Além das veias: a nova cirurgia vascular
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 28 de setembro de 2026
Avanço de procedimentos menos invasivos e a chegada de pacientes com lipedema empurram a especialidade para um cuidado que une saúde vascular, pele e contorno corporal
Durante boa parte da carreira, o cirurgião vascular Henrique Abreu tratou varizes e vasinhos. Viu os procedimentos encolherem, ficarem mais rápidos e migrarem do centro cirúrgico para o consultório. Mas notou algo que a técnica não resolvia: parte das pacientes saía da clínica com as veias tratadas e as pernas, na percepção delas, ainda longe do que queriam.
“Demorei a entender que tratar a doença nem sempre era suficiente”, diz Abreu. “A paciente vinha pelas varizes, mas o que a incomodava de verdade eram celulite, flacidez, o contorno. E isso não entrava na consulta vascular tradicional.”
A percepção do médico mineiro traduz um movimento mais amplo na flebologia, o ramo da cirurgia vascular dedicado às doenças venosas. A fronteira entre tratar uma condição clínica e cuidar da aparência das pernas ficou mais tênue, e uma nova geração de pacientes passou a cobrar as duas coisas na mesma consulta.
Do centro cirúrgico ao consultório
A transformação que Abreu acompanhou começou pela técnica. Há duas décadas, o tratamento padrão para varizes de grande calibre era a cirurgia convencional: internação, anestesia geral ou raquianestesia e semanas de recuperação. Hoje, o mesmo problema costuma ser resolvido com laser, radiofrequência ou espuma injetada, guiados por ultrassom e feitos com anestesia local.
“A paciente entra andando, sai andando e volta à rotina em um ou dois dias”, resume o cirurgião. “Isso mudou a relação dela com o tratamento. Deixou de ser um evento na vida e virou um cuidado.”
A mudança teve um efeito colateral pouco discutido. Com a etapa clínica mais leve, sobrou espaço na consulta para outras queixas — e as pacientes começaram a trazê-las.
A paciente que mudou a consulta
A principal delas foi a mulher com lipedema, doença crônica em que a gordura se acumula de forma desproporcional nas pernas e, às vezes, nos braços, acompanhada de dor, sensibilidade ao toque e facilidade para hematomas. A condição é frequentemente confundida com obesidade ou com linfedema e passou a constar da Classificação Internacional de Doenças da OMS (CID-11) em 2022. Estimativas internacionais, ainda imprecisas, apontam que ela pode atingir cerca de uma em cada dez mulheres.
“Ela começou a chegar cada vez mais ao consultório, muitas vezes depois de anos ouvindo que o problema era só peso”, conta Abreu. “E foi essa paciente que me fez perceber que tratar apenas a doença não bastava.”
Segundo o médico, a mulher com lipedema convive com a dor, mas raramente chega ao consultório só por causa dela. Vem também com queixas que não são a doença em si: um aspecto de casca de laranja que lembra celulite, flacidez, perda de contorno, piora da qualidade da pele. São condições diferentes, com causas diferentes, que costumam coexistir na mesma perna. “Essas queixas impactam profundamente a satisfação dela com as próprias pernas. Se eu resolvo a parte vascular e ignoro o resto, ela continua sem se reconhecer no espelho.”
Da veia à perna inteira
A resposta de Abreu foi voltar a estudar. Primeiro o próprio lipedema, em livros, artigos e congressos, para afinar diagnóstico e tratamento. Depois, áreas que até pouco tempo ficavam fora do repertório do vascular, em cursos, treinamentos e mentorias. O percurso foi coroado em setembro com a certificação Legs360, protocolo de formação voltado ao tratamento integrado das pernas e dos glúteos.
“Abri a cabeça e expandi os horizontes”, diz ele. “Aos poucos, deixei de olhar apenas para veias e doenças e passei a enxergar pernas e glúteos de forma integral.”
Com isso, entrou no consultório um arsenal que antes pertencia a outras especialidades:
– Subcisão, técnica que rompe as traves fibrosas responsáveis pelas depressões da celulite
– Bioestimuladores de colágeno, injetáveis que induzem a pele a produzir colágeno próprio
– Radiofrequência microagulhada e monopolar, que aquecem camadas da pele para tratar flacidez
– Campo eletromagnético, usado para estímulo muscular
– Preenchimento glúteo com ácido hialurônico, para restaurar volume e contorno
A lógica, segundo Abreu, é a mesma da flebologia moderna: procedimentos ambulatoriais, com pouca ou nenhuma interrupção da rotina, combinados conforme a queixa de cada paciente. “Não é pacote. É uma avaliação que olha a perna inteira e decide, com a paciente, o que faz sentido para ela.”

A aproximação entre cirurgia vascular e estética levanta uma questão que a própria especialidade ainda discute: até onde vai o papel do vascular. Abreu responde com uma regra de sequência. “Primeiro a gente trata o lipedema: desinflama, controla a dor, cuida da parte vascular. Só num segundo momento a gente avalia e cuida do contorno. Não dá para inverter essa ordem.”
Na avaliação dele, essa segunda etapa é território natural do vascular. “Ninguém conhece tão profundamente a anatomia das pernas, das coxas e dos glúteos quanto quem opera essa região há anos. Sabemos onde passam os vasos e os nervos, e é isso que torna um procedimento estético seguro.”
O cirurgião também faz questão de separar os diagnósticos e conter expectativas. Lipedema, lembra ele, é uma doença crônica sem cura; celulite é outra condição, de origem distinta, que pode ou não estar presente. “Tratar celulite não trata lipedema, e vice-versa. O que eu posso oferecer, em cada uma, é controle e melhora. Prometer perna nova é desonesto e vai contra a ética médica.”
O ganho maior, diz ele, não aparece no ultrassom. “A paciente que sai daqui satisfeita não é a que tem a veia fechada. É a que volta a usar a saia que guardou no armário. Hoje eu não olho mais só para a veia. Eu olho para a perna inteira e para a mulher que vive nela.”
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