NAvegue pelos canais

­­­D­­­­ívida prorrogada da Sigma expõe desafios do caixa da mineradora

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 29 de outubro de 2026

Afastado da operação há três anos, fundador diz que situação preocupa, com multas milionárias, entraves jurídicos e regulatórios e custos elevados das medidas corretivas exigidas pelo governo — desde aspectos de mineração e meio ambiente até os ligados à saúde e segurança de funcionários e comunidade local. “Isso pode resultar em graves dificuldades financeiras para a Sigma”, diz Calvyn Gardner.

A Sigma Lithium conseguiu estender por seis meses o prazo para pagamento da dívida de US$ 105 milhões com a Synergy Capital, que venceria agora em dezembro. A gestora de investimentos Synergy é sediada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. O adiamento dá um fôlego à mineradora, mas evidencia uma situação que havia sido negada por seu copresidente Marcelo Paiva, em julho passado. Na época, falando à Bloomberg Linea, Paiva afirmou que a empresa gerava caixa e que não havia motivos para preocupação quanto ao pagamento do empréstimo.

De lá para cá, a Sigma, empresa com ações negociadas nas bolsas Nasdaq (de Nova York) e de Toronto (Canadá), além de BDRs na B3, de São Paulo, tem sofrido seguidas derrotas na Justiça brasileira, onde é alvo de vários processos em relação ao complexo minerário Grota do Cirilo, localizado nos municípios de Araçuaí e Itinga, no Vale do Jequitinhonha (Minas Gerais). Isso sem falar nos procedimentos administrativos que correm contra ela no Ministério Público do Trabalho, que interditou três pilhas de rejeitos, e na Agência Nacional de Mineração (ANM), que paralisou uma frente de lavra (a cava norte) e vetou ainda a expansão de ambas. Cinco licenças ambientais da companhia já haviam sido suspensas em setembro pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) de Minas Gerais.

Atuando na extração e beneficiamento de lítio, a Sigma deixou de ser a “queridinha do mercado” para se tornar uma fonte de incertezas significativas para investidores internacionais. A empresa deve milhões de reais aos seus fornecedores — alguns dos quais interromperam a prestação de serviços, incluindo atividades de mineração, perfuração e até o fornecimento de refeições para os funcionários. Além disso, não pagou a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) em 2025 e 2026, com graves impactos sobre os orçamentos dos municípios de Itinga e Araçuaí. Recentemente, o município de Araçuaí não conseguiu efetuar o pagamento de seus próprios servidores e prestadores de serviço devido à falta de recursos.

MPMG fala em comunicados inverídicos

Mas, ao mercado, a empresa tenta passar outra imagem, minimizando todos esses problemas. O descasamento entre o que está acontecendo e os comunicados que a Sigma emite aos analistas no exterior acabou gerando uma petição do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) ao juiz da Ação Civil Pública aberta contra a Sigma, para que envie ofício do MPMG à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e à Procuradoria da República em Minas para essas entidades avaliarem o teor das informações divulgadas ao mercado, particularmente nos dias 18 de maio, 9 de junho e 7 de setembro deste ano.

Segundo o MPMG, as informações passadas aos investidores não eram verdadeiras. No comunicado de 9 de junho, por exemplo, a empresa fazia três afirmações sobre decisão da Justiça seis dias antes, e afirmava que um desembargador do TJMG revertera decisão de primeira instância a respeito de uma garantia judicial de US$ 10 milhões que a empresa teria de pagar. No comunicado, a empresa falava em decisão “baseada em robustas evidências quantitativas apresentadas pela Sigma Lithium”, reunindo dados ambientais de apenas um ano, coletados por terceiros, “demonstrando o histórico da companhia (baixos níveis de poeira, vibrações e ruído, medidos por especialistas independentes em quatro comunidades vizinhas”. Também afirmava que a defesa (Sigma) “desmentiu alegações infundadas feitas pela promotoria local”.

Segundo o MPMG, nenhuma dessas afirmações é verdadeira: “A decisão não reverteu a decisão de primeiro grau, não se baseou em dados apresentados pela companhia, não aceitou a defesa da companhia nem afastou alegação alguma do MP”.

A CVM e o MPF-MG ainda não receberam o ofício.

Fundador preocupado

Calvyn Gardner, engenheiro fundador e ex-diretor da Sigma Lithium, afastado da empresa desde janeiro de 2023, se diz “extremamente preocupado” com os rumos da companhia — sobretudo com os acontecimentos na mina Grota do Cirilo. Gardner, que já teve 49% do negócio, tem atualmente 24% do capital do fundo que controla a Sigma, o A10 Investimentos, que controla 42% das ações da Sigma.

O ex-diretor também critica, há muito tempo, os métodos predatórios — como a extração seletiva de alto teor (high grading) — utilizados na retirada do minério, o que demonstra um total desrespeito às normas de segurança. No final de setembro (dia 28), a área técnica da Agência Nacional de Mineração (ANM) decidiu “interditar e suspender imediatamente todas as atividades de mineração na Cava Norte” da Sigma. Essa decisão, que abrange operações nos municípios mineiros de Araçuaí e Itinga, foi tomada após a “confirmação de risco iminente” relacionado ao possível colapso de um talude da cava, mantido pela mineradora.

A unidade técnica autorizou a continuidade apenas de operações relacionadas à recuperação de estabilidade e monitoramento dentro da área afetada.

Como condição de desinterdição, o documento exige a conclusão das obras de reconformação do talude leste da Cava Norte. O objetivo é eliminar “por completo” o trecho rompido e implantar sistemas de drenagem “que evitem a reincidência de rupturas similares no futuro”.

Também a Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente), vinculada ao governo de Minas Gerais, havia determinado a suspensão imediata de cinco licenças ambientais concedidas à Sigma Mineração. A decisão foi tomada em cumprimento a uma determinação da Justiça Federal.

Vista superior de escavação com bancadas desmoronadas e acessos, incluindo presença de água na porção inferior

“Inviabilidade econômica”

As limitações impostas à Sigma na Ação Civil Pública ajuizada pelo MPMG — e especialmente as interdições decididas pelo Ministério do Trabalho e pela ANM — seguem válidas e eficazes, devendo ser cumpridas e respeitadas pela Sigma. Além da proibição de expandir as suas operações, a empresa já foi condenada a multas milionárias por desrespeito a determinações judiciais e administrativas. A Justiça mineira, por exemplo, acatou um pedido do Ministério Público de Minas Gerais, reconheceu que a Sigma Mineração descumpriu decisão liminar e determinou o pagamento de multa diária de R$ 500 mil pelo descumprimento da garantia do acesso viário às famílias ilhadas e pela operação noturna acima do ruído permitido. Contada a partir de julho, essa multa já ultrapassa a casa dos R$ 50 milhões.

Segundo o engenheiro, tudo isso aponta para dificuldades de fluxo de caixa na empresa — problemas que decorrem não apenas de decisões judiciais, da ANM e da Feam, mas também de uma estratégia de “mineração predatória” adotada pela companhia.

“Ao optar por escavar um volume menor de rejeitos durante o primeiro ano de operação da mina e construir uma cava estreita, a Sigma se colocou em uma posição difícil: agora possui uma operação que teve um bom desempenho nos dois primeiros anos, mas chegou ao terceiro ano sem espaço no fundo para continuar a extração. Em outras palavras, uma cava como a Norte, projetada para produzir 220.000 toneladas/ano por 9 a 11 anos, chegou ao seu terceiro ano já fechada pela ANM e já está completamente destruída. Esse método de mineração predatória permite uma produção rápida no início, mas que diminui significativamente e, no terceiro ano, completamente, deixando 70% do minério no solo — minério que poderia ter sido extraído se as cavas tivessem sido desenvolvidas corretamente. Além disso, a Cava Sul, que começou um ano depois e seguiu a mesma abordagem, tem, no máximo, apenas mais um ano de operação”, afirma Gardner, destacando também os riscos inerentes a esse tipo de mineração, onde já ocorrem grandes quedas de rochas, colocando em perigo os funcionários.

O engenheiro estima que os custos para a recuperação do projeto podem ultrapassar US$ 800 milhões. Nisso estão contabilizadas a recuperação das cavas, das pilhas de rejeitos (também com graves falhas construtivas), a despoluição do rio Piauí e a adoção de mecanismos de supressão de poeira, mas há também custos com danos ambientais e às comunidades vizinhas.

Ele aponta ainda para outro problema: o cenário atual do mercado internacional de lítio, marcado por preços mais baixos e por um número crescente de minas concorrentes ao redor do mundo. “Não acredito que a empresa tenha capacidade de gerar a receita necessária para cobrir esses custos, especialmente em um mercado que já não é tão favorável. Para mim, isso evidencia a vulnerabilidade econômica da Sigma Lithium; ela carece de fundos e recursos para desenvolver as fases subsequentes e necessita, urgentemente, de novos investidores que assumam a responsabilidade por todos os passivos decorrentes da atual Fase 1”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Compartilhe