Além do Plano Safra: por que a gestão virou o novo critério de crédito no agro
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 14 de maio de 2026
Por Henrique Galvani, CEO da Arara Seed
Converso com produtores rurais toda semana. É uma situação que se repete mais do que deveria: operação robusta, faturamento expressivo, anos de experiência no campo e Plano Safra como principal e, muitas vezes, única fonte de crédito. Não por falta de alternativas. Por falta de governança.
Ainda é comum encontrar produtores com operações robustas, faturamento expressivo e histórico consolidado, mas com lacunas básicas de gestão. Isso acaba limitando o acesso a outras fontes de financiamento, restando o Plano Safra como principal e, muitas vezes, única alternativa. Esse contraste evidencia um ponto central, o agro brasileiro já alcançou alta eficiência produtiva, mas ainda enfrenta desafios relevantes quando o assunto é gestão e estruturação financeira.
Demonstrações financeiras desestruturadas, ausência de projeção de fluxo de caixa, contratos informais e pouca separação entre pessoa física e jurídica seguem como entraves silenciosos. Na prática, o gargalo deixa de ser produtivo e passa a ser organizacional, restringindo o acesso a crédito mais sofisticado e competitivo. Esse cenário ganha ainda mais relevância em um momento de transformação no mercado de crédito. O modelo tradicional, historicamente concentrado em linhas subsidiadas, começa a dar sinais de maior restrição, com aumento de custos e redução proporcional de incentivos.
Dentro desse contexto, o Plano Safra segue como um pilar importante, mas já não pode ser visto como única alternativa. No ciclo 2025/2026, o volume foi de R$ 605 bilhões de crédito rural total anunciado, incluindo agricultura empresarial e familiar, mas houve redução no subsídio efetivo e aumento das taxas de juros, refletindo um ambiente mais desafiador. Mais do que volume, o momento exige uma leitura mais ampla sobre diversificação das fontes de financiamento.
Ao mesmo tempo, cresce a presença de instrumentos privados como Cédula de Produto Rural (CPR) estruturada, Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e notas comerciais incentivadas, que ampliam as possibilidades de financiamento no setor. Diferentemente do crédito tradicional, mais padronizado, o capital privado opera com uma lógica mais analítica e criteriosa.
Essa transformação já é visível nos dados: em 2025, pela primeira vez na história, o estoque de títulos privados superou o volume de empréstimos bancários tradicionais no Brasil, R$ 2,21 trilhões contra R$ 2,19 trilhões, segundo levantamento da Rio Bravo Investimentos com dados do Banco Central. Há dez anos, o mercado de capitais representava menos de um terço do crédito bancário. No agro, esse movimento ainda está em estágio inicial, estimamos que 25% a 30% do estoque de crédito do setor venha do mercado de capitais. Enquanto o restante da economia já fez a travessia, o agro ainda está na ponte.
Há, porém, uma diferença fundamental. Enquanto o crédito tradicional tende a seguir critérios mais uniformes, o capital privado exige previsibilidade, transparência e organização. O investidor quer entender a operação, avaliar riscos e ter clareza sobre a capacidade de execução ao longo do tempo, o que eleva o nível de exigência para os produtores.
É nesse ponto que a governança se torna decisiva. Organizar a gestão financeira, estruturar informações e profissionalizar processos não é apenas uma evolução administrativa, mas um passo estratégico para ampliar o acesso a capital, diversificar fontes de financiamento e, inclusive, reduzir o custo financeiro das operações.
O agro brasileiro já é reconhecido pela eficiência produtiva. O avanço agora passa pela capacidade de gestão. Em um cenário mais exigente, quem se antecipar e estruturar melhor sua operação terá mais alternativas, maior autonomia para crescer e melhores condições de negociação. O crédito existe. As alternativas também. A diferença está em quem está preparado para acessá-las.
* Henrique Galvani é sócio-fundador e CEO da Arara Seed, primeira plataforma de equity crowdfunding voltada exclusivamente para o agronegócio. Formado em Ciências Contábeis pela Universidade Paulista, Galvani atua há 14 anos no setor, com passagens pelo Grupo BLB e pela BLB Ventures. Em 2024, foi reconhecido pela Forbes como um dos talentos do agro na lista Under 30.
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