{"id":131872,"date":"2026-06-22T11:45:00","date_gmt":"2026-06-22T14:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/caneta-e-colher-na-medicina-dos-primordios-a-facilidade\/"},"modified":"2026-06-22T11:45:00","modified_gmt":"2026-06-22T14:45:00","slug":"caneta-e-colher-na-medicina-dos-primordios-a-facilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/caneta-e-colher-na-medicina-dos-primordios-a-facilidade\/","title":{"rendered":"Caneta e Colher na Medicina: Dos prim\u00f3rdios \u00e0 \u201cfacilidade"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de 6,3 milh\u00f5es de anos, a partir de um ancestral comum, ocorreu a separa\u00e7\u00e3o entre humanos e chimpanz\u00e9s. Ap\u00f3s sucessivas transforma\u00e7\u00f5es evolutivas, h\u00e1 aproximadamente 180 mil anos, o Homo sapiens passou a ocupar diferentes regi\u00f5es do planeta. Ao longo desse percurso, o dom\u00ednio do fogo, a cria\u00e7\u00e3o de artefatos para ca\u00e7a, o desenvolvimento da comunica\u00e7\u00e3o e a alimenta\u00e7\u00e3o desempenharam pap\u00e9is fundamentais na sobreviv\u00eancia e na consolida\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. N\u00e3o por acaso, diversos estudiosos associam a capacidade de cozinhar e compartilhar refei\u00e7\u00f5es \u00e0 pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da humanidade. &#8220;Somos macacos que cozinham. Como cozinhamos, logo tornamo-nos humanos&#8221;, descrevem pesquisadores ao se referirem ao h\u00e1bito ancestral de reunir fam\u00edlias e comunidades em torno do fogo e, posteriormente, do fog\u00e3o &#8211; sinalizam Acary e Orsini.<\/p>\n<p>Em entrevista exclusiva ao Estad\u00e3o, o neurologista Dr. Marco Orsini explica que a Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica, conhecida como &#8220;Pedra Nova&#8221;, marcou a transi\u00e7\u00e3o dos antigos coletores n\u00f4mades para agricultores e criadores de animais sedent\u00e1rios. Segundo ele, esse processo representou o in\u00edcio de uma adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 facilidade de obten\u00e7\u00e3o dos alimentos e \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da necessidade da ca\u00e7a. &#8220;Esse fora o in\u00edcio do processo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 facilidade em coletar e ao alentecimento da necessidade de ca\u00e7ar. Emerge o termo sedentarismo e a imensa oferta de alimentos desnecess\u00e1rios \u00e0 nossa sobreviv\u00eancia&#8221;, afirma. Para o especialista, o ser humano perdeu parte de sua rela\u00e7\u00e3o natural com os ciclos biol\u00f3gicos. &#8220;N\u00e3o acordamos nem dormimos cedo, desrespeitamos o ciclo ascendente e o nadir do cortisol&#8221;, observa.<\/p>\n<p>Embora reconhe\u00e7a que in\u00fameras s\u00edndromes e doen\u00e7as metab\u00f3licas possam interferir no controle do peso corporal, Marco Orsini chama aten\u00e7\u00e3o para um fen\u00f4meno contempor\u00e2neo marcado pela busca acelerada por resultados. Segundo ele, a sociedade assiste atualmente \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o cada vez mais intensa das chamadas &#8220;canetas emagrecedoras&#8221;, acompanhada, em muitos casos, pelo consumo de suplementos proteicos de r\u00e1pida absor\u00e7\u00e3o para manuten\u00e7\u00e3o ou ganho de massa muscular. A imagem da &#8220;caneta e colher&#8221;, segundo os especialistas, simboliza justamente essa tentativa de compensar rapidamente os efeitos provocados pelo emagrecimento medicamentoso.<\/p>\n<p>O neurologista Dr. Acary SB Oliveira alerta para a ocorr\u00eancia de sarcopenia decorrente dos processos de perda de peso r\u00e1pida. &#8220;Para cada oito quilos a menos de gordura, estima-se uma perda proporcional de aproximadamente 30% de massa muscular. S\u00e3o n\u00fameros que nos preocupam, principalmente com o envelhecimento dessa popula\u00e7\u00e3o&#8221;, ressalta. Para ele, os m\u00fasculos representam a verdadeira for\u00e7a motriz do corpo humano e s\u00e3o indispens\u00e1veis para o funcionamento biomec\u00e2nico adequado do organismo. &#8220;\u00c9 preocupante pensar que a popula\u00e7\u00e3o entre 30 e 50 anos, baseando-se em uma nutri\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 caneta e colher, poder\u00e1 envelhecer sem ter, quem sabe, autonomia para exercer atividades b\u00e1sicas&#8221;, adverte.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica endocrinologista Dra. Luiza Travalloni destaca que a chegada das chamadas &#8220;canetas emagrecedoras&#8221; representou uma revolu\u00e7\u00e3o no tratamento da obesidade. Os medicamentos, segundo ela, possuem elevado potencial de perda de peso e abriram uma nova perspectiva para uma doen\u00e7a que, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, encontrava na cirurgia bari\u00e1trica a principal alternativa para resultados mais expressivos. Quando utilizados de forma adequada e sob acompanhamento m\u00e9dico, podem proporcionar redu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de at\u00e9 20% do peso inicial. As novas gera\u00e7\u00f5es de an\u00e1logos triplos, como a retatrutida, apresentam resultados ainda mais expressivos, alcan\u00e7ando perda m\u00e9dia de aproximadamente 30 quilos, o equivalente a 28,3% do peso corporal inicial.<\/p>\n<p>Entretanto, a especialista ressalta que o principal problema reside no uso indiscriminado dessas medica\u00e7\u00f5es, muitas vezes voltado exclusivamente para fins est\u00e9ticos e sem indica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica adequada. A crescente oferta de formula\u00e7\u00f5es manipuladas e produtos n\u00e3o aprovados amplia o acesso sem a devida fiscaliza\u00e7\u00e3o, aumentando os riscos associados ao tratamento. Entre os efeitos adversos mais comuns est\u00e3o n\u00e1useas, v\u00f4mitos e constipa\u00e7\u00e3o intestinal, embora tamb\u00e9m existam eventos raros e potencialmente graves, como a pancreatite aguda.<\/p>\n<p>Outro aspecto que merece aten\u00e7\u00e3o, segundo Luiza Travalloni, \u00e9 que a perda de peso promovida pelos medicamentos n\u00e3o ocorre exclusivamente \u00e0s custas da gordura corporal. Assim como acontece em dietas ou programas intensivos de atividade f\u00edsica, parte da redu\u00e7\u00e3o envolve a massa magra, incluindo os m\u00fasculos. Estudos demonstram que, durante o uso de an\u00e1logos de GLP-1, como a semaglutida, a perda de massa livre de gordura pode representar cerca de 40% do peso total perdido. J\u00e1 com os an\u00e1logos duplos de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida, esse percentual gira em torno de 25%.<\/p>\n<p>A endocrinologista explica que esses n\u00fameros podem ser ainda maiores quando n\u00e3o existe aporte adequado de prote\u00ednas e um programa estruturado de exerc\u00edcios resistidos. Como as medica\u00e7\u00f5es reduzem a fome e diminuem a ingest\u00e3o alimentar, muitos pacientes acabam consumindo menos prote\u00ednas do que necessitam para preservar a musculatura. Nesses casos, os suplementos proteicos, como o whey protein, podem ser utilizados n\u00e3o para neutralizar o efeito dos medicamentos, mas para corrigir d\u00e9ficits nutricionais decorrentes da pr\u00f3pria restri\u00e7\u00e3o alimentar e contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o da massa muscular.<\/p>\n<p>Em pacientes com obesidade e indica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica apropriada, os benef\u00edcios costumam superar os riscos, com melhora significativa da composi\u00e7\u00e3o corporal. Entretanto, os especialistas refor\u00e7am que o desafio est\u00e1 em evitar que o emagrecimento deixe de ser sin\u00f4nimo de sa\u00fade. O excesso de peso pode dar lugar a um problema mais silencioso: uma popula\u00e7\u00e3o que envelhece com menos m\u00fasculos, menos for\u00e7a, mais fragilidade e maior predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 sarcopenia. Em meio aos avan\u00e7os da medicina, permanece a lembran\u00e7a de que sentar-se \u00e0 mesma mesa continua sendo um ato de conviv\u00eancia e pertencimento. Afinal, comida n\u00e3o \u00e9 mercadoria. \u00c9 patrim\u00f4nio, \u00e9 direito, \u00e9 h\u00e1bito e, acima de tudo, \u00e9 vida.<\/p>\n<p>Dra. Luiza Travalloni<\/p>\n<p>M\u00e9dica endocrinologista, p\u00f3s-graduada em Nutrologia e mestre em Endocrinologia.<\/p>\n<p>Dr. Acary SB Oliveira<\/p>\n<p>Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Respons\u00e1vel pelo Setor de Investiga\u00e7\u00e3o em Doen\u00e7as Neuromusculares do Hospital S\u00e3o Paulo. P\u00f3s-doutor pela Columbia University, em Nova York (EUA).<\/p>\n<p>Dr. Marco Orsini<\/p>\n<p>Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Doutor e p\u00f3s-doutor em Neurologia e Neuroci\u00eancias pela UFF e UFRJ. Coordenador do Servi\u00e7o de Doen\u00e7as Neuromusculares Raras do Hospital Niter\u00f3i D&#8217;Or.<\/p>\n<p>A <b>OESP<\/b> n\u00e3o \u00e9(s\u00e3o) respons\u00e1vel(is) por erros, incorre\u00e7\u00f5es, atrasos ou quaisquer decis\u00f5es tomadas por seus clientes com base nos Conte\u00fados ora disponibilizados, bem como tais Conte\u00fados n\u00e3o representam a opini\u00e3o da <b>OESP<\/b> e s\u00e3o de inteira responsabilidade da <b>PulseBrand<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 cerca de 6,3 milh\u00f5es de anos, a partir de um ancestral comum, ocorreu a separa\u00e7\u00e3o entre humanos e chimpanz\u00e9s. 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