Mulheres respondem melhor às canetas emagrecedoras? Dra. Tassiane Alvarenga explica possíveis motivos
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 27 de outubro de 2026
Diferenças hormonais, metabólicas e comportamentais podem ajudar a explicar a maior resposta observada nas mulheres, mas a endocrinologista reforça que o tratamento da obesidade deve ser individualizado e considerar outros fatores
Não é novidade que homens e mulheres ganham peso e acumulam gordura de maneiras diferentes. O que talvez seja ainda mais surpreendente é que o sexo também pode influenciar a resposta às estratégias utilizadas para tratar a obesidade. Quando o assunto é mudança de estilo de vida, dieta e exercício, os homens tendem a perder mais peso, seja com dieta low carb, dieta low fat, jejum intermitente, treino aeróbico ou treino de força. Mas o jogo tem virado a favor das mulheres. Evidências recentes mostram que mulheres apresentam maior redução de peso com as popularmente chamadas “canetas emagrecedoras”, que, na verdade, são medicações com ciência e evidência para tratar a obesidade. Essas “canetas” imitam no organismo a ação de hormônios já produzidos pelo corpo humano, como GLP-1 (liraglutida e semaglutida) e GLP-1 + GIP ( tirzepatida ), hormônios que atuam principalmente no cérebro, em uma região conhecida como hipotálamo, um pequeno grande centro que controla a fome, a saciedade, a gula e o chamado “barulho de comida” (food noise ). Dessa forma, essas medicações ajudam a controlar o apetite e, consequentemente, reduzem a ingestão de calorias: em um estudo com semaglutida 2,4 mg, o consumo em uma refeição livre foi cerca de 50% menor do que com placebo. Uma metanálise publicada em 2026 no JAMA Internal Medicine, com cerca de 20 mil participantes de estudos com agonistas de GLP-1, mostrou perda média de 10,9% do peso corporal nas mulheres, contra 6,8% nos homens.
Essa diferença também chama a atenção na prática clínica da endocrinologista Dra. Tassiane Alvarenga, especialista em obesidade, menopausa, diabetes e doenças metabólicas, que atende presencialmente na Clínica Alvarenga, em Passos (MG), e por telemedicina pacientes de diferentes regiões do Brasil e do exterior. “O sexo biológico parece, sim, influenciar a resposta. Mas ele não é o único fator a ser considerado. Existem mulheres com resposta limitada e homens com resultados excelentes. Por isso, nada substitui a avaliação individual”, afirma a médica, que possui Título de Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Os dados de diferentes moléculas reforçam que existe um sinal consistente de diferença entre os sexos, embora a magnitude não seja igual em todos os estudos ou medicamentos. Com a semaglutida, os dados são consistentes: no estudo STEP 1, as mulheres perderam em média 18,4% do peso corporal, contra 12,9% dos homens; no SELECT, a redução em relação ao placebo foi de 11,1% nas mulheres e de 7,5% nos homens. Com a tirzepatida, dados do programa SURMOUNT também demonstram importante resposta entre mulheres. Uma análise post hoc dos estudos SURMOUNT, por fase reprodutiva, encontrou no SURMOUNT-1 reduções de aproximadamente 26% na pré -menopausa, 23% na perimenopausa e 23% na pós-menopausa, mostrando que a eficácia foi mantida em todas as fases da vida reprodutiva avaliadas. A diferença entre os sexos ficou ainda mais evidente no estudo fase 2 da retatrutida (molécula ainda não aprovada no Brasil nem em nenhum outro país), publicado no New England Journal of Medicine. Na dose de 12 mg, a redução foi de 26,6% nas mulheres e 21,9% nos homens. Os próprios pesquisadores destacaram que ainda não se sabe quanto dessa diferença decorre de composição corporal, distribuição de gordura ou ambiente hormonal. Com a survodutida, agonista duplo dos receptores de GLP-1 e glucagon ainda em investigação clínica, a análise por sexo do estudo de fase 2 também mostrou maior redução ponderal entre as mulheres: 17,0% com a dose de 4,8 mg, contra 11,9% nos homens.
Esses achados reforçam a mesma pergunta científica: por que as mulheres parecem responder mais, em termos de perda de peso, às “canetas emagrecedoras”? Segundo a Dra. Tassiane, provavelmente não existe uma única explicação. “Uma das hipóteses envolve o estrogênio. Ele participa da regulação da fome, da saciedade, do metabolismo energético e de circuitos cerebrais relacionados ao comportamento alimentar. Estudos experimentais mostram uma interação entre estrogênio e o sistema GLP-1, um potencial efeito amplificador do estradiol sobre a ação hipotalâmica do GLP-1, o que pode contribuir para diferenças entre homens e mulheres. Mas ainda estamos entendendo quanto desse mecanismo explica o que observamos nos estudos clínicos”, detalha a especialista, que possui formação complementar em obesidade e Medicina do Estilo de Vida pela Harvard Medical School, além de certificação internacional pelo International Board of Lifestyle Medicine, e é membro da Menopause Society com certificação internacional em Menopausa ( Menopause Society Certified Practitioner ).
Outra possível explicação envolve a farmacocinética, isto é, a exposição do organismo ao medicamento. “Como as mulheres apresentam, em média, menor peso corporal do que os homens, uma mesma dose fixa pode gerar proporcionalmente maior exposição ao fármaco. Provavelmente estamos diante da combinação de fatores hormonais, metabólicos, farmacológicos e comportamentais”, explica a endocrinologista. Fatores como a adesão ao tratamento e às mudanças no estilo de vida também podem influenciar a resposta individual. “Essas diferenças ajudam a entender por que homens e mulheres podem responder de maneira distinta ao mesmo tratamento. Mas o sexo, sozinho, não determina a melhor estratégia. A conduta precisa considerar também as características individuais de cada paciente”, afirma.
Em contrapartida, essa tendência de maior resposta não se repete quando o emagrecimento é baseado apenas em dieta e exercício. Na verdade, com essas estratégias, os homens geralmente apresentam respostas iniciais mais rápidas. Segundo a Dra. Tassiane, ainda não existe uma explicação definitiva para a diferença de resposta entre homens e mulheres, mas o mais provável é que se deva a uma combinação de fatores. “Homens costumam ter maior quantidade de massa muscular e níveis mais elevados de testosterona, o que favorece maior gasto energético e, consequentemente, o efeito da dieta e dos exercícios”, explica.
E, no caso dos homens, uma resposta média menor às medicações não significa baixa eficácia. “O tratamento continua sendo altamente efetivo, mas pode exigir atenção ainda maior aos pilares do estilo de vida para potencializar os resultados”, diz a Dra. Tassiane Alvarenga.
Em resumo, o sexo biológico pode influenciar a resposta ao tratamento, mas nunca deve ser analisado isoladamente. Idade, composição corporal, saúde metabólica global e outras comorbidades, hábitos de vida, uso de outros medicamentos e comportamento alimentar também interferem na resposta e na escolha da estratégia. “Outro fator que precisa ser levado em consideração é a entrada da mulher na menopausa. A queda nos níveis de estrogênio nessa fase leva a mudanças importantes na distribuição de gordura, no metabolismo e na sensibilidade à insulina, tornando o emagrecimento mais complexo. Ainda assim, os estudos mostram que mulheres na pós-menopausa continuam apresentando boa resposta aos agonistas de GLP-1. Alguns estudos observacionais sugerem, inclusive, que, quando existe indicação para terapia hormonal, a associação com a semaglutida ou com a tirzepatida pode potencializar a perda de peso”, diz a médica, alertando que, apesar disso, a terapia hormonal não deve ser utilizada com objetivo de emagrecimento. “Não é um recurso para fazer a caneta funcionar melhor, mas pode ser um grande aliado quando bem indicado. A prescrição deve ser individualizada de acordo com sintomas, idade, tempo desde a menopausa, riscos e contraindicações”, afirma.
Segundo a Dra. Tassiane Alvarenga, essa individualização é justamente o ponto central no tratamento atual da obesidade, independentemente do sexo. “Hoje temos medicamentos extremamente eficazes, mas eficácia não significa que todas as pessoas responderão da mesma maneira. Na medicina da obesidade, não existe tratamento ‘para homens’ ou ‘para mulheres’. Existe um tratamento que precisa ser individualizado para cada paciente. Na consulta, isso significa não definir a estratégia apenas pelo peso ou pelo sexo, mas entender quem é aquele paciente, quais fatores estão interferindo no ganho de peso e qual combinação de recursos faz sentido para ele”, afirma. Para a endocrinologista, essa personalização é o que permite buscar não apenas maior perda de peso, mas também mais segurança e benefícios metabólicos duradouros. “É esse olhar individualizado, considerando fisiologia, composição corporal, estilo de vida, fase hormonal e condições clínicas, que orienta a minha prática e permite construir estratégias mais precisas e sustentáveis para cada paciente”, finaliza.
SOBRE A MÉDICA
DRA. TASSIANE ALVARENGA: Médica endocrinologista, com atuação principal em Obesidade, Medicina do Estilo de Vida, Menopausa, Diabetes e Doenças Metabólicas. Graduada em Medicina pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), realizou residência em Clínica Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), além de aperfeiçoamentos em obesidade e Medicina do Estilo de Vida em instituições como a Harvard Medical School. Com título de Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a médica tem certificação internacional em Lifestyle Medicine pelo International Board of Lifestyle Medicine e é membro da Menopause Society com certificação internacional em Menopausa ( Menopause Society Certified Practitioner ). É uma das fundadoras do projeto Médicos na Cozinha e atua também na educação médica, como professora em cursos de atualização, palestrante em congressos científicos e speaker em programas de educação médica continuada. Fundadora do curso MENOPOWER que treina médicos de todo o Brasil a tratar menopausa com ciência, evidência e prática clínica. Atende presencialmente na Clínica Alvarenga, em Passos (MG), e por telemedicina pacientes de todo o Brasil e do exterior | CRM-MG 48.597 | CRM-SP 142.525 | RQE Clínica Médica 35.074 | RQE Endocrinologia e Metabologia 35.075 | Instagram: @tassianealvarenga
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