Centenário João Gurgel: pioneirismo brasileiro nos veículos elétricos
AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Conteúdo de responsabilidade da empresa 25 de março de 2026
O engenheiro desenvolveu, nos anos 1970, o primeiro carro elétrico da América Latina e antecipou uma tendência que hoje ganha escala na indústria automotiva
João Augusto Gurgel (1926 – 2009) ainda parece um personagem deslocado no tempo. Na década de 1970, quando o setor automobilístico brasileiro era dependente de multinacionais e motores a combustão, o engenheiro paulista decidiu produzir um carro elétrico nacional, antecipando uma tendência que só viria a se desenvolver e ganhar escala industrial poucos anos antes do seu centenário, celebrado neste 26 de março de 2026.
Foi fundador da Gurgel Motores, montadora de capital nacional que, ao longo de pouco mais de duas décadas, produziu mais de 40 mil veículos e chegou a exportar parte significativa de sua produção. À frente da empresa, desenvolveu o primeiro carro elétrico da América Latina, o Itaipu, lançado em 1974, e batizado em homenagem a então recém-inaugurada maior hidrelétrica do mundo. O veículo podia ser recarregado em tomadas de 220v.
Início no setor automobilístico
Nascido em 26 de março de 1926, em Franca, no interior de São Paulo, Gurgel formou-se engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e, desde cedo, demonstrava interesse pela indústria automobilística. Ainda na graduação, apresentou como trabalho de conclusão um protótipo de veículo de dois cilindros, batizado de Tião, contrariando a proposta original do curso. À época, ouviu de um professor que “carro não se fabrica, se compra”, ideia que guiaria, em sentido oposto, sua trajetória profissional.
O projeto se materializou em 1969, ano de criação da empresa. O primeiro modelo da empresa, o Ipanema, era um buggy de linha simples, construído com chassi, motor e suspensão de veículos da Volkswagen. Nos anos seguintes, a montadora passou a desenvolver carros próprios, com destaque para o Xavante, lançado em 1973, que consolidou o uso de carroceria em fibra de vidro, solução que se tornaria uma das marcas principais da empresa.
Os modelos utilitários tiveram boa aceitação institucional. Parte da produção foi adquirida pelas Forças Armadas brasileiras, e cerca de 25% dos veículos chegaram a ser exportados para outros países, utilizados para transporte urbano, turismo e operações em terrenos adversos.

Desenvolvimento do Itaipu
Foi nesse contexto que, em 1974, Gurgel apresentou o Itaipu, um veículo elétrico compacto, com capacidade para dois ocupantes e sistema de recarga em tomadas convencionais. Apesar do caráter pioneiro, o projeto enfrentou limitações técnicas, especialmente relacionadas ao custo das baterias e à autonomia reduzida, fatores que impediram sua consolidação comercial.
Ao longo de sua trajetória, o engenheiro também buscou afirmar uma identidade nacional para seus produtos, adotando nomes de origem indígena, como Ipanema, Xavante, Tocantins e Carajás. A proposta era parte do objetivo de formar uma indústria automotiva brasileira independente.
Encerramento e legado
A partir do início dos anos 1990, a empresa passou a enfrentar dificuldades financeiras. Após atingir seu recorde de vendas em 1991, com 3.746 unidades comercializadas, a produção foi impactada por entraves na importação de componentes, o que contribuiu para a queda nas vendas no ano seguinte. Em 1993, endividada, a Gurgel Motores encerrou suas atividades, após não concretizar negociações de apoio com governos estaduais e com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
João Gurgel morreu em 2009, aos 83 anos, após complicações decorrentes do Mal de Alzheimer. Três décadas após o lançamento do Itaipu, os veículos elétricos passaram a ocupar espaço central na agenda da indústria automotiva global. No ano em que completaria 100 anos, sua trajetória se insere como um dos primeiros esforços de desenvolvimento dessa tecnologia no país, ainda que, à época, distante das condições necessárias para sua consolidação em larga escala.
Atualmente, no Brasil, a frota de carros elétricos tem crescido ano após ano. Com base em dados da Secretaria Nacional de Trânsito ( Senatran ), um levantamento da empresa NeoCharge aponta crescimento de 63,86% na frota de veículos eletrificados em circulação no Brasil. O estudo considera automóveis elétricos e híbridos de diferentes categorias.
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