{"id":143295,"date":"2026-10-21T15:55:00","date_gmt":"2026-10-21T18:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/neurogenetica-e-terapias-genicas-avancos-cientificos-com-dignidade-humana\/"},"modified":"2026-10-21T15:55:00","modified_gmt":"2026-10-21T18:55:00","slug":"neurogenetica-e-terapias-genicas-avancos-cientificos-com-dignidade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/neurogenetica-e-terapias-genicas-avancos-cientificos-com-dignidade-humana\/","title":{"rendered":"Neurogen\u00e9tica e terapias g\u00eanicas: avan\u00e7os cient\u00edficos com dignidade humana"},"content":{"rendered":"<p>Para Acary S. B. Oliveira, a jornada que conecta os experimentos com ervilhas no s\u00e9culo XIX \u00e0 neurogen\u00e9tica atual representa um dos saltos cient\u00edficos mais impressionantes da humanidade. &#8220;O que come\u00e7ou com regras matem\u00e1ticas sobre a cor de sementes transformou-se em uma ci\u00eancia capaz de ler, editar e tratar os mecanismos moleculares mais complexos do sistema nervoso.&#8221;<\/p>\n<p>Respons\u00e1vel pelos jardins do Mosteiro da Ordem de Santo Agostinho (atual Mosteiro de Brno, na Rep\u00fablica Tcheca), em 1843, Gregor Johann Mendel (1822-1884) estabeleceu os fundamentos da hereditariedade ao cruzar plantas de Pisum sativum. Mesmo sem conhecer os cromossomos ou o DNA, Mendel deduziu que as caracter\u00edsticas eram transmitidas por unidades discretas (hoje chamadas de genes), que se segregavam independentemente. Suas leis definiram os fundamentos do que conhecemos por heran\u00e7a autoss\u00f4mica dominante e recessiva, os pilares iniciais para entender como doen\u00e7as gen\u00e9ticas passam de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, aponta Acary S. B. Oliveira.<\/p>\n<p>Para Wladimir Bocca, a engenharia gen\u00e9tica se transformou ao longo do s\u00e9culo passado ao decifrar a estrutura f\u00edsica por tr\u00e1s dos &#8220;fatores&#8221; mendelianos. Watson, Crick, Franklin e Wilkins (1953) contribu\u00edram para a descoberta da estrutura do DNA, abrindo caminho para entender como o c\u00f3digo da vida \u00e9 copiado. Compreendeu-se que a informa\u00e7\u00e3o do DNA \u00e9 transcrita em RNA e traduzida em prote\u00ednas, componentes fundamentais para a biologia celular, incluindo a dos neur\u00f4nios. O Projeto Genoma Humano, conclu\u00eddo em 2003, mapeou o genoma da nossa esp\u00e9cie, que cont\u00e9m cerca de 20 mil genes. Descobriu-se que mais de um ter\u00e7o dos genes humanos apresenta express\u00e3o no sistema nervoso, revelando a imensa complexidade necess\u00e1ria para construir a mente e as conex\u00f5es cerebrais.<\/p>\n<p>Segundo Marco Orsini, a neurogen\u00e9tica contempor\u00e2nea est\u00e1 abrindo caminhos antes inimagin\u00e1veis para o diagn\u00f3stico e o tratamento de doen\u00e7as neurol\u00f3gicas. Os oligonucleot\u00eddeos antissenso, as estrat\u00e9gias de silenciamento g\u00eanico e outras tecnologias moleculares permitem, em determinadas doen\u00e7as, interferir diretamente em mecanismos biol\u00f3gicos respons\u00e1veis pelo processo patol\u00f3gico. Para muitos pacientes e familiares, essas descobertas representam a possibilidade concreta de modificar a evolu\u00e7\u00e3o de enfermidades que, at\u00e9 recentemente, dispunham de op\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas muito limitadas.<\/p>\n<p>Miguel Mitne ressalta, entretanto, que \u00e9 fundamental compreender uma distin\u00e7\u00e3o: identificar uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica n\u00e3o significa, automaticamente, explicar integralmente a doen\u00e7a de uma pessoa; tampouco significa que exista uma terapia eficaz, segura e indicada para aquele caso. Entre a identifica\u00e7\u00e3o de uma variante no DNA e a decis\u00e3o de tratar, existe um percurso cient\u00edfico complexo, que envolve demonstrar sua relev\u00e2ncia cl\u00ednica, compreender seu mecanismo de a\u00e7\u00e3o, estabelecer a correspond\u00eancia com as manifesta\u00e7\u00f5es do paciente e avaliar criticamente as evid\u00eancias de benef\u00edcio terap\u00eautico.<\/p>\n<p>Para Acary e Orsini, \u00e9 justamente nesse ponto que a medicina precisa preservar um de seus fundamentos mais importantes: a capacidade de ouvir, examinar e interpretar o paciente. A hist\u00f3ria cl\u00ednica e o exame neurol\u00f3gico n\u00e3o s\u00e3o etapas antigas de uma medicina que ser\u00e1 substitu\u00edda pela gen\u00e9tica. S\u00e3o instrumentos essenciais para compreender se o resultado molecular realmente corresponde \u00e0 doen\u00e7a investigada, identificar caracter\u00edsticas que eventualmente n\u00e3o sejam explicadas por ele e determinar quais exames e interven\u00e7\u00f5es fazem sentido em cada situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O avan\u00e7o tecnol\u00f3gico n\u00e3o diminui a necessidade de um m\u00e9dico bem formado; aumenta sua responsabilidade. Um resultado laboratorial pode oferecer informa\u00e7\u00f5es extraordinariamente precisas sobre uma altera\u00e7\u00e3o molecular, mas n\u00e3o interpreta sozinho a totalidade de uma hist\u00f3ria cl\u00ednica. Da mesma forma, a exist\u00eancia de uma terapia direcionada a determinado gene n\u00e3o dispensa a avalia\u00e7\u00e3o de sua indica\u00e7\u00e3o, de seus riscos, de seus benef\u00edcios comprovados e do momento apropriado para sua utiliza\u00e7\u00e3o&#8221;, afirmam Bocca e Orsini.<\/p>\n<p>Segundo Acary, para os pacientes e seus familiares, essa compreens\u00e3o \u00e9 particularmente importante. O acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica deve ampliar a capacidade de participar das decis\u00f5es m\u00e9dicas, n\u00e3o criar a falsa expectativa de que todo diagn\u00f3stico molecular conduz a uma solu\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. A medicina de precis\u00e3o exige precis\u00e3o tamb\u00e9m na comunica\u00e7\u00e3o: explicar o que j\u00e1 sabemos, o que ainda n\u00e3o conseguimos demonstrar e quais s\u00e3o as possibilidades reais para cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Miguel Mitne e Wladimir Bocca destacam que o grande desafio das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas ser\u00e1 integrar a extraordin\u00e1ria capacidade da biologia molecular \u00e0 profundidade do racioc\u00ednio cl\u00ednico. &#8220;A excel\u00eancia m\u00e9dica n\u00e3o ser\u00e1 definida apenas pela capacidade de identificar variantes ou reconhecer terapias potencialmente correspondentes, mas pela compet\u00eancia de estabelecer rela\u00e7\u00f5es causais, interpretar evid\u00eancias, reconhecer incertezas e tomar decis\u00f5es individualizadas&#8221;, afirmam os pesquisadores, em consenso.<\/p>\n<p>Segundo Orsini e Acary, a tecnologia poder\u00e1 revelar mecanismos antes inacess\u00edveis e oferecer instrumentos para modificar a hist\u00f3ria natural de determinadas doen\u00e7as. Mas transformar uma descoberta molecular em benef\u00edcio real para o paciente continuar\u00e1 exigindo ci\u00eancia, julgamento cl\u00ednico e responsabilidade m\u00e9dica.<\/p>\n<p>&#8220;O futuro da medicina n\u00e3o est\u00e1 na escolha entre gen\u00e9tica e cl\u00ednica. Est\u00e1 na integra\u00e7\u00e3o das duas. Quanto mais sofisticados forem os recursos tecnol\u00f3gicos, mais indispens\u00e1vel ser\u00e1 o m\u00e9dico capaz de compreender n\u00e3o apenas o resultado de um exame, mas a pessoa, a doen\u00e7a e o contexto biol\u00f3gico aos quais esse resultado se refere&#8221;, afirma Marco Orsini.<\/p>\n<p>Mendel decifrou o &#8220;alfabeto&#8221; da hereditariedade. A neurogen\u00e9tica atual utiliza esse alfabeto para ler, interpretar e editar as &#8220;frases&#8221; que ditam o funcionamento da nossa mente e do nosso comportamento. E, no futuro, a medicina dever\u00e1 estar atrelada \u00e0 tecnologia, \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 excel\u00eancia cl\u00ednica, com \u00e9tica, dignidade e honra, qualidades ainda n\u00e3o decifradas pela gen\u00e9tica, finaliza Acary Bulle.<\/p>\n<p>A <b>OESP<\/b> n\u00e3o \u00e9(s\u00e3o) respons\u00e1vel(is) por erros, incorre\u00e7\u00f5es, atrasos ou quaisquer decis\u00f5es tomadas por seus clientes com base nos Conte\u00fados ora disponibilizados, bem como tais Conte\u00fados n\u00e3o representam a opini\u00e3o da <b>OESP<\/b> e s\u00e3o de inteira responsabilidade da <b>PulseBrand<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para Acary S. B. 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