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Vamos emburrecer se confiarmos cegamente nas histórias criadas pela IA, diz Marcelo Gleiser
Uso excessivo de IA pode afetar pensamento crítico. Foto: Eli Burakian/Dartmouth College/Divulgação

Vamos emburrecer se confiarmos cegamente nas histórias criadas pela IA, diz Marcelo Gleiser

AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 27 de março de 2026

Defensor de uma ciência mais humanista, o físico é curador do São Paulo Innovation Week, evento que o Estadão vai promover em maio

Por Gonçalo Junior

O cientista Marcelo Gleiser fala com o mesmo entusiasmo sereno e comedido que se percebe em seus livros. Autor de obras sobre as fronteiras entre ciência, filosofia e espiritualidade, o pesquisador retoma a metáfora de A Ilha do Conhecimento para explicar por que, na história humana, cada avanço tecnológico sempre nos empurra para novas incertezas.

“É da inovação dessas tecnologias que vêm os avanços da ciência.”

Mas, diferentemente de instrumentos que transformaram a forma como vemos o mundo, como o telescópio que permitiu a Galileu Galilei enxergar montanhas na Lua, a inteligência artificial inaugura outro tipo de revolução.

Ao mesmo tempo em que se torna indispensável para categorização, análise e eficiência, a IA levanta dúvidas sobre dependência cognitiva — o famoso “emburrecimento” — e perda da capacidade humana de formular narrativas próprias.

O pensador defende que a inovação precisa ser compreendida como parte de um ecossistema maior que ele chama de “quarteto existencial”, formado pela ciência, filosofia, espiritualidade e as artes. “Se a gente não se apoiar bem nesses quatro pilares, a cadeira fica capenga e cai”, compara.

Gleiser é um dos curadores do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival com foco em inovação, tecnologia e negócios que o Estadão vai promover em maio em São Paulo, em parceria com a Base Eventos. A previsão é de que a nova conferência atraia 90 mil visitantes, com programação com palestras de grandes nomes internacionais e brasileiros, debates, espaços para troca de conhecimento e palcos com performances e atrações musicais.

O evento terá formato similar ao da Rio Innovation Week e vai ocupar espaços simbólicos da cidade: a Mercado Livre Arena Pacaembu e a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Os ingressos já estão à venda (compras aqui). Assinantes do Estadão têm desconto aqui.

Em seu livro A Ilha do Conhecimento, o senhor diz que, quanto maior nosso conhecimento, maior é o “oceano do desconhecido”. Como essa visão se relaciona com a inovação?

Parece ser um paradoxo do conhecimento. Se você olha para a história da ciência, quando aprendemos coisas novas, surgem novas perguntas que antes a gente nem podia ter antecipado. Um exemplo clássico disso é a invenção do telescópio, na Holanda no início de 1600. Um deles caiu nas mãos do Galileu (Galilei). E, até aquele momento, ninguém tinha tido a ideia de usar esse instrumento para mapear os céus. Quando Galileu apontou um telescópio para os céus, ele viu coisas que ninguém tinha visto antes, com as crateras e montanhas da Lua.

O instrumento que ampliou a nossa visão da realidade levou a perguntas que antes não poderíamos ter antecipado. Isso vai se repetindo ao longo da história da ciência.

À medida que isso acontece, você amplia o seu leque de conhecimento, mas também esse novo conhecimento leva a novas perguntas. E esse contexto é importante para a inovação. É da inovação dessas tecnologias que vêm os avanços da ciência.

A IA abre um leque gigantesco de novas perguntas. Como ela se relaciona com esse avanço do conhecimento?

A diferença é que a inteligência artificial não é um amplificador de realidade no mesmo sentido que um telescópio ou um microscópio. É uma ferramenta de conhecimento. Ela não inventa nada de novo. O que ela faz é usar os dados que a gente tem.

Você tem um megatelescópio novo que descobriu um monte de novas galáxias. Você coloca isso na inteligência artificial e ela vai ajudar você a categorizar a forma dessas galáxias, a composição química, a rotação delas. Ela é um instrumento ultraútil na pesquisa, uma espécie de megamáquina de calcular. Mas ela não está dando a possibilidade de apontar outro tipo de corpo celeste que a gente não tinha visto ainda.

Quando diz que a IA não abre a nossa visão de mundo, há uma certa crítica?

Tem de fazer uma distinção. Existe a inteligência artificial que já estamos usando, tipo o ChatGPT e todos esses chatbots. Ela é extremamente útil. Eu uso, todo mundo usa. Você tem acesso a uma informação muito rápida. Mas você não pode se fiar completamente, cegamente, na inteligência artificial. Você tem de checar de onde estão vindo essas afirmações.

O que me incomoda são as afirmações que dizem que a inteligência artificial vai superar a inteligência humana. Ela não é uma inteligência. É uma máquina que usa cálculo estatístico para fazer análise de dados. É uma espécie de apoio ao pensamento humano. Ela não tem consciência de que ela existe.

O perigo não é a inteligência artificial, mas como as pessoas, os humanos, vão usá-la. Como toda tecnologia, ela pode ser usada para o bem ou para o mal. Você pode usá-la para tentar encontrar a cura do câncer de pâncreas ou para bloquear o computador que controla os semáforos de São Paulo.

A IA vai limitar o avanço da nossa inteligência? Vai nos deixar mais burros?

A inteligência artificial vai nos tornar mais eficientes. Isso já está acontecendo. Acabei de voltar da China e de Singapura. Lá, a inovação com inteligência artificial explodiu. Está em tudo quanto é lugar.

Quando usa o chatbot, ela não está mais construindo uma resposta, pegando os dados necessários para construir uma narrativa. Isso vai levar a uma perda na capacidade de contar histórias. E isso é um problema sério para a humanidade. Somos animais que contam histórias.

Se nos fiarmos nessas máquinas para criar essas histórias com dados que a gente nem conhece, a gente vai dar uma emburrecida sim. Vejo ensaios que alunos escreveram para mim na mão, ali na marra, e os outros que os alunos usaram o chatbot. A diferença é enorme e clara.

Sem computador, as notas caíram 20%, mas eles aprenderam mais. Aprendizado é ativo, não passivo. Se deixar a máquina fazer a atividade, você não vai aprender nada. É um perigo sério.

A IA já está roubando espaço dos seres humanos na educação, na ciência, nas interações sociais?

Com certeza. Isso a gente está vendo em todas as partes. Tenho um amigo, empreendedor, investidor-anjo, que contou com orgulho que tinha despedido 24 pessoas porque o trabalho pode ser feito por uma inteligência artificial que não fica doente, não tira férias, não fica grávida.

Essas são ferramentas de aumentar a eficiência do trabalho humano. O problema é quando você fala que não vai mais precisar do advogado, médico, professor. Daí você desumaniza o mundo. A inteligência humana é mais do que qualquer coisa, é uma inteligência relacional, de troca entre pessoas.

Como ciência, filosofia e espiritualidade podem ser inovadoras?

Existe um quarteto aqui: a ciência, a filosofia, a espiritualidade e as artes. Essas quatro coisas formam o que eu chamo do “quarteto existencial humano”. Nós precisamos da interconexão das quatro pernas dessa cadeira onde nossa existência se senta todos os dias. E ter uma perna a menos significa que você fica com a cadeira meio capenga e você pode cair dela.

Se você insiste na ideia de que a ciência é capaz de responder todas as questões humanas, cai no materialismo que certamente vai falhar. A ciência não responde todas as perguntas humanas.

Como fazer com que a inovação seja mais inclusiva?

Toda criança nasce cientista. Não interessa de onde você vem. Mas ela vai precisar de laboratórios cada vez melhores para continuar fazendo as experiências. O que você tem para fazer? Ampliar o acesso. Não é só o governo federal e estadual, mas incentivar a filantropia em direção à educação. A gente tem a Lei Rouanet, que fala da filantropia para as artes. Por que não a filantropia para a educação?

Serviço

São Paulo Innovation Week
Local: Mercado Livre Arena Pacaembu e na Faap
Dias: 13, 14 e 15 de maio
Ingressos: Compre aqui
Assinantes Estadão: Desconto aqui
Mais informações: saopauloinnovationweek.com.br

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