Estadão Blue Studio - Nem sempre é depressão: doenças neurológicas raras podem começar de forma silenciosa

Nem sempre é depressão: doenças neurológicas raras podem começar de forma silenciosa

Em muitos casos, os primeiros sinais são atribuídos ao cansaço, ao estresse ou a problemas de saúde mental, o que pode atrasar a investigação clínica

3 de julho de 2026

Nem sempre é depressão: doenças neurológicas raras podem começar de forma silenciosa

Em algumas doenças neurológicas raras, sintomas que poderiam ser associados a condições de saúde mental podem ser os primeiros sinais da condição – e identificá-los de forma rápida pode ser essencial para um tratamento eficaz.

Alguns dos exemplos podem ser cansaço persistente, tontura, dificuldade para encontrar palavras, alterações de humor, fraqueza muscular e problemas de memória.

“As manifestações podem começar apenas com sintomas leves e muito comuns, facilmente diagnosticados como burnout, ansiedade ou depressão”, explica Vinícius Trindade, neurocirurgião do Centro de Referência de Tumores do Sistema Nervoso Central do A.C.Camargo Cancer Center.

Segundo o especialista, isso não ocorre necessariamente por falha médica, mas pela própria baixa frequência dessas condições na prática clínica.

“Muitas doenças graves se manifestam com resultados de exames normais, sem alterações em tomografias ou ressonâncias magnéticas no início. Consultas rápidas e sem as condições adequadas também são uma armadilha, levando a uma grande dificuldade diagnóstica”, afirma.

Segundo Rodrigo Fock, médico geneticista e líder de Inovação em Genética e Genômica do Instituto Jô Clemente (IJC), essa situação é conhecida como psicologização, quando sintomas de origem neurológica acabam sendo atribuídos a causas emocionais ou psicossomáticas.

“Temos, por exemplo, os pacientes com miastenia gravis que acordam bem, mas apresentam piora progressiva da força muscular ao longo do dia – quadro frequentemente confundido com estresse ou depressão”, explica Fock.

“Na esclerose lateral amiotrófica (ELA), pequenos tropeços podem ser interpretados como problemas ortopédicos. E no transtorno do espectro da neuromielite óptica (NMOSD), alterações visuais podem inicialmente ser atribuídas a doenças oftalmológicas comuns.”

Algumas doenças raras, inclusive, nem sequer começam com sintomas tipicamente neurológicos. Nesses casos, o impacto emocional provocado pela própria doença pode reforçar interpretações equivocadas sobre a origem dos sintomas.

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