{"id":142042,"date":"2026-10-09T12:40:00","date_gmt":"2026-10-09T15:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/alem-da-cura-medicina-mente-e-dignidade-diante-da-doenca\/"},"modified":"2026-10-09T12:40:00","modified_gmt":"2026-10-09T15:40:00","slug":"alem-da-cura-medicina-mente-e-dignidade-diante-da-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/alem-da-cura-medicina-mente-e-dignidade-diante-da-doenca\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m da cura: medicina, mente e dignidade diante da doen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>O m\u00e9dico Acary Bulle de Oliveira cita a F\u00e1bula de Higino, atribu\u00edda ao escritor latino Caio J\u00falio Higino, como uma narrativa simb\u00f3lica sobre a origem do ser humano. Cuidado, cansado da monotonia de n\u00e3o fazer nada naquele lugar chamado para\u00edso, tomou barro, lama e terra e deu forma a uma criatura. Ao admirar sua obra, recebeu a visita de J\u00fapiter, o deus criador, que identificou algo que faltava. Inspirado, insuflou nas narinas da criatura o h\u00e1lito do esp\u00edrito, transformando o barro em vida. Surgiu, ent\u00e3o, um impasse sobre quem teria o direito de nome\u00e1-la. Cuidado reivindicava a cria\u00e7\u00e3o, J\u00fapiter exigia que ela recebesse seu nome, e Gaia, deusa da Terra, lembrava que a mat\u00e9ria original vinha dela.<\/p>\n<p>Na narrativa, Cr\u00f4nus, o deus do tempo, foi chamado para resolver a disputa. Decidiu que, ap\u00f3s a morte, o corpo retornaria a Gaia, de onde viera, enquanto o esp\u00edrito voltaria a J\u00fapiter. Cuidado, por sua vez, teria a responsabilidade de acompanhar a criatura durante toda a sua exist\u00eancia. Feita do h\u00famus, a parte mais rica da Terra, ela receberia o nome de humano. A f\u00e1bula oferece uma reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana: cuidar e permitir-se ser cuidado, com humildade, s\u00e3o dimens\u00f5es insepar\u00e1veis da exist\u00eancia. Cuidar \u00e9 um ato de amor, capaz de reconhecer o outro e acolher sua vulnerabilidade. Na sa\u00fade, essa compreens\u00e3o ultrapassa a dimens\u00e3o t\u00e9cnica e reafirma o cuidado como ess\u00eancia da pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Segundo Fabr\u00edcio Diniz de Lima, neurologista, o conceito de sa\u00fade formulado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), em 1948, define como &#8220;um estado de completo bem-estar f\u00edsico, mental e social, e n\u00e3o apenas a aus\u00eancia de doen\u00e7a ou enfermidade&#8221;. Essa compreens\u00e3o foi ampliada a partir da 8\u00aa Confer\u00eancia Nacional de Sa\u00fade, em 1986, quando se consolidou o entendimento de que a sa\u00fade n\u00e3o \u00e9 um estado abstrato ou exclusivamente individual, mas tamb\u00e9m resulta das condi\u00e7\u00f5es de vida e da organiza\u00e7\u00e3o social. A perspectiva amplia a responsabilidade da medicina, que precisa considerar n\u00e3o apenas a enfermidade, mas as circunst\u00e2ncias em que cada pessoa vive e enfrenta o adoecimento.<\/p>\n<p>Para Marco Orsini, neurologista e coordenador do Centro de Estudos do Niter\u00f3i D&#8217;Or, o equil\u00edbrio mental \u00e9 parte insepar\u00e1vel de toda e qualquer doen\u00e7a org\u00e2nica. O corpo adoece, mas n\u00e3o adoece sozinho. Quando uma enfermidade atravessa o organismo, tamb\u00e9m atravessa a hist\u00f3ria, os afetos, os projetos e a percep\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo possui de si mesmo. A doen\u00e7a modifica o corpo, mas tamb\u00e9m transforma a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com o tempo, com os outros e com sua pr\u00f3pria finitude. Talvez a medicina contempor\u00e2nea esteja finalmente compreendendo aquilo que a filosofia e a psican\u00e1lise j\u00e1 intu\u00edram h\u00e1 muito tempo: n\u00e3o existe \u00f3rg\u00e3o isolado de uma pessoa, assim como n\u00e3o existe pessoa completamente separada de seu corpo.<\/p>\n<p>Wladimir Bocca observa que a medicina atual alcan\u00e7ou uma capacidade extraordin\u00e1ria de diagnosticar, monitorar e tratar doen\u00e7as. Gen\u00f4mica, intelig\u00eancia artificial, neuroimagem, imunoterapia, terapias-alvo, medicina de precis\u00e3o e biomarcadores transformaram radicalmente a capacidade de intervir sobre processos antes considerados inevit\u00e1veis. Entretanto, quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, mais evidente fica uma quest\u00e3o fundamental: tratar mecanismos biol\u00f3gicos n\u00e3o significa necessariamente cuidar de toda a experi\u00eancia humana de adoecer. O avan\u00e7o cient\u00edfico amplia as possibilidades terap\u00eauticas, mas tamb\u00e9m exige uma reflex\u00e3o sobre a maneira como a pessoa \u00e9 acolhida durante o tratamento.<\/p>\n<p>Acary Bulle de Oliveira e Marco Orsini destacam que a pr\u00f3pria neuroci\u00eancia contempor\u00e2nea demonstra como c\u00e9rebro, corpo e ambiente mant\u00eam uma comunica\u00e7\u00e3o permanente. Estresse, sono, dor, atividade f\u00edsica, rela\u00e7\u00f5es sociais, percep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a e estados emocionais influenciam circuitos neuroend\u00f3crinos, auton\u00f4micos e imunol\u00f3gicos. Isso n\u00e3o significa que pensamentos sejam capazes de simplesmente curar c\u00e2ncer, doen\u00e7as neurodegenerativas ou insufici\u00eancias org\u00e2nicas. Significa algo mais s\u00e9rio: a experi\u00eancia subjetiva participa da maneira como o organismo responde, adapta-se e convive com a doen\u00e7a. Reconhecer essa intera\u00e7\u00e3o n\u00e3o substitui o tratamento m\u00e9dico; amplia a compreens\u00e3o sobre as necessidades de cada paciente.<\/p>\n<p>Acary tamb\u00e9m recorre \u00e0 psican\u00e1lise para compreender as dimens\u00f5es do sofrimento que nem sempre s\u00e3o percebidas conscientemente. Sigmund Freud j\u00e1 havia identificado a participa\u00e7\u00e3o do inconsciente nos medos, desejos, conflitos e mecanismos de enfrentamento. Diante de uma doen\u00e7a grave, o diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 apenas uma informa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica: ele passa a integrar a narrativa do sujeito. O paciente pode deixar de dizer &#8220;eu tenho uma doen\u00e7a&#8221; e come\u00e7ar a pensar &#8220;eu sou a doen\u00e7a&#8221;. Uma das tarefas da medicina humanizada \u00e9 impedir que o diagn\u00f3stico colonize completamente a identidade, preservando a hist\u00f3ria, os v\u00ednculos e as possibilidades de exist\u00eancia que continuam presentes apesar da enfermidade.<\/p>\n<p>Orsini encontra em Friedrich Nietzsche uma reflex\u00e3o sobre o que fazemos com aquilo que a vida nos imp\u00f5e. N\u00e3o se trata de glorificar o sofrimento nem de afirmar que toda adversidade produz crescimento. Algumas doen\u00e7as s\u00e3o injustas, algumas dores parecem absurdas e algumas perdas n\u00e3o possuem explica\u00e7\u00e3o. Ainda assim, permanece a possibilidade de construir uma rela\u00e7\u00e3o diferente com aquilo que n\u00e3o escolhemos. A doen\u00e7a pode limitar o corpo sem necessariamente ocupar todos os espa\u00e7os da exist\u00eancia. Essa perspectiva n\u00e3o nega a gravidade do adoecimento, mas reconhece que a pessoa continua sendo muito mais do que aquilo que lhe acontece.<\/p>\n<p>Orsini e Acary aproximam essa discuss\u00e3o do pensamento de S\u00f8ren Kierkegaard, para quem a ang\u00fastia est\u00e1 profundamente ligada \u00e0 possibilidade e \u00e0 liberdade. Um diagn\u00f3stico grave frequentemente devolve o indiv\u00edduo a essa condi\u00e7\u00e3o. O futuro, que antes parecia uma continuidade quase autom\u00e1tica, torna-se incerto. A pessoa passa a perguntar quanto tempo tem, o que poder\u00e1 fazer, quem permanecer\u00e1 ao seu lado e o que ainda poder\u00e1 realizar. A medicina consegue responder a algumas dessas perguntas por meio da ci\u00eancia e da experi\u00eancia cl\u00ednica; outras pertencem \u00e0 filosofia da exist\u00eancia e \u00e0 maneira singular como cada indiv\u00edduo enfrenta a incerteza.<\/p>\n<p>Fabr\u00edcio Diniz de Lima encontra em Baruch Spinoza uma contribui\u00e7\u00e3o igualmente atual. Ao pensar corpo e mente como dimens\u00f5es de uma mesma realidade, o fil\u00f3sofo oferece uma perspectiva que dialoga com a integra\u00e7\u00e3o biopsicossocial adotada pela medicina contempor\u00e2nea. O organismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma soma de \u00f3rg\u00e3os, mas um sistema din\u00e2mico, atravessado por experi\u00eancias, rela\u00e7\u00f5es, h\u00e1bitos, emo\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias ambientais. Essa compreens\u00e3o refor\u00e7a a import\u00e2ncia de avaliar o paciente de maneira integral, sem reduzir sua condi\u00e7\u00e3o a exames, sintomas ou altera\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Segundo Orsini, Maurice Merleau-Ponty radicaliza essa percep\u00e7\u00e3o ao afirmar que n\u00e3o simplesmente possu\u00edmos um corpo: somos corpo. \u00c9 atrav\u00e9s dele que tocamos o mundo, percebemos o outro, trabalhamos, amamos e constru\u00edmos nossa identidade. Por isso, uma doen\u00e7a n\u00e3o representa apenas uma altera\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica ou fisiol\u00f3gica. Ela pode modificar a maneira como o indiv\u00edduo habita o pr\u00f3prio mundo, realiza atividades cotidianas e se reconhece diante das pessoas que fazem parte de sua hist\u00f3ria. Cuidar, nesse contexto, tamb\u00e9m significa compreender o impacto da enfermidade sobre a experi\u00eancia de existir.<\/p>\n<p>Acary ressalta que a psican\u00e1lise contempor\u00e2nea ajuda a compreender por que a escuta integra o tratamento. Donald Winnicott enfatizou a import\u00e2ncia de um ambiente suficientemente seguro; Wilfred Bion, a necessidade de transformar experi\u00eancias emocionais dif\u00edceis em algo que possa ser pensado; e S\u00e1ndor Ferenczi, a relev\u00e2ncia de uma escuta sens\u00edvel diante do trauma. A medicina moderna disp\u00f5e de aparelhos cada vez mais sofisticados para enxergar o corpo, mas nenhuma tecnologia substitui completamente a capacidade de escutar uma pessoa. O acolhimento n\u00e3o \u00e9 um adorno da assist\u00eancia: \u00e9 parte da rela\u00e7\u00e3o que permite ao paciente expressar medos, d\u00favidas e necessidades.<\/p>\n<p>Wladimir Bocca e Marco Orsini acrescentam que a neuroci\u00eancia oferece outra dimens\u00e3o importante para essa discuss\u00e3o: a plasticidade cerebral. Experi\u00eancias, aprendizagem, exerc\u00edcio f\u00edsico, sono, rela\u00e7\u00f5es sociais e reabilita\u00e7\u00e3o podem modificar circuitos neurais ao longo da vida. Essa plasticidade n\u00e3o representa uma promessa de cura universal, mas demonstra que o sistema nervoso possui capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. Em doen\u00e7as neurol\u00f3gicas e psiqui\u00e1tricas, assim como nos processos de reabilita\u00e7\u00e3o, essa caracter\u00edstica se tornou um dos fundamentos da medicina contempor\u00e2nea, favorecendo estrat\u00e9gias individualizadas e objetivos terap\u00eauticos compat\u00edveis com as condi\u00e7\u00f5es de cada paciente.<\/p>\n<p>Acary e Fabr\u00edcio destacam que o exerc\u00edcio f\u00edsico deixou de ser compreendido apenas como uma recomenda\u00e7\u00e3o para melhorar m\u00fasculos e condicionamento cardiovascular. Hoje, \u00e9 reconhecido como uma interven\u00e7\u00e3o capaz de influenciar cogni\u00e7\u00e3o, humor, sono, metabolismo e plasticidade cerebral. Da mesma maneira, a qualidade do sono, a redu\u00e7\u00e3o do isolamento social e o tratamento adequado de transtornos depressivos e ansiosos passaram a integrar estrat\u00e9gias de cuidado de diversas doen\u00e7as cr\u00f4nicas. A medicina n\u00e3o afirma que a mente substitui o tratamento biol\u00f3gico; reconhece que o ser humano responde ao tratamento como um todo e que diferentes dimens\u00f5es da sa\u00fade precisam ser consideradas.<\/p>\n<p>Orsini e Acary encontram em Hannah Arendt uma reflex\u00e3o sobre a capacidade humana de iniciar algo novo. Mesmo diante de uma doen\u00e7a, a exist\u00eancia n\u00e3o precisa ficar completamente aprisionada ao passado. Um novo tratamento, uma rotina adaptada, uma rela\u00e7\u00e3o reconstru\u00edda ou uma nova maneira de viver o presente podem representar formas de recome\u00e7o. A esperan\u00e7a, nesse sentido, n\u00e3o precisa significar exclusivamente a expectativa de cura. Pode ser a possibilidade de encontrar significado, preservar v\u00ednculos e construir experi\u00eancias que continuem fazendo sentido, mesmo quando a realidade imp\u00f5e limites dif\u00edceis de superar.<\/p>\n<p>Acary aproxima essa reflex\u00e3o de Albert Camus e de sua abordagem do absurdo. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que perguntar &#8220;por qu\u00ea?&#8221; n\u00e3o produz resposta. A doen\u00e7a grave pode ser uma dessas experi\u00eancias. A medicina consegue explicar mecanismos, estat\u00edsticas, progn\u00f3sticos e possibilidades terap\u00eauticas, mas nem sempre pode responder por que determinada pessoa foi atingida. Reconhecer essa fronteira n\u00e3o representa uma derrota da ci\u00eancia. Significa compreender que o conhecimento m\u00e9dico pode explicar muito sobre a enfermidade sem esgotar o significado do sofrimento para quem adoece.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que os autores situam os cuidados paliativos e a medicina centrada na pessoa. Quando a cura deixa de ser poss\u00edvel, o cuidado n\u00e3o termina. Controle da dor, tratamento de sintomas, apoio psicol\u00f3gico, comunica\u00e7\u00e3o honesta, participa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, autonomia e decis\u00f5es compartilhadas tornam-se partes centrais da assist\u00eancia. Curar e cuidar s\u00e3o verbos diferentes. Compreender essa diferen\u00e7a n\u00e3o diminui a medicina; ao contr\u00e1rio, revela sua maturidade e sua capacidade de reconhecer que a dignidade do paciente n\u00e3o depende da possibilidade de eliminar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Acary recorre a Viktor Frankl para estabelecer uma ponte entre medicina e filosofia. O psiquiatra e neurologista austr\u00edaco refletiu sobre a possibilidade de o ser humano continuar procurando significado mesmo diante de circunst\u00e2ncias que n\u00e3o consegue modificar. Isso n\u00e3o significa romantizar o sofrimento, responsabilizar o paciente por sua doen\u00e7a ou transformar a esperan\u00e7a em obriga\u00e7\u00e3o. Significa reconhecer que, mesmo quando a medicina n\u00e3o consegue alterar o curso biol\u00f3gico de uma enfermidade, ainda pode ajudar a preservar algo fundamental: a dignidade de quem vive essa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Orsini e Wladimir Bocca prop\u00f5em, diante de uma doen\u00e7a terminal, uma mudan\u00e7a de perspectiva. A pergunta mais profunda talvez n\u00e3o seja apenas &#8220;quanto tempo ainda podemos acrescentar \u00e0 vida?&#8221;, mas tamb\u00e9m &#8220;quanta vida podemos acrescentar ao tempo?&#8221;. Essa mudan\u00e7a transforma o conceito de cuidado. Um dia sem dor, uma conversa com um filho, a presen\u00e7a de quem se ama, uma reconcilia\u00e7\u00e3o, uma m\u00fasica, um amanhecer ou simplesmente a possibilidade de decidir sobre o pr\u00f3prio cotidiano podem adquirir um valor que nenhum marcador laboratorial consegue medir. A qualidade de vida, nesse cen\u00e1rio, deixa de ser uma express\u00e3o abstrata e passa a representar necessidades, escolhas e experi\u00eancias concretas.<\/p>\n<p>No limite, a grande conquista da medicina contempor\u00e2nea talvez n\u00e3o seja apenas conseguir prolongar a vida, mas aprender a cuidar melhor daquilo que a torna humana. A tecnologia continuar\u00e1 avan\u00e7ando, os diagn\u00f3sticos ser\u00e3o cada vez mais precisos e os tratamentos, cada vez mais personalizados. Mas nenhuma intelig\u00eancia artificial substituir\u00e1 completamente a presen\u00e7a; nenhum biomarcador medir\u00e1 integralmente o significado de uma vida; nenhum algoritmo compreender\u00e1 sozinho a singularidade de uma perda. A ci\u00eancia pode ampliar as possibilidades de interven\u00e7\u00e3o, mas a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dico e paciente continuar\u00e1 exigindo responsabilidade, sensibilidade e respeito \u00e0 individualidade.<\/p>\n<p>Por fim, os autores convergem para uma mesma compreens\u00e3o: o corpo pode adoecer, o c\u00e9rebro pode sofrer e a doen\u00e7a pode impor limites reais e, algumas vezes, irrevers\u00edveis. Ainda assim, a pessoa permanece maior que seu diagn\u00f3stico. Entre a biologia e a exist\u00eancia h\u00e1 um territ\u00f3rio imenso chamado humanidade. \u00c9 ali que habitam a mem\u00f3ria, o desejo, o v\u00ednculo, a esperan\u00e7a, a liberdade poss\u00edvel e a dignidade. Talvez seja exatamente nesse territ\u00f3rio que a medicina do futuro precise aprender a atuar: n\u00e3o apenas para acrescentar anos \u00e0 vida, mas para proteger a vida que existe dentro desses anos.<\/p>\n<p>Que sejamos seres humanos.<\/p>\n<p>A <b>OESP<\/b> n\u00e3o \u00e9(s\u00e3o) respons\u00e1vel(is) por erros, incorre\u00e7\u00f5es, atrasos ou quaisquer decis\u00f5es tomadas por seus clientes com base nos Conte\u00fados ora disponibilizados, bem como tais Conte\u00fados n\u00e3o representam a opini\u00e3o da <b>OESP<\/b> e s\u00e3o de inteira responsabilidade da <b>PulseBrand<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O m\u00e9dico Acary Bulle de Oliveira cita a F\u00e1bula de Higino, atribu\u00edda ao escritor latino Caio J\u00falio Higino, como uma narrativa simb\u00f3lica sobre a origem do ser humano. 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