{"id":123730,"date":"2026-02-04T16:05:00","date_gmt":"2026-02-04T19:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/agencia-memoria-da-eletricidade\/energia-solar-e-geracao-distribuida-no-brasil\/"},"modified":"2026-02-04T16:05:00","modified_gmt":"2026-02-04T19:05:00","slug":"energia-solar-e-geracao-distribuida-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/agencia-memoria-da-eletricidade\/energia-solar-e-geracao-distribuida-no-brasil\/","title":{"rendered":"Energia solar e gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><i>Expans\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda por meio de pain\u00e9is fotovoltaicos torna mais complexa a opera\u00e7\u00e3o do Sistema Interligado Nacional<\/i><\/p>\n<p>Historicamente, a matriz el\u00e9trica brasileira se caracterizou pelo predom\u00ednio da gera\u00e7\u00e3o de energia de origem hidr\u00e1ulica, ao contr\u00e1rio da matriz el\u00e9trica mundial, em grande parte ainda baseada nos combust\u00edveis f\u00f3sseis, n\u00e3o obstante a crescente participa\u00e7\u00e3o das fontes solar e e\u00f3lica, em resposta ao desafio da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para uma economia de baixo carbono.<\/p>\n<p>O predom\u00ednio da hidreletricidade no Brasil remonta ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando entraram em funcionamento as primeiras usinas da Light em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro. A partir dos anos 1950, o aproveitamento em larga escala do potencial hidrel\u00e9trico nacional, um dos maiores do mundo, propiciou not\u00e1vel crescimento da oferta de energia el\u00e9trica. Grandes hidrel\u00e9tricas e reservat\u00f3rios foram constru\u00eddos por empresas p\u00fablicas federais e estaduais. Foi uma op\u00e7\u00e3o quase impositiva, tendo em conta a escassez das reservas de carv\u00e3o mineral do pa\u00eds e a depend\u00eancia do petr\u00f3leo importado ao longo de quase todo o s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o hidr\u00e1ulica chegou a contribuir com mais de 90% da oferta de eletricidade. Entretanto, essa contribui\u00e7\u00e3o vem declinando por causa das restri\u00e7\u00f5es socioambientais para o aproveitamento do potencial hidrel\u00e9trico ainda n\u00e3o explorado (localizado em grande parte na Amaz\u00f4nia), a maior participa\u00e7\u00e3o das usinas t\u00e9rmicas e o crescimento acelerado das fontes de gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica e solar.<\/p>\n<p>Em 2005, as usinas hidr\u00e1ulicas respondiam por 76,5% da pot\u00eancia instalada do pa\u00eds, estimada em 92,8 mil megawatts (MW) pela Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel). O parque hidrel\u00e9trico contava ent\u00e3o com 149 usinas de pot\u00eancia superior a 30 MW e cerca de 400 instala\u00e7\u00f5es de menor porte. O segmento da termeletricidade compreendia 872 empreendimentos, incluindo duas centrais nucleares e dezenas de centrais de cogera\u00e7\u00e3o que utilizavam diversas fontes de energia, notadamente g\u00e1s natural e baga\u00e7o de cana.<\/p>\n<p>Havia apenas dez usinas e\u00f3licas e uma fotovoltaica no pa\u00eds. Na \u00e9poca, o parque e\u00f3lico da Prainha, no litoral do Cear\u00e1, era o maior em opera\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina. Inaugurado em 1999, Prainha contava com 20 aerogeradores, totalizando 20 MW de pot\u00eancia. A gera\u00e7\u00e3o de energia solar era inexpressiva e limitada a projetos isolados de pesquisa e pequenas instala\u00e7\u00f5es que atendiam comunidades remotas sem acesso \u00e0 rede el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 15 anos, observamos importante mudan\u00e7a na matriz el\u00e9trica brasileira. A participa\u00e7\u00e3o da energia hidr\u00e1ulica diminuiu significativamente, passando de 71% em 2010 para 46,5% em 2024.  Vale notar que a capacidade geradora de energia el\u00e9trica mais que dobrou no per\u00edodo, alcan\u00e7ando o patamar de 236 mil MW, em decorr\u00eancia do extraordin\u00e1rio avan\u00e7o das fontes renov\u00e1veis e\u00f3lica e solar. Como mostra a Tabela 1, a matriz el\u00e9trica se mant\u00e9m predominantemente renov\u00e1vel, considerando os empreendimentos \u00e0 base de energia hidr\u00e1ulica, e\u00f3lica, solar e biomassa.<\/p>\n<figure>\n  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.estadaoconteudo.com.br\/RSS\/images\/AME20260204160508002502-20260204artigoen-1.jpg\" alt=\"Fonte: Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica (EPE). Anu\u00e1rio estat\u00edstico de energia el\u00e9trica 2025 (ano-base 2024)\"><figcaption>Fonte: Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica (EPE). Anu\u00e1rio estat\u00edstico de energia el\u00e9trica 2025 (ano-base 2024)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Criado em 2002, o Programa de Incentivo \u00e0s Fontes Alternativas de Energia (Proinfa) representou um passo importante para o desenvolvimento de energia e\u00f3lica. Institu\u00eddo no momento em que o pa\u00eds ainda sentia os efeitos da crise h\u00eddrica e do racionamento de 2001, o programa previu a contrata\u00e7\u00e3o de 3 mil MW de energia renov\u00e1vel em usinas e\u00f3licas, termel\u00e9tricas a biomassa e pequenas centrais hidrel\u00e9tricas (PCHs) com subs\u00eddios pagos pela Conta da Desenvolvimento Energ\u00e9tico (CDE). No \u00e2mbito do Proinfa, foram contratados 53 projetos e\u00f3licos, somando 1.304 MW de energia.<\/p>\n<p>A partir de 2007, os incentivos \u00e0 gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica ocorreram mediante leil\u00f5es espec\u00edficos para esta fonte de energia ou leil\u00f5es de fontes alternativas. Os primeiros leil\u00f5es exclusivos de energia e\u00f3lica ocorreram em 2009 e 2010, impulsionando numerosos empreendimentos. O pre\u00e7o atingido no leil\u00e3o de 2010 colocou a e\u00f3lica como a segunda fonte mais barata de produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica no Brasil, atr\u00e1s apenas das grandes hidrel\u00e9tricas. A capacidade contratada por estes leil\u00f5es somou quase 4 mil MW, um avan\u00e7o significativo para a consolida\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria e\u00f3lica no pa\u00eds. A regi\u00e3o Nordeste se tornou o principal polo de gera\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica do Brasil. A regi\u00e3o possui ventos fortes, constantes e unidirecionais que favorecem a alta produ\u00e7\u00e3o de energia com baixo custo.<\/p>\n<p>Em 2019, a energia e\u00f3lica alcan\u00e7ou a marca de 15,3 mil MW de pot\u00eancia instalada, tornando-se a segunda maior fonte da matriz el\u00e9trica nacional ao superar a biomassa e o g\u00e1s natural, ficando atr\u00e1s apenas da energia hidr\u00e1ulica. A capacidade instalada de gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica praticamente dobrou nos anos seguintes, aumentando significativamente a oferta de eletricidade ao mercado.<\/p>\n<p>Mais acelerado, entretanto, foi o crescimento da gera\u00e7\u00e3o solar fotovoltaica, seja na gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, feita pr\u00f3xima do consumidor final (resid\u00eancias, com\u00e9rcios, ind\u00fastrias), seja na gera\u00e7\u00e3o centralizada com as usinas que operam em locais distantes do consumo, fornecendo energia para os mercados regulado e livre.<\/p>\n<p><b>Regula\u00e7\u00e3o da Gera\u00e7\u00e3o Distribu\u00edda <\/b><\/p>\n<p>Segundo a Aneel, a Gera\u00e7\u00e3o Distribu\u00edda (GD) consiste na produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica por pequenas centrais geradoras que utilizam fontes renov\u00e1veis instaladas pr\u00f3ximas ao local do consumo e conectadas \u00e0 rede de distribui\u00e7\u00e3o, o que tamb\u00e9m pode ser caracterizado como minigera\u00e7\u00e3o ou microgera\u00e7\u00e3o. A quase totalidade dos sistemas de gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda instalados no pa\u00eds \u00e9 baseada em energia solar fotovoltaica.<\/p>\n<p>Um marco importante para o incremento dos sistemas de gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda foi a Resolu\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba 482 da Aneel. Promulgada em 2012, a resolu\u00e7\u00e3o estabeleceu as condi\u00e7\u00f5es para o acesso de microgera\u00e7\u00e3o (at\u00e9 75 kW) e minigera\u00e7\u00e3o (at\u00e9 1 MW) \u00e0s redes de energia el\u00e9trica, instituindo o sistema de compensa\u00e7\u00e3o conhecido internacionalmente pela denomina\u00e7\u00e3o inglesa <i>net <\/i> <i>metering<\/i>. Por este sistema, consumidores de energia podem gerar sua pr\u00f3pria eletricidade a partir de fontes renov\u00e1veis ou cogera\u00e7\u00e3o qualificada e injetar o excedente na rede el\u00e9trica, recebendo cr\u00e9ditos para compensa\u00e7\u00e3o posterior. Tamb\u00e9m foi estabelecido um subs\u00eddio na forma de isen\u00e7\u00e3o de pagamento pelo uso das redes de transmiss\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade al\u00e9m de uma s\u00e9rie de encargos setoriais.<\/p>\n<p>A partir de 2014, a gera\u00e7\u00e3o solar centralizada ganhou espa\u00e7o nos leil\u00f5es de energia promovidos pelo Minist\u00e9rio de Minas e Energia. No primeiro leil\u00e3o a negociar separadamente a energia solar, foram contratados 31 empreendimentos de gera\u00e7\u00e3o fotovoltaica somando 889 MW de capacidade instalada. Foi o ponto de partida das usinas solares com alta capacidade de produ\u00e7\u00e3o, conectadas \u00e0 rede de transmiss\u00e3o do Sistema Interligado Nacional (SIN).<\/p>\n<p>Em 2015, a Aneel ampliou os incentivos \u00e0 gera\u00e7\u00e3o solar distribu\u00edda, elevando o limite da pot\u00eancia instalada da minigera\u00e7\u00e3o para 5 MW, aumentando os prazos de validade dos cr\u00e9ditos de gera\u00e7\u00e3o e criando a modalidade de gera\u00e7\u00e3o compartilhada, por meio da forma\u00e7\u00e3o de cons\u00f3rcios ou cooperativas de consumidores.<\/p>\n<p>Somando apenas 48 MW em 2015, a capacidade de gera\u00e7\u00e3o solar cresceu significativamente nos anos seguintes, ultrapassando a marca de 4.700 MW em 2019, com predom\u00ednio da gera\u00e7\u00e3o centralizada em usinas solares (53%) sobre os micro e minissistemas de gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda (47%), segundo os dados da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica ( Absolar ).<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, Aneel promoveu consultas p\u00fablicas para revis\u00e3o das regras da gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda. De um lado, entidades e agentes do setor el\u00e9trico defenderam a redu\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios \u00e0 GD, notadamente o desconto na tarifa de uso dos sistemas de distribui\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o, argumentando que esse subs\u00eddio acarretava um \u00f4nus para os consumidores sem GD. De outro lado, defensores da energia solar argumentaram que os subs\u00eddios eram importantes para estimular a expans\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o limpa e renov\u00e1vel, al\u00e9m de tornar o sistema el\u00e9trico brasileiro menos dependente das hidrel\u00e9tricas e das termel\u00e9tricas. O debate ganhou as p\u00e1ginas dos jornais quando o presidente da Rep\u00fablica criticou abertamente a proposta da Aneel, endossando a campanha contra a suposta \u201ctaxa\u00e7\u00e3o do sol\u201d.<\/p>\n<p>O debate prosseguiu no Congresso Nacional com a apresenta\u00e7\u00e3o de projeto de lei retirando parte dos subs\u00eddios \u00e0 GD. Finalmente, em 6 de janeiro de 2022, a Lei n. 14.300 instituiu o marco legal da microgera\u00e7\u00e3o e minigera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, estabelecendo regras de transi\u00e7\u00e3o para os benef\u00edcios tarif\u00e1rios, principalmente os relacionados \u00e0 compensa\u00e7\u00e3o de energia. A lei ampliou a janela de oportunidade para a expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o descentralizada de fonte solar. Efetivamente, como mostra o Gr\u00e1fico 1, o crescimento da gera\u00e7\u00e3o solar fotovoltaica no pa\u00eds a partir de 2020 foi liderado pelo segmento da gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda.<\/p>\n<figure>\n  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.estadaoconteudo.com.br\/RSS\/images\/AME20260204160508002502-20260204artigoen-2.jpg\" alt=\"Fonte: Infogr\u00e1fico Absolar n. 23, setembro 2025\"><figcaption>Fonte: Infogr\u00e1fico Absolar n. 23, setembro 2025<\/figcaption><\/figure>\n<p><b>Sobreoferta de energia e corte de gera\u00e7\u00e3o <\/b><\/p>\n<p>O crescimento acelerado da gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica e solar mudou o perfil da matriz el\u00e9trica brasileira e tornou mais complexa a opera\u00e7\u00e3o do Sistema Interligado Nacional, em virtude da intermit\u00eancia e variabilidade dessas fontes de energia e do seu limitado controle pelo Operador Nacional do Sistema (ONS).<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica e solar \u00e9 essencialmente vari\u00e1vel, porque o vento e a luz solar n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis de maneira constante ao longo do dia ou no decorrer das esta\u00e7\u00f5es do ano. A possibilidade de contar com essas fontes muda \u00e0s vezes de forma abrupta, tornando mais complexa a tarefa de manter o balan\u00e7o entre oferta e demanda e, consequentemente, a estabilidade do sistema el\u00e9trico. Essa complexidade \u00e9 ainda maior em raz\u00e3o do crescimento exponencial da gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, que funciona sem supervis\u00e3o ou controle do ONS.<\/p>\n<p>A\u00a0gera\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica tamb\u00e9m se caracteriza pela variabilidade, pois depende do\u00a0regime de chuvas e vaz\u00f5es dos rios. Mas diferentemente das usinas e\u00f3licas e solares, as hidrel\u00e9tricas operam sob controle direto do ONS e oferecem servi\u00e7os essenciais para o funcionamento do sistema el\u00e9trico, notadamente o armazenamento de energia, por meio dos reservat\u00f3rios e da regulariza\u00e7\u00e3o das vaz\u00f5es afluentes, e flexibilidade operacional para atender \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es da carga.<\/p>\n<p>A maioria das hidrel\u00e9tricas e termel\u00e9tricas contribui para o despacho centralizado do Sistema Interligado Nacional, isto \u00e9, o ONS pode escolher o quanto as usinas ir\u00e3o gerar a cada momento, ajustando a produ\u00e7\u00e3o para atender flutua\u00e7\u00f5es no consumo. Em contrapartida, o ONS tem pouco ou nenhum controle sobre as usinas e\u00f3licas e solares.<\/p>\n<p>Atualmente, o Sistema Interligado Nacional conta com 176 mil km de linhas de transmiss\u00e3o que recebem energia de milhares de usinas, transportando-a a todas regi\u00f5es para distribui\u00e7\u00e3o pelas redes locais. O ONS, entidade respons\u00e1vel pela coordena\u00e7\u00e3o e controle da opera\u00e7\u00e3o das usinas e rede b\u00e1sica de transmiss\u00e3o do SIN, desempenha um papel crucial na garantia da seguran\u00e7a e confiabilidade do sistema. Cabe ao ONS manter o equil\u00edbrio perfeito entre oferta e demanda de energia o tempo todo.<\/p>\n<p>O atendimento ao mercado se d\u00e1 por meio do constante ajuste das unidades geradoras, respondendo instantaneamente \u00e0s varia\u00e7\u00f5es de carga. Geralmente, os hor\u00e1rios de maior consumo de energia ocorrem entre 18h e 21h (excluindo os s\u00e1bados, domingos e feriados), quando as pessoas retornam para casa ap\u00f3s o trabalho e come\u00e7am a utilizar diversos equipamentos el\u00e9tricos (chuveiros, televisores, ilumina\u00e7\u00e3o) ao mesmo tempo.\u00a0 Eventualmente, a \u201chora da ponta\u201d pode ocorrer no per\u00edodo das 14h \u00e0s 16h nos meses de ver\u00e3o e intenso acionamento de aparelhos de ar condicionado.<\/p>\n<p>Em diversos pa\u00edses, a energia solar mudou o perfil da curva de carga dos sistemas el\u00e9tricos, ocasionando o fen\u00f4meno conhecido como curva de pato, pela semelhan\u00e7a com a silhueta de um pato. Nos Estados Unidos, a mudan\u00e7a foi observada pela primeira vez na California, estado com a maior gera\u00e7\u00e3o de energia solar do pa\u00eds. No Brasil, o fen\u00f4meno tamb\u00e9m reflete o impacto da gera\u00e7\u00e3o solar, especialmente na condi\u00e7\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, em que o consumidor gera sua energia e injeta o excedente na rede el\u00e9trica, causando por vezes sobrecargas inesperadas.<\/p>\n<p>A curva do pato ocorre pela queda da demanda de energia ao longo do dia, quando a gera\u00e7\u00e3o solar \u00e9 alta (barriga do pato), seguida por um aumento r\u00e1pido no final da tarde e in\u00edcio da noite (pesco\u00e7o), quando o sol se p\u00f5e e a demanda cresce exigindo grande flexibilidade das fontes hidrel\u00e9tricas e t\u00e9rmicas. Em fun\u00e7\u00e3o do acr\u00e9scimo de energia solar, a cada ano a curva afunda mais.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o acelerada das fontes renov\u00e1veis e o aprofundamento da curva do pato impuseram novos desafios \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico brasileiro, agravando o problema do <i>curtailment<\/i>, isto \u00e9, a redu\u00e7\u00e3o, limita\u00e7\u00e3o ou corte da gera\u00e7\u00e3o de energia, quando a produ\u00e7\u00e3o supera a capacidade do sistema de transmiss\u00e3o dispon\u00edvel ou a necessidade de consumo demandada pela sociedade. Paradoxalmente, o Brasil passou a enfrentar uma situa\u00e7\u00e3o de sobras de energia na maior parte do dia e crescente risco de falta de suprimento no pico de demanda da noite.<\/p>\n<p>Desde 2022, os cortes de gera\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel (inclusive hidrel\u00e9trica) se tornaram recorrentes, seja por causa da sobreoferta de energia em determinados momentos do dia, colocando em risco a seguran\u00e7a do sistema el\u00e9trico, seja por restri\u00e7\u00f5es do sistema de transmiss\u00e3o por problemas de confiabilidade ou falta de capacidade de escoamento das usinas e\u00f3licas e solares.<\/p>\n<p>Energia em excesso pode sobrecarregar o sistema e faz\u00ea-lo cair. Foi o que poderia ter acontecido em 10 de agosto de 2025, um domingo ensolarado, quando a gera\u00e7\u00e3o de energia de fontes renov\u00e1veis superou em muito a demanda em certo momento, obrigando o ONS a desligar diversas usinas hidrel\u00e9tricas, e\u00f3licas e solares para evitar um colapso.<\/p>\n<p>Ao longo de 2025, como informou o engenheiro Donato Filho em artigo publicado na revista <i>Brasil Energia<\/i>, o ONS precisou cortar 20,6% de toda a energia solar e e\u00f3lica que poderia ter sido gerada, seja pela sobreoferta energ\u00e9tica ou por limita\u00e7\u00f5es da infraestrutura. O <i>curtailment<\/i> provocou R$ 6 bilh\u00f5es em preju\u00edzos, evidenciando, segundo o engenheiro, a \u201cfragilidade da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica brasileira\u201d.<\/p>\n<p>A <b>OESP<\/b> n\u00e3o \u00e9(s\u00e3o) respons\u00e1vel(is) por erros, incorre\u00e7\u00f5es, atrasos ou quaisquer decis\u00f5es tomadas por seus clientes com base nos Conte\u00fados ora disponibilizados, bem como tais Conte\u00fados n\u00e3o representam a opini\u00e3o da <b>OESP<\/b> e s\u00e3o de inteira responsabilidade da <b>Ag\u00eancia Mem\u00f3ria da Eletricidade<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Expans\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda por meio de pain\u00e9is fotovoltaicos torna mais complexa a opera\u00e7\u00e3o do Sistema Interligado Nacional Historicamente, a matriz el\u00e9trica brasileira se caracterizou","protected":false},"author":1,"featured_media":123731,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1680],"tags":[],"class_list":["post-123730","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agencia-memoria-da-eletricidade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123730","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=123730"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123730\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/123731"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=123730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=123730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=123730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}