Boca pode revelar doenças silenciosas e sinais de que algo não vai bem no organismo
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 20 de março de 2026
De problemas cardiovasculares a sinais associados ao declínio cognitivo e ao Alzheimer, exame clínico detalhado reforça a importância da odontologia preventiva
No Dia Mundial da Saúde Bucal, comemorado nesta sexta-feira, 20 de março, especialistas chamam atenção para um ponto muitas vezes negligenciado: a boca pode ajudar a revelar doenças silenciosas e também estar na origem de infecções com impacto em todo o organismo. Revisões científicas indicam que lesões, mudanças de coloração, sangramentos, úlceras, aumento gengival e alterações salivares podem estar entre os primeiros sinais de diferentes doenças que afetam o corpo para além da cavidade oral.
A boca é uma porta de entrada para o corpo, inclusive para doenças. Nela, há uma variedade de bactérias, vírus, fungos e protozoários. As bactérias, em especial, têm potencial significativo para desencadear infecções e doenças graves com repercussões em todo o organismo.
Estudo recente, publicado em 2025 na revista JAMA Oncology mostrou que determinados perfis de bactérias e fungos da microbiota oral estiveram associados a um risco mais de três vezes maior de desenvolvimento de câncer de pâncreas, reforçando a relevância da saúde bucal e da odontologia preventiva.
Outra linha de investigação tem avaliado a relação entre saúde bucal e cérebro. Estudos recentes sugerem que a periodontite pode estar associada a maior risco de declínio cognitivo e doença de Alzheimer. Uma meta-análise publicada também em 2025 encontrou essa relação, especialmente nos casos mais graves. Pesquisas anteriores também identificaram, em tecido cerebral de pacientes com Alzheimer, toxinas e microrganismos ligados à doença periodontal, embora a relação de causa e efeito ainda siga em investigação.
A periodontite — infecção bacteriana crônica da gengiva e dos tecidos de sustentação dos dentes — também tem sido ligada a complicações sérias, incluindo partos prematuros, assim como doenças cardiovasculares e diabetes.
Ainda que a ciência venha reforçando a ligação entre saúde bucal e diferentes doenças, o cuidado preventivo continua fora da rotina de boa parte da população. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2019, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostram que mais de 50% dos brasileiros não realizam consultas odontológicas anuais, conforme recomendado.
“Em muitos casos, isso acontece por dificuldade de acesso à saúde, mas também porque a ida ao dentista ainda é subestimada por uma parcela da população, inclusive entre pessoas com condições de manter consultas regulares. É notório o número de casos que já identificamos em check-ups bucais, como o de um paciente com baixa saturação de oxigênio em razão de obstrução das vias aéreas, quadro diagnosticado durante uma avaliação odontológica. O problema é que muitos ainda associam o dentista apenas ao tratamento da dor ou a procedimentos estéticos. Ir ao dentista é tão importante quanto realizar exames de sangue, urina ou imagem. Isso porque a odontologia não se resume aos dentes”, destaca Marcelo Kyrillos, sócio-diretor da clínica Ateliê Oral, em São Paulo.
O porta-voz cita o caso de um paciente cujo exame bucal revelou um problema muito mais sério do que se imaginava: um mal posicionamento na língua que obstruía as vias aéreas durante o sono. O quadro comprometia severamente a respiração noturna e colocava o paciente em uma situação de risco. O tratamento odontológico envolveu o reposicionamento dos dentes dentro das bases ósseas e o correto alinhamento dos maxilares, com o objetivo de restabelecer a passagem de ar. O paciente utilizou aparelho ortodôntico e outros recursos para correção da mordida e do alinhamento dentário, além de ter sido submetido a cirurgia para adequação das bases ósseas e desobstrução das vias aéreas. Como resultado, o índice de oxigenação passou de 53% — muito abaixo do normal — para 98%. Sem um exame detalhado, dificilmente esse paciente teria descoberto a gravidade do problema a tempo.
Outras doenças que podem ser identificadas em um exame bucal
Doenças que podemos contrair pela boca
Assim como alterações na cavidade oral podem ajudar a identificar doenças, a boca também pode funcionar como porta de entrada para outras. Infecções bucais aparentemente simples, como cáries e gengivite, também podem favorecer a entrada de bactérias na corrente sanguínea, com potencial de repercussão em diferentes partes do organismo. A seguir, Kyrillos cita alguns exemplos:
Como se proteger: o especialista faz um alerta: é importante fazer uma distinção — check-up bucal não é sinônimo de limpeza de tártaro com aplicação de flúor. “O correto é que o dentista realize um exame clínico aprofundado. Isso inclui avaliar mordida, respiração, posição dos dentes, estruturas ósseas, desgastes, lesões e outros indícios que possam apontar alterações mais amplas”, explica. A depender da clínica, os exames podem ser mais criteriosos. “Eu geralmente incluo fotografias da face e o escaneamento dos dentes para avaliar a harmonia das bases ósseas, além de tomografia, um exame esquelético em 3D que permite analisar maxilares e dentes com mais precisão.”, destaca o especialista.
Para quem busca procedimentos estéticos, o alerta é ainda mais importante. Antes de qualquer intervenção, é fundamental passar por um dentista com experiência em diagnóstico e que valorize uma avaliação bucal detalhada. Sem esse cuidado, há o risco de mascarar sinais de doenças ou adiar a identificação de problemas que já estavam em curso.
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