Como os Fiagros ampliaram as fontes privadas de financiamento do agronegócio
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 10 de setembro de 2026
Historicamente, o financiamento do campo brasileiro esteve concentrado no crédito rural bancário, com forte presença de recursos direcionados e subsidiados pelo poder público. Operadas por bancos públicos e privados e por cooperativas de crédito, as linhas reunidas no Plano Safra continuam fundamentais para o setor. No entanto, o crescimento acelerado da produção agrícola no País ampliou a demanda por recursos além da disponibilidade de crédito subsidiado. Nesse cenário, instrumentos do mercado de capitais passaram a complementar as fontes tradicionais e a financiar a expansão, a modernização e a infraestrutura logística do agronegócio.
Essa transformação começou antes dos Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros), com o avanço de instrumentos como a Cédula de Produto Rural (CPR), a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA). Criados em 2021, os Fiagros representaram uma nova etapa desse movimento. Inspirados nos fundos de investimento imobiliário, eles ampliaram a conexão entre diferentes perfis de investidores e as cadeias produtivas do campo.
Dependendo da política de cada fundo, os recursos podem ser direcionados a títulos e direitos creditórios, imóveis rurais e participações em empresas do setor. Dessa maneira, chegam a diferentes etapas da cadeia, como aquisição de insumos e maquinários, financiamento da produção, compra de terras e construção de estruturas de armazenamento.
Como os Fiagros funcionam
Na prática, os Fiagros captam recursos de investidores para aplicá-los em ativos relacionados ao agronegócio. As carteiras podem incluir títulos de crédito, com destaque para a CPR, o CRA e as debêntures de empresas do setor, além de direitos creditórios, imóveis rurais e participações societárias.
A origem dos rendimentos varia conforme a estratégia de cada fundo. Nos Fiagros voltados ao crédito, os recursos vêm principalmente da remuneração de títulos e direitos creditórios e de eventuais ganhos obtidos com a negociação desses ativos. As estratégias imobiliárias podem gerar receitas com arrendamento, locação ou venda de propriedades rurais, enquanto os fundos que investem em empresas do setor podem receber dividendos e se beneficiar da valorização dessas participações.
É nesse segmento que atua o Patria, gestor de dois Fiagros voltados ao crédito: o Patria Crédito Agrícola (PAAG11) e o Patria Crédito Agro (PLCA11). Os fundos concentram sua estratégia em operações de securitização e dívida corporativa de empresas das cadeias do agronegócio, exemplificando como os recursos dos investidores podem ser direcionados ao financiamento privado do setor.
Para o investidor individual, um dos atrativos é a possibilidade de isenção de Imposto de Renda sobre os rendimentos distribuídos, desde que sejam cumpridos os requisitos legais. Entre as condições, o fundo precisa ter ao menos 100 cotistas, e a pessoa física não pode possuir 10% ou mais das cotas nem ter direito a 10% ou mais dos rendimentos. Muitos Fiagros de crédito também mantêm títulos remunerados por índices como o CDI ou o IPCA, embora a composição e o desempenho dependam da estratégia de cada carteira.
Em poucos anos, a classe alcançou patrimônio de dezenas de bilhões de reais e atraiu milhares de investidores. Parte desses fundos tem cotas negociadas na bolsa de valores, o que facilitou o acesso das pessoas físicas a ativos ligados ao agronegócio.
Para produtores rurais e agroindústrias, o mercado de capitais ampliou a disponibilidade de recursos e permitiu a criação de operações com prazos e condições adaptados aos ciclos das safras e da pecuária. O acesso, entretanto, depende das características de cada emissão e das condições do mercado.
A captação também pode exigir dos emissores e devedores padrões mais rigorosos de governança, transparência contábil e conformidade socioambiental. Esses critérios são considerados na análise dos títulos e dos ativos que integram as carteiras dos fundos.
Ofertas crescem 226,9% até maio de 2026
Com o amadurecimento dessa classe de ativos, os Fiagros ganharam espaço como fonte complementar de capital privado para o agronegócio brasileiro. À medida que o setor avança em direção à agricultura de precisão e exige mais recursos para infraestrutura e sustentabilidade, o mercado de capitais amplia sua participação no financiamento da eficiência do campo e do desenvolvimento econômico do País.
Dados da Anbima mostram que as ofertas de Fiagros somaram R$ 5,8 bilhões entre janeiro e maio de 2026, aumento de 226,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. O crescimento foi impulsionado principalmente pelas operações registradas em maio, que movimentaram R$ 1,8 bilhão.
O indicador não deve ser confundido com a captação líquida dos fundos, que representa a diferença entre aplicações e resgates. Em 2025, os Fiagros registraram captação líquida positiva de R$ 9,1 bilhões e encerraram o ano com patrimônio de R$ 21,6 bilhões.
A Resolução CVM nº 214, aprovada em setembro de 2024 e em vigor desde março de 2025, estabeleceu uma regulamentação específica para os Fiagros. Entre os avanços, a norma abriu espaço para carteiras diversificadas, capazes de combinar diferentes categorias de ativos relacionados às cadeias produtivas do agronegócio.

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