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Universalização do saneamento vai além de levar água até a porta de casa, explica Márcio Velho da Silva
Por SAFTEC DIGITAL

Universalização do saneamento vai além de levar água até a porta de casa, explica Márcio Velho da Silva

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 13 de agosto de 2026

Consultor técnico defende que continuidade, qualidade e regularidade do serviço são tão decisivas quanto a cobertura da rede.

A universalização do saneamento básico costuma ser medida, no debate público, por um único indicador: quantos quilômetros de rede de água foram instalados e quantos novos domicílios passaram a ter acesso formal ao serviço. Para Márcio Velho da Silva, consultor técnico especializado em infraestrutura ambiental, esse recorte é insuficiente para explicar o que o conceito realmente exige de um sistema de saneamento maduro.

Reduzir a universalização a metros de tubulação instalada mascara falhas que só se tornam visíveis depois que o serviço já está em uso, quando famílias e empresas que tecnicamente têm acesso à rede enfrentam interrupções, quedas de pressão ou variações na qualidade da água entregue. O indicador de cobertura, isoladamente, não captura esse tipo de problema.

Cobertura geográfica é apenas o ponto de partida

A instalação física da rede resolve a pergunta sobre acesso, mas não responde se o serviço funciona de forma confiável ao longo do tempo. Um sistema pode apresentar índices elevados de cobertura e, ainda assim, falhar em entregar água com frequência previsível, o que corrói a confiança do usuário, mesmo quando ele já está formalmente conectado à infraestrutura.

Essa distinção entre acesso formal e serviço efetivo é o ponto de partida para entender por que sistemas de saneamento avaliados apenas por extensão de rede podem esconder problemas estruturais relevantes. A conexão existir no papel não garante, por si só, que ela cumpra sua função social plena junto à população atendida.

Continuidade, regularidade e qualidade formam um tripé

Continuidade significa que o serviço não para de forma imprevisível, evitando comprometer rotinas domésticas, comerciais e de saúde pública. Regularidade envolve previsibilidade de horários, pressão e volume fornecido, permitindo que famílias e empresas organizem seu próprio planejamento em torno do serviço. Sem esses dois pilares, a cobertura formal se transforma em uma promessa apenas parcialmente cumprida diante da rotina real dos usuários.

A qualidade, por sua vez, determina se a água entregue é segura para consumo direto, sem depender de tratamento adicional realizado pelo próprio morador. Segundo Márcio Velho da Silva, esses três elementos precisam ser avaliados em conjunto para que o termo universalização tenha sentido prático, e não apenas estatístico, dentro do planejamento de políticas públicas do setor.

Avaliar pela experiência do usuário muda a prioridade dos investimentos

Deslocar o foco de metros de tubulação instalada para a rotina real de quem depende da água todos os dias expõe gargalos que indicadores de cobertura simplesmente não capturam, como cortes intermitentes em regiões já formalmente atendidas pela rede. Essa mudança de perspectiva altera diretamente a forma como investimentos públicos e privados no setor deveriam ser priorizados.

Regiões com cobertura consolidada, mas com histórico recorrente de interrupções, passam a competir por recursos junto com áreas ainda sem acesso formal à rede, o que exige critérios claros de comparação entre necessidades distintas. Sem esses critérios bem definidos, a manutenção do que já foi construído corre o risco de ser tratada como prioridade secundária diante da expansão de novos trechos, decisão que tende a comprometer a qualidade do serviço já entregue à população.

O que a próxima etapa do saneamento exige do setor?

Tratar a universalização como sinônimo de cobertura geográfica simplifica um problema que é, na prática, multidimensional. Continuidade, qualidade e regularidade formam a base que transforma o acesso formal em um serviço que efetivamente cumpre sua função social, e ignorar essas dimensões, como reforça o consultor técnico, significa medir o sucesso de uma política pública pela métrica errada.

O avanço real do saneamento básico no país depende de sistemas capazes de sustentar o que já foi construído, não apenas de expandir seus limites físicos ano após ano. Essa é, em última análise, a diferença entre ampliar números de cobertura e entregar um serviço que resiste ao uso diário, à variação de demanda e à passagem do tempo, critério que tende a ganhar mais peso no debate sobre políticas públicas de saneamento à medida que o país avança em direção às metas de universalização previstas em lei.

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