamento identificou uma discrepância entre a posição estratégica do país em reservas minerais e seu desempenho produtivo. Segundo os pesquisadores, embora o Brasil possua grandes estoques de substâncias como grafita, terras raras, níquel, manganês e lítio, a produção nacional cresceu em ritmo inferior ao observado em outros países mineradores entre 2017 e 2023.
“O principal resultado do estudo seria a diferença entre potencial e realidade. O Brasil tem, de fato, reservas minerais muito expressivas, uma quantidade bastante relevante de substâncias. No entanto, a produção brasileira foi estagnada ou em queda no período analisado para a maioria absoluta dessas substâncias”, afirmou Rafael Leão, especialista em políticas públicas e pesquisador ligado ao estudo.
Brasil integra grupo de países fornecedores de matérias-primas
O levantamento analisou 13 minerais considerados estratégicos para a transição energética global, entre eles cobre, cobalto, grafita, lítio, terras raras, manganês, alumínio e zinco.
Segundo Mariano Laio de Oliveira, chefe da Divisão de Minerais Críticos e Estratégicos da ANM, o estudo foi desenvolvido a partir da metodologia utilizada pela Agência Internacional de Energia (IEA) em seu relatório Global Critical Minerals Outlook.
A pesquisa dividiu os países em três grupos. O primeiro é liderado pela China, que concentra desde a mineração até as etapas de processamento, refino e fabricação de equipamentos como baterias, painéis solares e sistemas de armazenamento de energia. O segundo reúne países desenvolvidos, como Estados Unidos, membros da União Europeia e Japão, que dependem da importação desses insumos. Já o terceiro engloba os grandes países mineradores, categoria na qual o Brasil está inserido.

“A China funciona na parte inicial da cadeia como uma opção praticamente obrigatória. A maioria dos minerais críticos comercializados globalmente é destinada ao país, porque lá estão concentradas as plantas de processamento e transformação mineral”, explicou Oliveira.
Reservas elevadas contrastam com baixa produção
Um dos principais indicadores apresentados relaciona reservas e produção mineral. De acordo com os pesquisadores, o Brasil aparece entre os países com maior volume de recursos minerais, mas distante dos líderes em aproveitamento dessas reservas.
O estudo destaca especialmente a grafita e as terras raras, minerais nos quais o país ocupa a segunda posição mundial em reservas. Apesar disso, o desempenho produtivo permanece abaixo de concorrentes como Austrália e África do Sul.
“Aquele gráfico é impactante porque mostra o Brasil como um destaque especialmente negativo de subaproveitamento das suas reservas. Com o tamanho das reservas minerais que o Brasil tem, o país teria condições de apresentar uma produção muito maior”, afirmou Leão.
Os dados também mostram perda de participação relativa do Brasil nas exportações globais desses minerais. Embora o valor exportado tenha crescido ao longo das últimas duas décadas, a fatia brasileira no mercado internacional diminuiu devido ao avanço mais acelerado da produção em outros países.
Investimentos crescem e podem marcar ponto de inflexão
Apesar do diagnóstico de subaproveitamento, os pesquisadores identificaram sinais de mudança a partir de 2023.
Dados de investimentos em lavra, pesquisa mineral e aquisição de bens de capital mostram crescimento expressivo dos aportes, com destaque para projetos relacionados a lítio, terras raras e cobre. Segundo os autores, informações mais recentes de 2024 e 2025 indicam que essa tendência continua em expansão.
“2023 parece ser um ponto de inflexão pelo tamanho dos investimentos. Investimento em formação de capital fixo, em lavra e em pesquisa é o que determina a produção futura. Se o Brasil conseguir manter taxas elevadas de investimento, é possível que na década de 2030 alcance um patamar superior de produção mineral”, disse Leão.
Oliveira acrescentou que o ambiente geopolítico internacional após 2024 também tem impulsionado o interesse estrangeiro pelo país. Segundo ele, a intensificação da disputa global por minerais críticos e a busca de Estados Unidos, Europa e Japão por alternativas à dependência chinesa têm ampliado os investimentos direcionados ao setor mineral brasileiro.
Desindustrialização é desafio para agregação de valor
Além da mineração, o estudo avaliou a capacidade do país de avançar nas etapas de transformação mineral e agregação de valor.
Segundo Leão, o cenário industrial brasileiro representa um obstáculo para que o país avance além da exportação de matérias-primas. O pesquisador argumentou que a metalurgia nacional apresenta trajetória de declínio desde a crise financeira internacional de 2008, enquanto a economia brasileira passou por um processo contínuo de desindustrialização.
“O Brasil reprimarizou sua economia e foi perdendo elos produtivos na indústria de transformação. A mineração cresceu ao longo dos últimos 20 anos, mas a metalurgia apresentou uma tendência clara de queda”, afirmou.
Para o pesquisador, a expansão da cadeia de minerais críticos dependerá não apenas do aumento da produção mineral, mas também da capacidade de o país recuperar competitividade industrial e ampliar a transformação desses recursos dentro do território nacional.
“O contexto macroeconômico e institucional tem sido hostil à industrialização ao longo dos últimos 30 anos. Todas as políticas voltadas para transformação mineral precisam enfrentar essa realidade estrutural”, concluiu.
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