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Circuito Nacional do Setor Elétrico debate transformações tecnológicas na área
Por Memória da Eletricidade

Circuito Nacional do Setor Elétrico debate transformações tecnológicas na área

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 7 de outubro de 2026

Evento reuniu especialistas para discutir impactos da expansão da geração distribuída, da chegada das baterias para armazenamento de energia, dos data centers e da inteligência artificial sobre o ramo

As formas como as transformações tecnológicas do setor elétrico brasileiro alteram a maneira como a energia é gerada, armazenada, consumida e administrada estiveram no centro das discussões da 56ª edição do Circuito Nacional do Setor Elétrico (CINASE), realizada nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, no Rio de Janeiro.

A Memória da Eletricidade acompanhou os dois dias de evento, que reuniu especialistas e representantes de diferentes segmentos para discutir as inovações na área, a importância da eficiência energética e os impactos da geração distribuída, da expansão dos sistemas de armazenamento, do crescimento dos data centers e do avanço de novas tecnologias sobre a operação e o planejamento do sistema elétrico.

Uma das primeiras mesas debateu os impactos da expansão da geração distribuída (GD) na matriz de geração do país, abordando como tem impactado, além da rotina dos consumidores, os mecanismos de operação e precificação do sistema elétrico. O painel “Desafios operacionais e tarifários na integração de recursos energéticos distribuídos”, que reuniu Frederico Boschin, diretor executivo da Noale Energia, e Gabriel Konzen, consultor técnico da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Segundo os palestrantes, o crescimento da geração distribuída trouxe para o setor a necessidade de considerar de forma mais precisa quando a energia é produzida e consumida, já que os picos de geração nas fontes solares se concentram durante o dia, enquanto parte da demanda ocorre à noite. Hoje, a geração solar distribuída no Brasil soma 53,65 GW de potência instalada, ultrapassando os 49,89 GW das termelétricas em operação, segundo a ANEEL, e ficando abaixo somente das hidrelétricas (UHE), com 103,2 GW.

Foi discutida a possibilidade de ampliar o acompanhamento em tempo real da energia injetada pelos sistemas descentralizados, permitindo maior controle da rede em situações de excesso de geração. Nesse contexto, Boschin e Kozen abordaram a nova demanda de eletricidade que os veículos elétricos representam e como os carregamentos podem ser deslocados para períodos de maior disponibilidade de energia e tarifas mais baixas. Ao fim, debateram o conceito de Open Energy e a necessidade de ampliar a integração das informações utilizadas pelos diferentes agentes do setor.

O que pode garantir mais segurança e flexibilidade para este modelo de operação é a capacidade dos sistemas de armazenar energia. O tema foi discutido no painel “Armazenamento de Energia – O Presente e o Futuro, O que você precisa saber!”, que reuniu Antonio Guilherme Lima, Professor da UERJ, Roberto Brandão, Pesquisador do GESEL e Francisco Lopes, pesquisador do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (C epel ), com mediação de Miriam Penna.

Armazenamento busca flexibilidade para o novo cenário

A discussão parte da regulamentação do armazenamento de energia e a realização, em 2026, dos primeiros Leilões de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) voltados a sistemas de armazenamento em baterias, e d a abertura do mercado livre para consumidores de baixa tensão, prevista para 2027 e 2028, que amplia as possibilidades de contratação de energia.

A partir disso, Francisco Lopes apresentou a atuação do CEPEL no desenvolvimento de soluções para sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS, na sigla em inglês), diante das perspectivas abertas pelo LRCAP que ocorrerá em dezembro deste ano. Entre as soluções desenvolvidas pelo Centro está um sistema de gerenciamento de energia (EMS, na sigla em inglês), voltado à otimização da operação das plantas de armazenamento.

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Pesquisador Francisco Lopes durante entrevista concedida. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade

A ferramenta considera o funcionamento do empreendimento como um todo, buscando conciliar aspectos como operação, custos, receitas e utilização da capacidade instalada. A gestão pode contribuir para reduzir o desgaste das baterias, ao permitir que a operação seja planejada de acordo com diferentes condições do sistema, o que, segundo Lopes, permite que um mesmo sistema de armazenamento possa ser utilizado para diferentes finalidades, de acordo com as condições do estabelecimento.

Após o painel, o pesquisador concedeu uma entrevista à equipe da Memória da Eletricidade para destacar a atuação do Cepel nesse cenário. “É um tema muito quente no mercado, que já está preparado para receber os BESS. O Cepel está pronto para auxiliar nossos parceiros, desde o pré-leilão, até a implantação e operação dos parques de bateria. Comprar é a parte fácil, o difícil é operá-la por 15 anos e manter a sua eficiência, e é nesse quesito que entra a inteligência operacional e o sistema EMS, que fazem a coordenação inteligente do BESS com os demais ativos que estão na planta para proporcionar um ganho econômico com as baterias”, explicou Francisco Lopes.

Data centers ampliam a demanda por infraestrutura elétrica

Com a expansão do uso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), Luiz Tossi, vice-presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), defendeu que a quantidade de data centers comerciais precisa ser ampliada no Brasil. Segundo o representante, o mercado do país conta cerca de 200 estruturas comerciais, que somam aproximadamente 1 GW de capacidade de TI, enquanto os Estados Unidos possuem cerca de 5 mil instalações e 50 GW.

Tossi considera que o crescimento acelerado do mercado aumenta a pressão sobre regiões que concentram data centers e exige planejamento da infraestrutura necessária para acompanhamento. No entanto, entende que a tecnologia deve ser comunicada de forma mais ampla com a sociedade: “os data centers sustentam serviços digitais utilizados cotidianamente, mas diferentes tipos de instalações podem apresentar características operacionais bastante distintas”.

Transformações impactam gestão dos ativos
Painel Data Center & Energia Crítica. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade

Transformações impactam gestão dos ativos

Já na discussão sobre operação e manutenção de sistemas elétricos e gestão de ativos, Rogério Azevedo, do Cepel, apresentou aplicações voltadas ao monitoramento das condições de equipamentos e à identificação de falhas, com destaque para o software IMA- DP, que supervisiona as descargas parciais de dispositivos elétricos de alta tensão, como transformadores, geradores e cabos.

A aplicação busca preservar a manutenção das condições dos equipamentos, permitindo acompanhar seu funcionamento e identificar sinais que possam indicar a necessidade de intervenção. “Esse é um dos pontos cruciais na gestão de ativos para compor todo o processo de manutenção preditiva do setor elétrico e dos seus principais equipamentos ”, afirmou Azevedo, em entrevista à Memória da Eletricidade.

IA amplia frentes de inovação no setor elétrico
Rogério Azevedo durante entrevista concedida. Foto: Gabriel Rechenioti / Acervo Memória da Eletricidade

IA amplia frentes de inovação no setor elétrico

No segundo dia de evento, uma das principais mesas, intitulada “Inovação, tecnologia e o setor elétrico” destacou o avanço da IA no setor e os desafios para transformar projetos experimentais em aplicações capazes de gerar resultados em larga escala. Contou com seis especialistas: Reynaldo Nogueira, superintendente de Tecnologia da Light; Rodrigo Almeida, Coordenador de Inovação da Eneva; Delberis Lima, professor da PUC-RJ; Andre Sih, da FU2RE; e Alisson Rodrigues, pesquisador do Cepel, com moderação de Tenorio Barreto, da B&S.

Para Reynaldo Nogueira, o cenário exige a incorporação da tecnologia aos ativos e processos do setor, conectando dados de campo à tomada de decisões e à prestação do serviço. Em complemento, Rodrigo Almeida, da Eneva, ressaltou que muitas empresas já utilizam IA em projetos-piloto, mas que a capacidade de assumir riscos e lidar com tecnologias ainda em desenvolvimento é um dos fatores que diferenciam as iniciativas que conseguem avançar para uma aplicação em escala. “As organizações ainda passam por um processo de aprendizado sobre as ferramentas disponíveis”, afirmou.

A soberania sobre dados e tecnologias foi apontada como um desafio para o Brasil. Na avaliação de André Sih, o país ainda ocupa uma posição secundária no cenário internacional de IA, dominado principalmente por Estados Unidos e China. No setor elétrico, porém, aplicações já começam a fazer parte de processos concretos.

Segundo Alisson Rodrigues, do Cepel, o Centro vem ampliando iniciativas baseadas em IA e mantém um data center próprio para desenvolver aplicações. “A tecnologia pode acelerar o desenvolvimento de projetos e potencializar atividades que vão da pesquisa básica à solução de problemas mais complexos. Ao mesmo tempo, a expansão da IA ocorre em um setor que ainda enfrenta desafios estruturais e precisa conciliar inovação tecnológica com as necessidades de infraestrutura e qualidade dos serviços”, finalizou.

A programação do CINASE foi encerrada com o painel “Eficiência Energética & Iluminação Eficiente, as Cidades Inteligentes”, que reuniu representantes da Light e da AXIA Energia. Ao longo dos dois dias, os debates mostraram como novas tecnologias e mudanças no perfil de geração e consumo vêm ampliando os desafios de operação, planejamento e gestão do setor elétrico brasileiro.

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