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Setembro amarelo e saúde mental nas escolas
Por SAFTEC DIGITAL

Setembro amarelo e saúde mental nas escolas

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 2 de outubro de 2026

O que as pesquisas recentes revelam sobre estudantes e professores?

Por Elisângela Xavier, doutora em Ciências da Educação, escritora e CEO da Editora Sigma Educação

O Setembro Amarelo convida a sociedade a falar sobre a prevenção do suicídio. Para as escolas, esse convite precisa vir acompanhado de uma pergunta: estamos percebendo o sofrimento dos estudantes antes que ele se torne uma crise e leve a consequências piores?

O balanço mais recente não permite dizer que todos os indicadores pioraram. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE em 2024 e divulgada em 2026, mostra um quadro que exige atenção e leitura cuidadosa. Entre estudantes de 13 a 17 anos, 28,9% disseram ter se sentido tristes “na maioria das vezes” ou “sempre” nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em 2019, eram 31,4%. Houve uma redução de 2,5 pontos percentuais nesse indicador. Ainda assim, a tristeza frequente atingia quase três em cada dez estudantes pesquisados.

Outros resultados ajudam a entender a dimensão do desafio. Na PeNSE 2024, 18,5% dos estudantes relataram ter sentido, na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores, que a vida não valia a pena ser vivida. Já 32% disseram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores. Esses números descrevem respostas a perguntas diferentes, em períodos diferentes. Não representam uma taxa de tentativas de suicídio, nem autorizam diagnosticar individualmente os adolescentes. Representam, porém, motivos concretos para fortalecer a escuta e o acesso ao cuidado.

As desigualdades também aparecem nos dados

O sofrimento não se distribui igualmente. A tristeza frequente foi relatada por 41% das meninas e 16,7% dos meninos. Quanto à vontade de se machucar de propósito, os percentuais foram de 43,4% entre meninas e 20,5% entre meninos. A escola precisa enxergar essas diferenças sem transformar estatísticas em rótulos: cada estudante merece ser ouvido como pessoa, e não reduzido ao grupo ao qual pertence.

O ambiente de convivência também merece atenção. Segundo o IBGE, a proporção de estudantes que declararam sofrer bullying passou de 23% em 2019 para 27,2% em 2024. A pesquisa não demonstra que o bullying causou os sentimentos descritos nos demais indicadores. Os resultados, considerados em conjunto, mostram por que prevenir humilhações, exclusões e violências deve fazer parte da rotina de proteção da escola.

Há ainda uma dimensão que atravessa a vida escolar e continua depois da aula. A TIC Kids Online Brasil 2025, divulgada pelo Cetic.br, constatou que 10% dos usuários de Internet de 9 a 17 anos utilizaram inteligência artificial generativa para conversar sobre problemas pessoais ou emoções. Essa pesquisa mede o uso de tecnologia, não a prevalência de transtornos mentais. O dado sugere, contudo, uma pergunta relevante para famílias e educadores: a quem crianças e adolescentes sentem que podem recorrer quando precisam conversar?

O compromisso precisa incluir os professores

Não podemos pedir que professores acolham o sofrimento dos alunos enquanto ignoramos o deles. Na TALIS 2024, divulgada pela OCDE em 2025, 21% dos docentes brasileiros pesquisados disseram sentir muito estresse no trabalho, e 16% afirmaram que o trabalho prejudica muito sua saúde mental. Entre os professores com menos de 30 anos, 14% declararam intenção de deixar a profissão nos cinco anos seguintes. Essa última medida indica intenção, não uma taxa de rotatividade efetiva, e a pesquisa não estabelece que o sofrimento emocional tenha causado essa intenção. A TALIS também registra estratégias presentes nas escolas: 65% dos docentes que haviam chegado à escola nos cinco anos anteriores participaram de alguma forma de integração inicial, e 34% dos professores iniciantes tinham um mentor designado. São práticas que merecem atenção dos gestores, ao lado da escuta dos profissionais e da revisão das condições de trabalho, sem supor que, sozinhas, resolvam o adoecimento. Os resultados citados referem-se a professores dos anos finais do ensino fundamental.

O compromisso precisa durar o ano inteiro

Uma campanha pode abrir uma conversa. O trabalho da escola é garantir que ela tenha continuidade: preparar profissionais para acolher relatos sem julgamento; agir diante de situações de bullying; construir uma relação de confiança com as famílias; e estabelecer caminhos claros de encaminhamento aos serviços de saúde quando um estudante precisar de avaliação ou atendimento. Professores podem reconhecer mudanças e oferecer apoio, mas não devem receber sozinhos a responsabilidade de diagnosticar ou tratar sofrimento psíquico.

Também precisamos ter cuidado com a forma de comunicar o tema. A Organização Mundial da Saúde recomenda que a cobertura sobre suicídio favoreça a prevenção e o acesso à ajuda, evitando abordagens sensacionalistas. Informar com responsabilidade é parte do cuidado.

A principal lição deste balanço é que os dados não contam uma história simples de melhora ou piora. A tristeza frequente entre estudantes caiu na comparação disponível, enquanto o bullying aumentou; os relatos de sofrimento continuam expressivos. Entre professores, há sinais mensuráveis de estresse e de impacto do trabalho na saúde mental. Neste Setembro Amarelo, a pergunta para cada rede de ensino é concreta: se um estudante ou professor disser hoje que não está bem, quem irá ouvi-lo e qual caminho de cuidado estará disponível?

O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo 188. Para atendimento em saúde, é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial; em situação de urgência, uma UPA ou o SAMU 192.

Qual é a solução?

Não há receita de sucesso, a transformação começa pela compreensão do que precisamos fazer para mudar essa situação, e talvez essa seja a parte mais importante, entender que em 2026 as pessoas não são, nem estão iguais a seis anos atrás, todos nós mudamos um pouco e a nova geração mudou muito, e oferecer a ela a estrutura necessária para que se desenvolva nesse processo é perceber que algumas formas não servirão mais para assar esse bolo, outras virão e serão testadas, aprovadas e reprovadas, o mais importante é fazer com que todos os envolvidos percebam que o mais importante não é o resultado final, mas o caminho que iremos percorrer no processo, respeitando, corpo e mente, a individualidade e a coletividade, sem julgamentos e com um ingrediente que sempre existiu e que torna-se cada dia mais imprescindível, o respeito as diferenças.

Fontes e notas de apuração

[1] IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2024, divulgação de 25 mar. 2026. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/46171-5-edicao-da-pense-meninas-sao-as-maiores-vitimas-de-violencia-sexual

[2] Cetic.br. TIC Kids Online Brasil 2025, divulgação de 22 out. 2025. https://cetic.br/pt/noticia/tic-kids-online-brasil-65-das-criancas-e-dos-adolescentes-usam-ia-generativa-para-estudar-criar-conteudo-e-lidar-com-emocoes/

[3] OCDE. Results from TALIS 2024 — Country notes: Brazil, divulgação de 7 out. 2025. https://www.oecd.org/en/publications/results-from-talis-2024-country-notes_e127f9e2-en/brazil_1e93d3b5-en.html

[4] OMS. Preventing suicide: a resource for media professionals, 2023. https://www.who.int/publications/i/item/9789240076846

[5] Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao

Nota: a PeNSE foi coletada em 2024 e divulgada em 2026; a TIC Kids Online foi coletada em 2025; a TALIS foi coletada em 2024 e divulgada em 2025. Seus percentuais se referem a populações diferentes e não devem ser comparados diretamente. A PeNSE não inclui adolescentes fora da escola.

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