Água como ativo: por que o setor entrou no radar dos grandes investidores
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 28 de agosto de 2026
A água vem ganhando espaço nas estratégias dos grandes investidores globais. Não se trata de negociar diretamente o recurso natural, mas de financiar a infraestrutura necessária para captar, tratar, distribuir e reaproveitá-la. Redes de abastecimento e esgoto, estações de tratamento, sistemas de reúso, plantas de dessalinização, medidores inteligentes e tecnologias voltadas à redução de perdas formam um mercado sustentado por uma combinação difícil de ignorar: demanda permanente, escassez crescente e necessidade de investimentos de longo prazo.
O interesse financeiro pelo setor acompanha a percepção de que a segurança hídrica se tornou uma questão econômica. Publicado em julho, o relatório Financing Water Security, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estima que a falta de investimentos em água poderá provocar perdas equivalentes, em média, a 8% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial até 2050. Nos países de baixa renda, o impacto pode alcançar de 10% a 15% do PIB.
A água está presente na agricultura, na geração de energia, na indústria, na mineração, nos serviços de saúde e na expansão dos centros urbanos. Nos últimos anos, tornou-se também um elemento estratégico para setores digitais. Data centers, por exemplo, podem utilizar grandes volumes do recurso em seus sistemas de refrigeração, ampliando a pressão sobre regiões que concentram empreendimentos e já enfrentam restrições de oferta.
Essa dependência transforma a infraestrutura hídrica em uma tese de investimento mais abrangente do que a simples expectativa de valorização decorrente da escassez. Segundo a OCDE, o capital começa a ser direcionado para diferentes frentes, como títulos de dívida, parcerias público-privadas, financiamentos vinculados a resultados e fundos especializados. O desafio é estruturar projetos capazes de gerar receitas previsíveis sem comprometer a acessibilidade dos serviços.
A previsibilidade é justamente um dos principais atrativos do setor. Serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário possuem demanda contínua e costumam operar sob contratos de concessão de longo prazo, com regras tarifárias e mecanismos de reajuste previamente definidos. Essas características podem favorecer receitas recorrentes e menor exposição às oscilações da atividade econômica.
Isso não significa, entretanto, que todo empreendimento ligado à água seja automaticamente um bom negócio. Projetos do setor exigem investimentos elevados, têm retorno prolongado e dependem da qualidade da regulação. Tarifas insuficientes, mudanças contratuais, baixa eficiência operacional e endividamento excessivo podem comprometer os resultados. A própria OCDE alerta que o valor econômico da água permanece subestimado em muitos países e que tarifas mantidas artificialmente baixas dificultam a cobertura dos custos de operação e manutenção.
Um mercado em transformação no Brasil
No Brasil, a combinação entre déficit histórico de atendimento e maior segurança regulatória abriu uma nova frente para investidores em infraestrutura. O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu a meta de atender 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. A legislação também ampliou a concorrência, estimulou a formação de blocos regionais e atribuiu à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) a elaboração de normas de referência para o setor.
Apesar dos avanços, a distância até a universalização permanece significativa. Os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), referentes a 2024, mostram que 84,1% da população brasileira é atendida por redes de abastecimento de água. No esgotamento sanitário, a cobertura cai para 62,3%. Entre os moradores da área rural, somente 4,8% contam com rede coletora de esgoto.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que o País precisará investir cerca de R$ 420 bilhões para cumprir as metas previstas para 2033. Além da expansão das redes, os recursos devem financiar a modernização dos sistemas existentes e a redução das perdas na distribuição. Em 2024, 39,5% da água produzida no Brasil foi perdida antes de chegar aos consumidores, segundo dados do Sinisa reunidos pela entidade.
A abertura ao capital privado já alterou a configuração do mercado. O Panorama da Participação Privada no Saneamento 2025, elaborado pela Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon Sindcon), mostra que 1.820 municípios brasileiros já contavam com alguma forma de atuação privada em agosto de 2025, crescimento de 525% em relação a 2019.
Desde a atualização do marco regulatório, 60 leilões mobilizaram R$ 181,6 bilhões em investimentos contratados até 2025, com previsão de beneficiar 74 milhões de pessoas. O levantamento também mostra que o setor recebeu R$ 84 bilhões entre 2020 e 2023, dos quais R$ 24,7 bilhões somente no último ano da série, o maior valor registrado até então.
O movimento mostra como o saneamento passou de uma atividade concentrada em companhias públicas para uma das principais fronteiras das concessões de infraestrutura no Brasil. A entrada de novos operadores também amplia a demanda por financiamento, equipamentos, serviços de engenharia e soluções tecnológicas voltadas à expansão e à eficiência das redes.

Do saneamento à dessalinização
A tese da água não se limita à operação das redes tradicionais. A maior frequência de secas, o crescimento das cidades e a demanda industrial estimulam investimentos em tecnologias antes utilizadas apenas em regiões com condições extremas.
Na dessalinização, a retirada do sal da água do mar permite criar novas fontes de abastecimento em áreas com pouca disponibilidade hídrica. No reúso, efluentes tratados podem ser destinados a atividades industriais, irrigação, limpeza urbana e outros usos que não exigem água potável. Sensores e medidores inteligentes, por sua vez, ajudam a identificar vazamentos e controlar o consumo em tempo real.
Essas soluções ampliam o universo de empresas relacionadas ao tema. Além das concessionárias, a cadeia abrange fabricantes de bombas, tubulações, membranas e equipamentos de filtragem, companhias de engenharia, desenvolvedores de softwares e plataformas de monitoramento. No mercado internacional, índices e fundos especializados já agrupam empresas de infraestrutura, serviços, equipamentos e materiais ligados à água.
O Patria é uma das gestoras de ativos que passaram a incorporar o setor às suas estratégias de infraestrutura. O Patria Infrastructure Fund V, que encerrou a captação em 2025 com US$ 2,9 bilhões em compromissos e veículos associados, investe em diferentes ativos na América Latina, entre eles saneamento e dessalinização.
No Chile, o fundo participa da Aguas Pacifico, projeto voltado ao fornecimento de água dessalinizada em uma região submetida a elevado estresse hídrico. A primeira fase prevê a construção de uma planta com capacidade de mil litros por segundo, um aqueduto de 104 quilômetros e uma subestação de energia.
No Brasil, a gestora entrou diretamente no saneamento com a VITA Sertão, concessionária investida pelo Fundo V de Infraestrutura. A empresa venceu, em dezembro de 2025, o leilão do Bloco 1 do Sertão, em Pernambuco, e assinou em abril de 2026 o contrato para distribuir água tratada e operar a coleta e o tratamento de esgoto em 24 municípios e 229 localidades, atendendo mais de 815 mil pessoas.
A concessão terá duração de 35 anos e prevê R$ 3,4 bilhões em investimentos, dos quais R$ 2,8 bilhões deverão ser aplicados nos primeiros oito anos. Entre as intervenções planejadas estão mais de 450 quilômetros de adutoras novas ou revitalizadas, 2.600 quilômetros de redes de distribuição de água e coleta de esgoto e 270 mil novas ligações.
A proposta vencedora incluiu outorga de R$ 720 milhões e desconto de 5% sobre as tarifas vigentes. Corrigido pelo IPCA desde a data-base do contrato, o valor total da outorga chegou a aproximadamente R$ 825 milhões. A VITA Sertão iniciou um período de operação assistida, durante o qual a Compesa permanece responsável pelos serviços, e assumirá integralmente a operação em 29 de setembro de 2026.
Mais do que uma aposta na escassez, portanto, investir em água significa financiar os sistemas que permitem utilizar melhor um recurso essencial. O potencial de retorno existe, mas depende da capacidade de combinar eficiência operacional, contratos equilibrados, regulação estável e tarifas socialmente sustentáveis. Em um setor no qual o investimento insuficiente produz consequências econômicas, ambientais e sanitárias, o desafio não é apenas atrair mais capital, mas assegurar que ele resulte em redes ampliadas, redução das perdas e melhoria efetiva dos serviços.
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