{"id":134606,"date":"2026-07-31T16:00:00","date_gmt":"2026-07-31T19:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/saftec-digital\/danilo-pastorelli-a-educacao-socioemocional-e-tao-fundamental-quanto-matematica-e-portugues\/"},"modified":"2026-07-31T16:00:00","modified_gmt":"2026-07-31T19:00:00","slug":"danilo-pastorelli-a-educacao-socioemocional-e-tao-fundamental-quanto-matematica-e-portugues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/saftec-digital\/danilo-pastorelli-a-educacao-socioemocional-e-tao-fundamental-quanto-matematica-e-portugues\/","title":{"rendered":"Danilo Pastorelli: a educa\u00e7\u00e3o socioemocional \u00e9 t\u00e3o fundamental quanto Matem\u00e1tica e Portugu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><b>Pesquisas mostram que compet\u00eancias como autorregula\u00e7\u00e3o emocional e empatia influenciam diretamente o desempenho escolar.<\/b><\/p>\n<p>Quem se formou nos anos 1980 ou 1990 jamais ouviu falar em &#8220;educa\u00e7\u00e3o socioemocional&#8221; durante a gradua\u00e7\u00e3o. As faculdades de pedagogia e as licenciaturas estavam voltadas para o conte\u00fado disciplinar, os m\u00e9todos de ensino e a did\u00e1tica cl\u00e1ssica. Aprender a ensinar significava dominar o conte\u00fado e saber transmiti-lo. N\u00e3o que as emo\u00e7\u00f5es fossem completamente ignoradas, mas sequer havia uma linguagem, tampouco metodologia consolidada, para integr\u00e1-las ao processo de ensino e aprendizagem de forma intencional. Nos \u00faltimos anos, no entanto, esse cen\u00e1rio mudou de maneira irrevers\u00edvel. A educa\u00e7\u00e3o socioemocional deixou de ser uma pauta alternativa ou perif\u00e9rica e passou a ocupar o centro das discuss\u00f5es mais s\u00e9rias sobre aprendizagem, desenvolvimento humano e futuro do trabalho.<\/p>\n<p>Com vinte anos de experi\u00eancia formando alunos e professores na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, no ensino superior e na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, posso afirmar com convic\u00e7\u00e3o, e com respaldo cient\u00edfico robusto, que as vari\u00e1veis socioemocionais influenciam decisivamente o que acontece dentro e fora da sala de aula. A tese que defendo aqui \u00e9 direta: aprender a regular emo\u00e7\u00f5es, desenvolver empatia, cultivar a persist\u00eancia diante do erro e construir relacionamentos saud\u00e1veis s\u00e3o compet\u00eancias t\u00e3o fundamentais quanto aprender Matem\u00e1tica ou Portugu\u00eas.<\/p>\n<p><b>Emo\u00e7\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria-prima da aprendizagem<\/b><\/p>\n<p>Durante anos, os professores mais experientes apontaram para algo que a ci\u00eancia demorou a formalizar: o estado emocional do estudante n\u00e3o \u00e9 um fator secund\u00e1rio na aprendizagem, mas uma condi\u00e7\u00e3o central para ela. Em 2011, o Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning (CASEL) consolidou evid\u00eancias de que programas de aprendizagem socioemocional produzem ganhos mensur\u00e1veis n\u00e3o apenas no comportamento dos estudantes, mas tamb\u00e9m no desempenho acad\u00eamico. Em 2015, David Paunesku e colaboradores demonstraram que interven\u00e7\u00f5es breves focadas em mentalidade de crescimento produziram melhora significativa nas notas de estudantes em risco de evas\u00e3o escolar nos Estados Unidos. H\u00e1 pesquisas que apontam efic\u00e1cia tamb\u00e9m nos resultados de estudantes no modelo EAD.<\/p>\n<p>Um dos estudos mais importantes nesse campo veio do Chile, em 2016. Claro, Paunesku e Dweck investigaram como a mentalidade de crescimento atenua os efeitos da pobreza sobre o desempenho acad\u00eamico. Os resultados foram inequ\u00edvocos e mostraram que estudantes em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade socioecon\u00f4mica que apresentavam mentalidade de crescimento alcan\u00e7avam desempenho acad\u00eamico semelhante ao de estudantes de renda mais alta com mentalidade fixa. Em outras palavras, o autoconhecimento e a cren\u00e7a de que se pode aprender e melhorar funcionam como um escudo contra adversidades externas. Em 2017, Ellen, Dorn e Frank refor\u00e7aram esse quadro ao demonstrar que compet\u00eancias socioemocionais t\u00eam correla\u00e7\u00e3o direta com resultados de longo prazo, tanto educacionais quanto profissionais. Ignorar esses dados \u00e9 permanecer no s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><b>O que o SAEB n\u00e3o mede<\/b><\/p>\n<p>Enquanto as pesquisas acumulam evid\u00eancias sobre o peso das compet\u00eancias socioemocionais na aprendizagem, os sistemas de avalia\u00e7\u00e3o em larga escala permanecem majoritariamente focados em habilidades cognitivas mensur\u00e1veis por testes padronizados. O Sistema de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (SAEB) \u00e9 o principal instrumento de diagn\u00f3stico da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica brasileira, e suas m\u00e9tricas orientam pol\u00edticas, recursos e metas. Ao concentrar esfor\u00e7os quase exclusivos na melhoria dos \u00edndices de L\u00edngua Portuguesa e Matem\u00e1tica, corremos o risco de tratar o sintoma sem compreender a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que o SAEB seja um instrumento in\u00fatil, ao contr\u00e1rio. Mas \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que um estudante que enfrenta ansiedade severa, que n\u00e3o aprendeu a lidar com a frustra\u00e7\u00e3o ou que vive em ambientes emocionalmente inseguros ter\u00e1 dificuldade real em aprender qualquer conte\u00fado disciplinar, por mais competente que seja o professor ou bem estruturado o curr\u00edculo. Tratar a aprendizagem socioemocional como um extra que se encaixa quando o &#8220;conte\u00fado de verdade&#8221; j\u00e1 foi dado \u00e9 apostar num edif\u00edcio sem alicerce. Evas\u00e3o, desmotiva\u00e7\u00e3o, dificuldades de aprendizagem acumuladas n\u00e3o s\u00e3o fatalidades do acaso.<\/p>\n<p><b>Professores sabem disso e querem ferramentas para agir<\/b><\/p>\n<p>Nesses anos todos em escolas e universidades, sou testemunha de uma percep\u00e7\u00e3o que se repete: professores sentem, antes de qualquer pesquisa confirmar, que algo al\u00e9m do conte\u00fado est\u00e1 em jogo. Relatos de estudantes emocionalmente esgotados, incapazes de se concentrar ou de se relacionar positivamente com colegas, s\u00e3o recorrentes em qualquer conversa honesta nos intervalos entre uma aula e outra. A grande maioria dos docentes est\u00e1 aberta \u00e0 ideia de trabalhar compet\u00eancias socioemocionais e reconhece que, sem esse componente, faz menos pelos seus estudantes do que gostaria. O que frequentemente falta n\u00e3o \u00e9 disposi\u00e7\u00e3o, mas forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, materiais adequados e apoio institucional para que esse trabalho seja reconhecido como parte integrante do curr\u00edculo.<\/p>\n<p>\u00c9, certamente, uma mudan\u00e7a de paradigma que n\u00e3o \u00e9 apenas pedag\u00f3gica, mas tamb\u00e9m cultural. Significa reconhecer que educar vai al\u00e9m de instruir e implica formar pessoas capazes de se conhecer, de se autorregular e de construir v\u00ednculos. Essa tarefa exige que professores tamb\u00e9m sejam formados nessa dire\u00e7\u00e3o, que recebam suporte e que as institui\u00e7\u00f5es de ensino sejam ambientes onde a confian\u00e7a seja uma premissa. Os argumentos aqui convergem para uma conclus\u00e3o comum, isto \u00e9, a aprendizagem socioemocional n\u00e3o compete com a aprendizagem cognitiva, mas a torna potente.<\/p>\n<p><b>Uma aposta que j\u00e1 est\u00e1 sendo feita<\/b><\/p>\n<p>O que temos, portanto, \u00e9 um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o. A Sigma Educa\u00e7\u00e3o compreende esse movimento e tem investido consistentemente em produ\u00e7\u00f5es que levam a educa\u00e7\u00e3o socioemocional para dentro das escolas de forma intencional e qualificada. A cole\u00e7\u00e3o Eu Sinto, voltada ao desenvolvimento de compet\u00eancias socioemocionais na inf\u00e2ncia e na pr\u00e9-adolesc\u00eancia, \u00e9 uma express\u00e3o concreta desse compromisso editorial e pedag\u00f3gico. Em breve, novos t\u00edtulos chegar\u00e3o tamb\u00e9m aos estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental, uma amplia\u00e7\u00e3o que reconhece que a jornada socioemocional n\u00e3o se encerra na alfabetiza\u00e7\u00e3o, mas acompanha o ser humano por toda a sua trajet\u00f3ria de aprendizagem.<\/p>\n<p>A pergunta que fica para cada educador, gestor e formulador de pol\u00edtica p\u00fablica \u00e9 simples e urgente: podemos continuar avaliando e formando crian\u00e7as e jovens como se emo\u00e7\u00f5es fossem irrelevantes para a aprendizagem? As pesquisas dizem que n\u00e3o, os professores dizem que n\u00e3o e os estudantes, ainda que muitas vezes em sil\u00eancio, dizem o mesmo. \u00c9 hora de ouvir.<\/p>\n<p>Danilo Pastorelli \u00e9 Mestre em Economia, Graduado em Hist\u00f3ria, Especialista em Ensino e Aprendizagem, Especialista em Gest\u00e3o Escolar e professor desde 2005.<\/p>\n<p>A <b>OESP<\/b> n\u00e3o \u00e9(s\u00e3o) respons\u00e1vel(is) por erros, incorre\u00e7\u00f5es, atrasos ou quaisquer decis\u00f5es tomadas por seus clientes com base nos Conte\u00fados ora disponibilizados, bem como tais Conte\u00fados n\u00e3o representam a opini\u00e3o da <b>OESP<\/b> e s\u00e3o de inteira responsabilidade da <b>Ag\u00eancia Saftec<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pesquisas mostram que compet\u00eancias como autorregula\u00e7\u00e3o emocional e empatia influenciam diretamente o desempenho escolar. 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