Cérebro com TDAH não é preguiçoso, mas cansado de decidir
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 25 de junho de 2026
Juliana Zorzi ensina estratégias práticas para auxiliar pessoas diagnosticadas com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade

A cada nova decisão, o cérebro de uma pessoa com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) gasta uma fatia desproporcional de energia. O resultado não é preguiça, mas exaustão. É o que especialistas chamam de fadiga decisional.
O TDAH atinge entre 5% e 8% da população mundial, segundo dados da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) divulgados pelo Ministério da Saúde. Revisões internacionais estimam que 7,2% das crianças e adolescentes e 3,4% dos adultos convivem com o transtorno globalmente – o equivalente a cerca de 129 milhões de jovens em todo o mundo, conforme estudo da Children and Adults with Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (CHADD).
No Brasil, os diagnósticos têm crescido de forma acelerada, impulsionados por maior conscientização e pela ampliação dos critérios de identificação. Em outubro de 2025, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal aprovou projeto que prevê a inclusão de dados sobre TDAH no censo demográfico brasileiro. Se chancelada, a proposta deve permitir, pela primeira vez, um mapeamento preciso da prevalência do transtorno no país – um passo fundamental para que políticas públicas acompanhem a dimensão real do problema.
Muito mais do que identificar o transtorno, torna-se necessário encontrar caminhos para superar possíveis adversidades que possam comprometer a qualidade de vida do paciente. E aqui surge a dúvida: o que fazer na prática?
Por trás desse cenário, há um mecanismo neurológico específico que a terapeuta Juliana Zorzi conhece de dentro para fora. Diagnosticada com TDAH e altas habilidades, ela é mãe de duas filhas com o transtorno e de um filho no espectro autista. Psicopedagoga, arte terapeuta e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a especialista desenvolveu o Método Aprofundar a partir da interseção entre sua vivência pessoal e sua base clínica.
O que acontece no cérebro?
Juliana Zorzi explica que toda decisão, por menor que seja, exige uma demanda alta do córtex pré-frontal, região responsável por funções executivas como planejamento, controle de impulsos e tomada de decisão. Em pessoas com TDAH, essa área trabalha com um custo energético maior. A cada escolha feita ao longo do dia, a “bateria” cerebral se aproxima mais rápido do zero.
“O cérebro com TDAH não é um cérebro preguiçoso. Ele é um cérebro que está cansado de tomar decisões”, afirma a terapeuta, que completa: “Quanto mais demanda, mais decisões você tem que tomar, é como se você baixasse a bateria. E qual o resultado disso? O aumento da irritabilidade, a procrastinação, o aumento da impulsividade e a vontade de deixar tudo para depois”.
O fenômeno tem nome: fadiga decisional. Estudos na área de neurociência cognitiva mostram que o córtex pré-frontal de pessoas com TDAH apresenta menor ativação em tarefas que exigem controle executivo, o que significa que o desgaste é mais rápido e mais intenso.
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos aponta que cerca de 6 em cada 10 crianças com TDAH apresentam sintomas moderados ou graves, frequentemente acompanhados de condições concomitantes como ansiedade e depressão.
A busca pela recompensa imediata
Há ainda uma segunda camada no funcionamento desse cérebro. Juliana Zorzi explica que pessoas com TDAH sofrem de baixa motivação dopaminérgica. Em linhas gerais, significa que o sistema de recompensa cerebral funciona de maneira diferente.
“O que ativa esse cérebro não é a intensidade, é a repetição. Esse tipo de cérebro está sempre buscando uma recompensa imediata, um prazer compensatório”, destaca a especialista.
Na prática, isso se traduz em ciclos difíceis de romper: o cansaço de decidir leva à procrastinação, que gera culpa e ansiedade, que por sua vez aumentam a necessidade de prazer compensatório – como rolar a tela do celular por horas ou consumir alimentos ultraprocessados. O comportamento, segundo a terapeuta, não é falta de disciplina, mas um padrão neurológico que exige estratégias específicas de manejo.
O que funciona?
Para quebrar esse ciclo, Juliana Zorzi recomenda duas estratégias principais. A primeira é a adoção de tarefas fixas. “É importante estabelecer uma rotina clara e objetiva. Decidindo as mesmas coisas todos os dias, fazendo repetições como a hora de escovar os dentes, a hora de tomar o café da manhã. Rotinas fixas, não variáveis”, orienta.
A segunda estratégia é antecipar decisões. “Se você tem a dificuldade de escolher a roupa do dia seguinte, faça isso no dia anterior. Isso facilita para que o seu cérebro não tenha que tomar grandes decisões. Isso deixa você, eu e todo mundo mais feliz.”
Ambas as recomendações têm respaldo na literatura científica. Estudos sobre economia comportamental e neurociência da tomada de decisão mostram que reduzir o número de escolhas ao longo do dia preserva a energia cognitiva e melhora o desempenho em tarefas que realmente exigem atenção plena – um princípio que se aplica de forma ainda mais crítica a cérebros com TDAH.
Muito mais do que identificar o caso, é indispensável encontrar caminhos e colocar em prática ações que consigam garantir qualidade de vida para as pessoas que convivem com esse e outros transtornos. Nesse contexto, o Método Aprofundar surge como uma forma eficaz para traduzir emoções complexas em linguagem acessível, prática e aplicável. Quer saber mais sobre o assunto? Então acesse o perfil da terapeuta Juliana Zorzi.