SASSMAQ decide quem transporta químico no Mercosul
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 18 de agosto de 2026
Poucas exigências do setor logístico brasileiro têm efeito tão direto sobre quem ganha contrato quanto uma que não consta em nenhuma norma obrigatória. O SASSMAQ, sigla para Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade, foi criado em 2001 pela Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) para avaliar prestadores de serviço da cadeia logística, com foco em transportadoras rodoviárias. A metodologia se inspirou no Responsible Care, programa internacional de segurança e responsabilidade socioambiental do setor químico, e incorpora critérios de gestão da qualidade com base em estrutura semelhante à da ISO 9001.
A adesão é voluntária e não há sanção legal para quem não tem o certificado. O efeito prático, porém, é outro: grandes indústrias químicas adotam o SASSMAQ como critério mínimo de contratação, e transportadoras sem a avaliação enfrentam dificuldade de acesso a contratos com embarcadores relevantes. O filtro opera na etapa de homologação de fornecedor antes de qualquer discussão de preço, o que retira do jogo a concorrência por frete em uma fatia expressiva da carga química.
A avaliação é conduzida por organismos certificadores credenciados e cobre segurança operacional, saúde ocupacional, gestão ambiental e qualidade dos processos, com verificação documental e vistoria de instalações, frota e procedimentos. O certificado tem validade de dois anos a partir da data da avaliação, com auditorias de acompanhamento no intervalo. A renovação periódica é o que sustenta a permanência no cadastro de fornecedores dos embarcadores, e a perda do status costuma significar saída da lista antes mesmo do vencimento do contrato em curso.
No transporte internacional, a exigência se acumula com outra camada. A carga que cruza a fronteira terrestre no Cone Sul responde ao Acordo sobre Transporte Internacional Terrestre e depende de Licença Originária concedida pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e de Licença Complementar obtida no país de destino, além das regras específicas de produtos perigosos, que envolvem sinalização, documentação de emergência, qualificação de motorista e plano de atendimento a ocorrências. O resultado é um funil: a transportadora precisa ser habilitada para operar fora do país, apta para produto perigoso e aprovada no critério privado do setor químico ao mesmo tempo.
“Quando a indústria química monta a lista de transportadoras habilitadas para a rota internacional, o corte não acontece na cotação. Acontece antes, na homologação, e é ali que a certificação decide quem sequer é chamado para cotar”, afirma Lucas Vidal Cardoso, da Interlink Cargo, especializada em transporte rodoviário internacional de cargas no Mercosul.
A empresa atende carga química apoiada no SASSMAQ desde 2019 e na certificação OEA Segurança, obtida em 2023, e opera transporte rodoviário internacional, despacho aduaneiro e armazém geral entre Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai.
A concentração é o efeito econômico mais visível. Ao reduzir o número de operadores aptos, o critério eleva a barreira de entrada e valoriza as transportadoras que sustentaram o investimento em processo, treinamento e manutenção de frota ao longo dos anos. Para o embarcador, o ganho é na garantia de um padrão de qualidade para cargas que exigem um cuidado diferenciado das demais.
O movimento também conversa com a agenda ESG (ambiental, social e de governança) das indústrias contratantes. Auditoria de fornecedor deixou de ser exercício documental e passou a compor o risco reputacional do embarcador, que responde publicamente por acidente ocorrido em operação terceirizada. Nesse arranjo, a certificação funciona menos como selo de qualidade e mais como transferência estruturada de risco ao longo da cadeia.
“Manter certificação em transporte internacional é mais caro do que manter no mercado interno, porque a auditoria olha para processo que atravessa aduana, motorista em outro país e resposta a emergência fora da nossa jurisdição. É investimento contínuo, não um documento que se pendura na parede”, diz Lucas Vidal Cardoso.
A tendência aponta para o endurecimento do filtro, e não para a flexibilização. Com a digitalização das fronteiras do Mercosul e a migração dos controles aduaneiros para modelos que exigem informação antecipada, a rastreabilidade da operação passa a ser verificável por dado, não por declaração. Para a cadeia química, isso significa que o critério que hoje separa quem cota de quem não cota tende a se tornar também o critério que separa quem cruza a fronteira sem parada de quem passa a maior parte do tempo em fila.
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