América Latina deve liderar crescimento global em terras raras, com alta de 88% até 2029
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 5 de janeiro de 2026
Região passará de 0,6 mil para 7,5 mil toneladas de óxidos de terras raras, impulsionada por novos projetos no Brasil, demanda de veículos elétricos e realinhamento geopolítico, aponta BTG Pactual.
Por Ricardo Lima
A América Latina, liderada pelo Brasil, deve registrar o crescimento mais acelerado do mundo na produção de óxidos de terras raras entre 2025 e 2029, com uma taxa média anual composta de 88%, saltando de apenas 0,6 mil toneladas para 7,5 mil toneladas no período. Embora a expansão absoluta ainda seja modesta em comparação a outras regiões, o avanço sinaliza um esforço estratégico no mercado global desses minerais críticos, de acordo com relatório do BTG Pactual lançado em novembro.
Esse movimento ocorre em um contexto de intensificação dos esforços de países ocidentais para reduzir a dependência da China, responsável por cerca de 90% do refino global de terras raras, e reforça o Brasil como um dos principais vetores da nova reorganização da cadeia internacional de suprimentos.
Os elementos de terras raras formam um grupo de 17 minerais com propriedades magnéticas, luminescentes e eletroquímicas essenciais para tecnologias de ponta. Ímãs de alta potência concentram a maior parte da demanda, impulsionados pela expansão dos veículos elétricos, da energia eólica, de aplicações em defesa, robótica e segmentos emergentes como aeronaves elétricas de decolagem vertical. Neodímio, cério e lantânio respondem por mais de 80% do consumo global.
Apesar de relativamente abundantes na crosta terrestre, as terras raras enfrentam gargalos relevantes ao longo da cadeia produtiva. O processo começa com a mineração, seguida pelo beneficiamento físico para concentração do minério. Na etapa seguinte, ocorre o processamento químico para a produção de concentrados ou carbonatos mistos. O maior desafio está na separação individual dos elementos e no refino em óxidos de alta pureza, etapas que exigem tecnologias sofisticadas, alto consumo de reagentes e rigorosos controles ambientais. É nesse ponto que se concentra a maior parte do valor agregado da indústria.
A China domina tanto as etapas de separação e refino quanto a fabricação de ímãs permanentes, exercendo influência direta sobre preços, fluxos comerciais e disponibilidade global. Projeções indicam que a demanda mundial por terras raras deve crescer a um CAGR entre 3% e 7% nos próximos anos, com o consumo associado a veículos elétricos mais do que dobrando ao longo da década.
Diversificação avança fora da China
De acordo com a Wood Mackenzie, a China deve adicionar cerca de 23 mil toneladas de óxidos de terras raras à oferta global até 2029, o que representa um crescimento médio anual de 2,2%. Fora da China, a expansão será significativamente maior, com cerca de 87,5 mil toneladas adicionais previstas e um crescimento anual de 10,5% no período.
Esse avanço faz parte de uma estratégia deliberada de diversificação das cadeias de suprimentos adotada por Estados Unidos, União Europeia, Japão e outros países industrializados, que buscam reduzir a vulnerabilidade associada ao domínio chinês em minerais críticos considerados essenciais para a transição energética, a indústria de defesa e a segurança econômica.
A maior parte dessa nova capacidade fora da China deve vir de países da Ásia-Pacífico, África e Oriente Médio, América do Norte e América Latina. Embora a contribuição latino-americana seja menor em termos absolutos, o ritmo de crescimento posiciona a região como uma nova fronteira do setor, especialmente em um cenário de busca por fornecedores não chineses, contratos de longo prazo e mitigação de riscos geopolíticos.
Brasil emerge como eixo estratégico na cadeia
Com a segunda maior reserva de terras raras do mundo, estimada em 21 milhões de toneladas, o Brasil desponta como uma oportunidade estratégica de baixo custo e com forte presença de elementos pesados, mais escassos e de maior valor econômico. Projetos em diferentes estágios de maturidade vêm reforçando a ambição de consolidar um polo ocidental de terras raras no país, embora o avanço no downstream, especialmente nas etapas de separação e refino, continue sendo o principal desafio.
Entre os projetos em desenvolvimento, a Mineração Serra Verde se destaca como a única operação comercial integrada em atividade no país. Localizada em Minaçu, Goiás, a empresa realiza mineração e processamento, mas ainda depende do envio de concentrados para a China para cumprir os requisitos técnicos da etapa de separação.
A Viridis Mining, com atuação no complexo alcalino de Poços de Caldas, em Minas Gerais, adota uma estratégia mais avançada de agregação de valor. Por meio de joint ventures e parcerias institucionais, a empresa busca estabelecer capacidades locais de refino, separação e reciclagem de óxidos de terras raras, apoiada por instituições como o SENAI e por linhas de financiamento público voltadas à industrialização mineral.
Já a Meteoric Resources, presente no município de Caldas com o Projeto Caldeira, segue um modelo intermediário. A estratégia inicial é a produção de carbonato misto de terras raras para exportação, enquanto a empresa avalia parcerias e incentivos governamentais para viabilizar o processamento doméstico em fases posteriores.
A Aclara Resources adota um modelo ainda mais integrado, combinando a mineração de argilas iônicas no Brasil e no Chile com o desenvolvimento de plantas de separação, metalização e produção de ligas nos Estados Unidos. O objetivo é construir uma cadeia completa, da mina ao ímã, alinhada a padrões ambientais, sociais e de governança exigidos por clientes ocidentais.
Além desses empreendimentos, outros players regionais também avançam em projetos de terras raras no Brasil e na América Latina, reforçando o potencial da região como novo polo de suprimento fora da China.
Reciclagem e cooperação internacional ganham espaço
Embora ainda limitada, a reciclagem pode atender entre 10% e 15% da demanda global por terras raras magnéticas até 2035, segundo estimativas da McKinsey. A ampliação desse fornecimento secundário dependerá de avanços em logística reversa, automação da desmontagem, rastreabilidade da composição dos ímãs e competitividade de custos frente à mineração primária.
Paralelamente, ganham força discussões sobre uma possível parceria estratégica entre Brasil e Estados Unidos em minerais críticos. A proposta, debatida durante a Exposibram 2025, prevê a criação de um grupo de trabalho bilateral e investimentos diretos para apoiar projetos brasileiros de extração e processamento, em moldes semelhantes aos acordos já firmados pelos Estados Unidos com Austrália e Japão.
Caso avance, a iniciativa pode representar um marco no reposicionamento do Brasil no mercado global de terras raras, reforçando seu papel como fornecedor confiável para cadeias ocidentais em um contexto de realinhamento geopolítico e aceleração da transição energética.
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