{"id":131104,"date":"2026-06-10T09:00:00","date_gmt":"2026-06-10T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/tocar-e-olhar-distantes-na-medicina-atual-um-novo-exame-fisico\/"},"modified":"2026-06-10T09:00:00","modified_gmt":"2026-06-10T12:00:00","slug":"tocar-e-olhar-distantes-na-medicina-atual-um-novo-exame-fisico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/pulsebrand\/tocar-e-olhar-distantes-na-medicina-atual-um-novo-exame-fisico\/","title":{"rendered":"Tocar e Olhar Distantes na Medicina Atual: Um Novo Exame F\u00edsico?"},"content":{"rendered":"<p>O professor Acary SB Oliveira descreve com min\u00facia o per\u00edodo que antecede Hip\u00f3crates, conhecido como o &#8220;Pai da Medicina Ocidental&#8221;. O exerc\u00edcio da Medicina, naquela \u00e9poca, estava nas m\u00e3os dos sacerdotes de Ascl\u00e9pios. As doen\u00e7as eram vistas como resultado da zanga dos deuses contra os homens, e os enfermos buscavam aux\u00edlio nos templos em busca da assist\u00eancia sacerdotal. Hip\u00f3crates rompeu com essa vis\u00e3o ao negar os poderes curativos dos deuses e procurar explica\u00e7\u00f5es para as doen\u00e7as no mundo que cercava os seres humanos, e n\u00e3o nos caprichos divinos. Ensinava que o m\u00e9dico deveria observar cuidadosamente o paciente e registrar os sintomas da doen\u00e7a. Dessa forma, organizou uma norma que mostrava como o paciente poderia ser curado. O processo de cura estava relacionado ao reconhecimento da physis (natureza) do corpo e de suas altera\u00e7\u00f5es a partir dos sinais observ\u00e1veis e dos aspectos ocasionais, t\u00edpicos e espec\u00edficos.<\/p>\n<p>&#8220;Os seus ensinamentos influenciaram a forma m\u00e9dica de realizar o melhor diagn\u00f3stico, baseado na semiologia que compreende duas etapas: anamnese, entrevista com o paciente para entender o hist\u00f3rico m\u00e9dico, estilo de vida e, principalmente, relato dos sintomas, queixas subjetivas; e exame f\u00edsico ou semiot\u00e9cnica, exame minucioso utilizando inspe\u00e7\u00e3o, palpa\u00e7\u00e3o, percuss\u00e3o e ausculta para identificar os sinais, dados objetivos como febre, incha\u00e7o ou press\u00e3o alta&#8221;, afirma Acary.<\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, o toque ao paciente ultrapassou o car\u00e1ter meramente t\u00e9cnico e passou a representar uma das express\u00f5es mais importantes da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dico e enfermo. Atrav\u00e9s dele, gera\u00e7\u00f5es de profissionais constru\u00edram diagn\u00f3sticos, transmitiram seguran\u00e7a e estabeleceram v\u00ednculos de confian\u00e7a. Entretanto, para o m\u00e9dico Marco Orsini, a pr\u00e1tica cl\u00ednica contempor\u00e2nea vive um momento de profundas transforma\u00e7\u00f5es, marcado por desafios que v\u00e3o muito al\u00e9m da incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias.<\/p>\n<p>&#8220;Obviamente todos n\u00f3s temos receio de colocarmos o cl\u00e1ssico exame f\u00edsico e anamnese em pr\u00e1tica na atualidade. A intelig\u00eancia artificial e a estrondosa demanda de exames complementares praticamente engoliram um orgulho que herdamos da Medicina: o tocar em nossos pacientes, avaliar detalhes no corpo, palpar o abdome, auscultarmos \u00f3rg\u00e3os e olharmos de forma mantida para o rosto desses buscando pistas&#8221;, afirma o m\u00e9dico. Segundo ele, o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico trouxe benef\u00edcios inquestion\u00e1veis para a Medicina, mas tamb\u00e9m contribuiu para um afastamento gradual de pr\u00e1ticas tradicionais que sempre foram consideradas essenciais na avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Marco Orsini observa ainda que a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o dos pacientes em rela\u00e7\u00e3o ao exame f\u00edsico mudou significativamente ao longo dos anos. Segundo ele, procedimentos que antes eram compreendidos como parte natural da consulta passaram a despertar d\u00favidas e questionamentos. &#8220;Alguns me questionam se \u00e9 necess\u00e1rio vestir uma camisola ou mesmo observar p\u00e9s, m\u00e3os e\/ou regi\u00e3o das costas em meu consult\u00f3rio. Isso \u00e9 algo assustador para a nossa profiss\u00e3o, mas compreens\u00edvel por tudo que estamos vivendo.&#8221; Para o especialista, esse cen\u00e1rio reflete uma mudan\u00e7a cultural ampla, influenciada pela crescente valoriza\u00e7\u00e3o dos exames de imagem, pela rapidez dos atendimentos e pela presen\u00e7a cada vez maior de recursos tecnol\u00f3gicos no processo diagn\u00f3stico. Embora compreenda as raz\u00f5es para esse comportamento, ele acredita que a situa\u00e7\u00e3o merece aten\u00e7\u00e3o por parte da comunidade m\u00e9dica e acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m trouxe novos desafios para a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos e pacientes, especialmente no que se refere \u00e0 seguran\u00e7a e aos limites da pr\u00e1tica cl\u00ednica. Orsini relata que muitos profissionais passaram a adotar uma postura mais cautelosa durante os atendimentos. &#8220;N\u00e3o me sinto \u00e0 vontade para avaliar algu\u00e9m sem a presen\u00e7a de um terceiro dentro do meu consult\u00f3rio, mesmo que n\u00e3o exista nenhum problema por parte do avaliado. A vulnerabilidade do paciente e do m\u00e9dico criou uma esp\u00e9cie de barreira e esticou discuss\u00e3o longeva sobre at\u00e9 onde prosseguir para n\u00e3o sermos pontos sens\u00edveis no quesito displic\u00eancia ou estranheza&#8221;, afirma. Para ele, trata-se de uma realidade que evidencia as mudan\u00e7as sociais em curso e que exige reflex\u00e3o constante para que o cuidado m\u00e9dico continue sendo realizado de forma \u00e9tica, segura e eficiente.<\/p>\n<p>Ao abordar os conceitos de profissionalismo e humanismo, o professor Acary SB Oliveira destaca que ambos s\u00e3o fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o da identidade m\u00e9dica e n\u00e3o podem ser dissociados da pr\u00e1tica assistencial. &#8220;Profissionalismo \u00e9 agir de acordo com valores normativos, enquanto humanismo \u00e9 uma forma de ser, que compreende um conjunto de convic\u00e7\u00f5es pessoais com alicerces sobre as responsabilidades de uns para com os outros, especialmente aqueles que precisam, manifestando-se atrav\u00e9s de altru\u00edsmo, dever, integridade, respeito pelos outros e compaix\u00e3o.&#8221; Segundo ele, embora o humanismo continue sendo um dos pilares da Medicina, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que muitos pacientes se tornaram menos familiarizados com a pr\u00e1tica de exames f\u00edsicos amplos e minuciosos.<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo que o humanismo forne\u00e7a ideia de comprometimento e paix\u00e3o pelos nossos gestos e atribui\u00e7\u00f5es, devemos ser muito cautelosos no tocante \u00e0 abordagem para com o paciente. Eles n\u00e3o s\u00e3o culpados, mas ficaram desacostumados com um exame semiol\u00f3gico cauteloso e amplo&#8221;, afirma o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Para Acary, existe ainda um aspecto da atua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que permanece inalcan\u00e7\u00e1vel para qualquer m\u00e1quina ou sistema de intelig\u00eancia artificial. Trata-se da capacidade humana de interpretar o sofrimento, compreender contextos e estabelecer conex\u00f5es emocionais que ultrapassam os dados objetivos de um exame. &#8220;Guardamos em n\u00f3s uma esp\u00e9cie de n\u00facleo criativo ou semente cr\u00edtica, que nos permite compreender o ser humano mais do que qualquer m\u00e1quina, na dor e no amor ao que fazemos&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p>Um dos maiores nomes da Medicina brasileira, o professor Celmo Celeno Porto, autor da principal obra de Semiologia M\u00e9dica do pa\u00eds e reconhecido defensor da valoriza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica cl\u00ednica, tamb\u00e9m contribui para o debate ao destacar que a Medicina jamais poder\u00e1 ser reduzida a uma atividade exclusivamente t\u00e9cnica ou tecnol\u00f3gica. &#8220;A fun\u00e7\u00e3o m\u00e9dica n\u00e3o \u00e9 somente um trabalho profissionalizado, tampouco somente tecnologia, nem algo exclusivamente humanit\u00e1rio.&#8221; Para Porto, a identidade profissional \u00e9 constru\u00edda a partir de m\u00faltiplos elementos que moldam a forma de atua\u00e7\u00e3o de cada m\u00e9dico e influenciam diretamente a qualidade do cuidado prestado. &#8220;A singularidade de cada pessoa \u00e9 o melhor protocolo. \u00c0s vezes precisamos usar a criatividade, a arte e a confian\u00e7a para termos um resultado melhor&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o do professor, os avan\u00e7os cient\u00edficos devem ser celebrados e incorporados \u00e0 pr\u00e1tica m\u00e9dica, mas jamais em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s compet\u00eancias humanas que historicamente caracterizam a profiss\u00e3o. &#8220;Sendo a Medicina uma arte, devemos empregar as mais potentes ferramentas dispon\u00edveis, n\u00e3o apenas as melhores em Ci\u00eancia e Tecnologia, mas as melhores em conhecimento, habilidades e car\u00e1ter do m\u00e9dico. Essa \u00e9 a grande satisfa\u00e7\u00e3o e modelo que devemos sempre propagar&#8221;, afirma Celmo Celeno Porto, refor\u00e7ando a necessidade de equil\u00edbrio entre inova\u00e7\u00e3o e humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao encerrar suas reflex\u00f5es, Marco Orsini faz um chamado \u00e0 comunidade m\u00e9dica e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de ensino para que resgatem aspectos fundamentais da forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica. &#8220;Acho que devemos reformar o nosso interior, recalcular nas Escolas de Medicina uma nova volta \u00e0s humanidades para lembrar quem somos, o quanto nossos pacientes s\u00e3o importantes e, principalmente, o que nos distingue ou distinguia como seres humanos no ato de cuidar.&#8221; Na mesma dire\u00e7\u00e3o, Acary SB Oliveira refor\u00e7a que o toque continua sendo uma ferramenta insubstitu\u00edvel na pr\u00e1tica assistencial. &#8220;O toque terap\u00eautico \u00e9 o primeiro instrumento diagn\u00f3stico e humanizador na rela\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. Ele permite a avalia\u00e7\u00e3o f\u00edsica do paciente e promove a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal, essencial para transmitir empatia, aliviar a dor, reduzir a ansiedade e construir confian\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente ou equipe de sa\u00fade-paciente&#8221;, aponta.<\/p>\n<p>Encerrando o debate, Marco Orsini faz uma defesa enf\u00e1tica da retomada do exame f\u00edsico realizado com aten\u00e7\u00e3o, cuidado e profundidade. &#8220;Quem sabe retornamos ao exame f\u00edsico dedilhado com min\u00facia, como as teclas de um piano. Esse entrelace dos v\u00e1rios saberes, acumulados com nossa experi\u00eancia e rela\u00e7\u00e3o com o enfermo, \u00e9 insubstitu\u00edvel. Sem o toque, sem d\u00favida nenhuma, retornaremos \u00e0 \u00e9poca onde as doen\u00e7as nem os deuses curavam&#8221;, finaliza.<\/p>\n<p>Sobre eles<\/p>\n<p>Dr. Celmo Celeno Porto. M\u00e9dico. Membro Honor\u00e1rio da Academia Nacional de Medicina. Especialista em Cl\u00ednica M\u00e9dica e Cardiologia pela Sociedade Brasileira. Autor dos principais livros de semiologia M\u00e9dica no Brasil.<\/p>\n<p>Dr. Marco Orsini. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Doutor e P\u00f3s Doutor em NeurologiaNeuroci\u00eancias pela UFF e UFRJ. Coordenador do Servi\u00e7o de Doen\u00e7as Neuromusculares Raras do Hospital Niter\u00f3i Dor.<\/p>\n<p>Dr. Acary SB Oliveira. Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Respons\u00e1vel pelo Setor de Investiga\u00e7\u00e3o em Doen\u00e7as Neuromusculares do Hospital S\u00e3o Paulo. P\u00f3s-Doutor pela Columbia University, Nova York (EUA).<\/p>\n<p>A <b>OESP<\/b> n\u00e3o \u00e9(s\u00e3o) respons\u00e1vel(is) por erros, incorre\u00e7\u00f5es, atrasos ou quaisquer decis\u00f5es tomadas por seus clientes com base nos Conte\u00fados ora disponibilizados, bem como tais Conte\u00fados n\u00e3o representam a opini\u00e3o da <b>OESP<\/b> e s\u00e3o de inteira responsabilidade da <b>PulseBrand<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O professor Acary SB Oliveira descreve com min\u00facia o per\u00edodo que antecede Hip\u00f3crates, conhecido como o &#8220;Pai da Medicina Ocidental&#8221;. 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