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O licenciamento ambiental como risco financeiro em concessões de saneamento, por Diego Borges
Por SAFTEC DIGITAL

O licenciamento ambiental como risco financeiro em concessões de saneamento, por Diego Borges

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 29 de junho de 2026

Atrasos na obtenção de licenças comprometem cronogramas, elevam custos e impactam o retorno projetado de investidores no setor de infraestrutura hídrica.

Quando fundos de infraestrutura e analistas de mercado modelam o retorno financeiro de uma concessão de saneamento, os principais vetores de risco que entram nos modelos são conhecidos: inadimplência tarifária, risco regulatório, custo de capital e capacidade de execução das obras. Há, porém, uma variável que aparece com frequência perturbadora nos projetos que atrasam e que raramente é precificada com a seriedade que merece: o licenciamento ambiental.

Diego Borges, engenheiro com atuação em infraestrutura e saneamento, acompanhou de perto projetos cujos cronogramas foram comprometidos não por falta de recursos nem por falhas de engenharia, mas por processos de licenciamento que se arrastaram muito além do previsto. Na sua leitura, esse risco está sistematicamente ausente dos modelos financeiros que sustentam as teses de investimento no setor.

O que o licenciamento representa na prática?

Obras de saneamento que afetam corpos d’água, áreas de proteção permanente, zonas de recarga de aquífero ou regiões com presença de comunidades tradicionais precisam percorrer um processo de licenciamento ambiental que envolve estudos técnicos detalhados, consultas públicas e aprovação de órgãos em diferentes esferas. Esse processo não tem prazo fixo garantido. Depende da qualidade da documentação apresentada, da capacidade de resposta dos órgãos licenciadores e da ausência de contestações jurídicas por parte de terceiros.

Diego Borges observa que a maioria dos projetos que enfrenta atrasos significativos no licenciamento chegou ao processo com documentação incompleta ou com estudos que não anteciparam os questionamentos mais previsíveis dos órgãos ambientais. Cada rodada de complementação de documentação consome semanas ou meses, empurra o início das obras para frente e corrói a precisão do cronograma que foi apresentado aos investidores no momento da captação.

O impacto financeiro que os modelos ignoram

Um atraso de seis meses no início de obras de uma concessão de saneamento não é apenas um problema operacional. É um problema financeiro com consequências diretas sobre o fluxo de caixa projetado, o custo de carregamento do capital imobilizado e o cumprimento das metas regulatórias que estruturam o contrato. Concessões com cláusulas de penalidade por descumprimento de cronograma de obras podem acumular multas significativas enquanto aguardam licenças que deveriam ter sido obtidas antes da assinatura do contrato.

A lógica financeira que sustenta muitas das teses de investimento em saneamento assume implicitamente que o licenciamento é um processo linear e previsível. Diego Borges destaca que essa suposição raramente se confirma no campo, especialmente em projetos que envolvem intervenções em rios urbanos, áreas periféricas com histórico de conflito fundiário ou regiões com sobreposição de competências entre órgãos licenciadores municipais, estaduais e federais.

Como transformar risco em vantagem competitiva?

Empresas que desenvolvem competência interna em gestão de licenciamento ambiental transformam um risco sistêmico do setor em vantagem competitiva real. Isso significa investir em equipes técnicas capazes de antecipar as exigências dos órgãos licenciadores, estruturar estudos de impacto com nível de detalhe superior ao mínimo exigido e manter relacionamento institucional proativo com as agências reguladoras ambientais.

Concessionárias que tratam o licenciamento como etapa burocrática a ser cumprida no menor tempo possível tendem a enfrentar os maiores atrasos. As que o tratam como processo técnico que exige planejamento, recursos e atenção desde a fase de concepção do projeto chegam às obras com cronogramas mais confiáveis e menor exposição a surpresas que comprometem o retorno projetado.

O risco que o mercado vai aprender a precificar

O ciclo atual de concessões de saneamento no Brasil ainda está em fase de maturação. À medida que os projetos avançam da fase de estruturação para a fase de execução, os atrasos associados ao licenciamento ambiental vão aparecer com mais frequência nos resultados operacionais das concessionárias e nos relatórios de acompanhamento dos reguladores. Esse movimento vai forçar o mercado financeiro a incorporar essa variável nos modelos de análise de risco do setor.

Como ressalta Diego Borges, investidores que já incorporam o risco de licenciamento ambiental em suas análises hoje têm uma leitura mais precisa do perfil real de risco das concessões de saneamento do que os que ainda tratam esse fator como detalhe operacional. Em infraestrutura, os riscos que o mercado subestima são exatamente os que mais afetam o retorno no longo prazo.

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