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É preciso evitar a “síndrome do protagonismo”: quando o fundador se torna um limite para o próprio negócio

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 25 de agosto de 2026

Para o empresário Carlos Santana, o momento em que o fundador aprende a dividir o protagonismo é decisivo para o crescimento do negócio

Carlos Santana aborda os limites do protagonismo do fundador na gestão empresarial. Foto: Divulgação

A concentração de decisões, conhecimento e protagonismo em torno do fundador pode se tornar um obstáculo ao crescimento de uma empresa. Na avaliação do empresário, investidor e advogado Carlos Santana, a capacidade de assumir riscos, centralizar decisões e imprimir uma visão própria pode ser determinante no início de um negócio, mas precisa dar espaço, ao longo do tempo, à formação de novas lideranças, à distribuição de conhecimento e à capacidade de ouvir diferentes pontos de vista.

Carlos Santana conhece os dois lados desse processo. Ao longo de mais de 20 anos de carreira, construiu sua trajetória principalmente nos setores de tecnologia, serviços financeiros e mercado automotivo, em atividades marcadas pela forte regulação e pela digitalização de processos. Hoje, uma das questões que mais o interessam ao falar sobre liderança é justamente o momento em que o protagonismo deixa de ser uma virtude e passa a limitar uma empresa.

O empresário usa uma expressão própria para definir esse cenário: “síndrome do protagonismo”. É quando o líder passa a confundir a responsabilidade de conduzir um negócio com a necessidade de permanecer no centro dele. Na sua avaliação, a raiz dessa dificuldade está frequentemente na vaidade, que interfere não apenas nas relações, mas também na própria qualidade das decisões. “A vaidade é o maior erro que um empresário, empreendedor pode cometer, porque ela aniquila a escuta, aniquila a distribuição do conhecimento, aniquila o reconhecimento de pessoas para as funções e para a concentração das suas melhores habilidades”, sintetiza.

Essa percepção ganhou outra dimensão depois de uma experiência que ultrapassou o ambiente empresarial. Durante cerca de dois anos, enfrentou um grave problema de saúde, passou por quatro procedimentos cirúrgicos e chegou a ficar 70 dias internado. Houve momentos, conta, em que teve dúvidas se sobreviveria. Acostumado a participar diretamente da construção e das decisões de seus negócios, precisou se afastar da rotina e, à distância, constatou que as estruturas que havia ajudado a criar continuavam funcionando sem sua presença cotidiana.

O período reforçou uma convicção que hoje associa diretamente à liderança: formar pessoas e compartilhar conhecimento é também preparar um negócio para não depender de quem o criou. Perceber que as atividades continuavam mesmo durante sua ausência foi, para ele, uma confirmação de que, ao longo dos anos, havia conseguido distribuir conhecimento. “O conhecimento só serve para ser distribuído, ele não serve para ser centralizado”, coloca. E resume a ideia em outra frase: “Ninguém faz nada sozinho.”

A experiência pessoal também ajuda a explicar por que ele prioriza a humildade entre as características mais relevantes de um líder. O empresário associa o termo à possibilidade de reconhecer que trajetória e posição hierárquica não tornam ninguém dono das melhores respostas. Estar aberto à opinião alheia é parte do próprio processo de evolução. “A capacidade de aprender se concretiza na capacidade de escutar sempre e respeitar sempre a opinião alheia. Isso inclui desde um motorista de aplicativo, de táxi, até o CEO de uma grande companhia.”

Tecnologia sem pessoas não sustenta vantagem competitiva

A defesa da escuta também ganha outra perspectiva em um ambiente cada vez mais influenciado pela inteligência artificial e automação. Carlos Santana fez carreira em negócios fortemente ligados à tecnologia, mas rejeita a ideia de que ela, isoladamente, sustente uma vantagem competitiva. “A tecnologia, pela tecnologia, é uma commodity. Antes de sermos tecnológicos, somos humanos”, diz. Ele considera que nenhuma ferramenta substitui a necessidade de formar pessoas capazes de interpretar cenários e tomar decisões, combinação que pretende preservar nos novos projetos que estuda nas áreas de trânsito e mobilidade.

A vivência acumulada também alterou a forma como ele olha para o risco. Carlos Santana recorre a Virgílio para resumir essa relação: “A fortuna favorece os audazes”. Para ele, experiência não significa deixar de arriscar, mas fazê-lo a partir do conhecimento acumulado, o que minimiza o erro sem eliminá-lo. “Quando se assume risco, você põe o foco naquilo que você já tem de conhecimento acumulado, porque aí o erro fica minimizado, embora ele sempre vá acontecer.”

O passo mais difícil para o fundador

Depois de mais de duas décadas empreendendo, Carlos Santana não associa maturidade empresarial a ter mais respostas. Associa à capacidade de continuar aprendendo, ouvir quem está ao redor e reconhecer quando é hora de recuar.

Para ele, o desafio do fundador não está apenas em construir um negócio capaz de crescer, mas em criar as condições para que esse crescimento não dependa exclusivamente de sua presença. É nesse ponto que a síndrome do protagonismo se instala. Construir algo relevante exige assumir a frente; fazer esse negócio continuar crescendo pode exigir aprender a dividi-la, e reconhecer isso, para muitos fundadores, é o passo mais difícil.

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