{"id":122676,"date":"2026-01-12T13:14:00","date_gmt":"2026-01-12T16:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/releases\/releases-economia\/encontro-discute-os-impactos-da-justica-gratuita-no-judiciario-trabalhista\/"},"modified":"2026-01-12T13:14:00","modified_gmt":"2026-01-12T16:14:00","slug":"encontro-discute-os-impactos-da-justica-gratuita-no-judiciario-trabalhista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/releases\/releases-economia\/encontro-discute-os-impactos-da-justica-gratuita-no-judiciario-trabalhista\/","title":{"rendered":"Encontro discute os impactos da justi\u00e7a gratuita no judici\u00e1rio trabalhista"},"content":{"rendered":"<p>Meet Point Estad\u00e3o Think re\u00fane ministro do TST e especialistas para discutir a concess\u00e3o do benef\u00edcio e os impactos na litigiosidade.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a gratuita foi concebida como um instrumento de garantia de acesso ao Judici\u00e1rio para quem n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de arcar com os custos de um processo. No Brasil, por\u00e9m, a forma como o benef\u00edcio vem sendo concedido passou a ocupar o centro de um debate mais amplo sobre inseguran\u00e7a jur\u00eddica, est\u00edmulos \u00e0 litigiosidade excessiva e efici\u00eancia do sistema judicial. Esse foi o eixo da transmiss\u00e3o Meet Point Estad\u00e3o Think, mediada pela jornalista Camila Silveira, com a participa\u00e7\u00e3o do ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) Ives Gandra, do diretor executivo de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais, Trabalhistas e Sindicais da Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos (Febraban), Adauto Duarte, e da advogada Maria Cristina Mattioli, desembargadora aposentada e presidente do Conselho Superior de Rela\u00e7\u00f5es do Trabalho da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp).<\/p>\n<p>Ao longo do encontro, os convidados convergiram em um ponto central: o problema n\u00e3o est\u00e1 na exist\u00eancia da justi\u00e7a gratuita, mas na necessidade de crit\u00e9rios objetivos para sua concess\u00e3o e na aus\u00eancia de responsabiliza\u00e7\u00e3o em casos de uso indevido. &#8220;O que a Constitui\u00e7\u00e3o assegura \u00e9 a Justi\u00e7a ao pobre, desde que ele comprove sua insufici\u00eancia econ\u00f4mica&#8221;, ressaltou Ives Gandra. Segundo o ministro, a Reforma Trabalhista de 2017 buscou introduzir mais responsabilidade no processo do trabalho. &#8220;Antes, bastava uma declara\u00e7\u00e3o. Com a reforma, a regra passou a ser a comprova\u00e7\u00e3o. Abaixo de 40% do teto do benef\u00edcio da Previd\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio declarar. Acima disso, \u00e9 preciso provar&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Incentivos distorcidos<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do ministro, esse desenho acabou esvaziado por interpreta\u00e7\u00f5es posteriores. &#8220;O pr\u00f3prio Tribunal Superior do Trabalho firmou entendimento de que a simples declara\u00e7\u00e3o continuaria valendo como prova. Hoje, essa mat\u00e9ria est\u00e1 no Supremo Tribunal Federal, e h\u00e1 sinaliza\u00e7\u00e3o clara de que a mera declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode prevalecer&#8221;, observou. Para ele, o efeito pr\u00e1tico foi a cria\u00e7\u00e3o de incentivos equivocados. &#8220;O que d\u00e1 certo \u00e9 garantir o benef\u00edcio a quem realmente precisa. O que d\u00e1 errado \u00e9 permitir que quem ganha mais n\u00e3o assuma nenhum risco do processo&#8221;, avaliou. &#8220;Formou-se um ambiente em que a pessoa pensa: se der certo, \u00f3timo; se n\u00e3o der, n\u00e3o tenho \u00f4nus&#8221;, completou.<\/p>\n<p>Ao relacionar a pol\u00edtica de gratuidade ao congestionamento do Judici\u00e1rio, o ministro chamou aten\u00e7\u00e3o para a escala do problema. &#8220;O Conselho Nacional de Justi\u00e7a j\u00e1 apontou que pedidos indevidos de gratuidade s\u00e3o um dos exemplos de litig\u00e2ncia predat\u00f3ria. Temos declara\u00e7\u00f5es que n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade&#8221;, destacou. &#8220;O Brasil convive hoje com um estoque de cerca de 80 milh\u00f5es de processos. S\u00f3 no Tribunal Superior do Trabalho, h\u00e1 mais de 600 mil recursos em tramita\u00e7\u00e3o, o que compromete a capacidade de julgar com rapidez e qualidade.&#8221;<\/p>\n<p>Isen\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria<\/p>\n<p>Sob a \u00f3tica das pol\u00edticas p\u00fablicas, Adauto Duarte enquadrou a discuss\u00e3o no campo tribut\u00e1rio. &#8220;O acesso ao Judici\u00e1rio \u00e9 uma garantia constitucional que precisa ser preservada, sendo que a justi\u00e7a gratuita \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica feita por meio de isen\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria, porque custas judiciais s\u00e3o uma taxa&#8221;, pontuou. Para ele, os crit\u00e9rios atuais destoam de outras pol\u00edticas sociais. &#8220;As regras s\u00e3o flex\u00edveis de modo que pessoas com remunera\u00e7\u00e3o elevada conseguem o benef\u00edcio. Isso fere a isonomia tribut\u00e1ria&#8221;, pontuou.<\/p>\n<p>A advogada Maria Cristina Mattioli, por sua vez, alertou para o impacto institucional desse modelo. &#8220;A Reforma Trabalhista de 2017 trouxe crit\u00e9rios legais, mas o que vemos \u00e9 o afastamento progressivo desses par\u00e2metros&#8221;, avaliou. &#8220;O acesso \u00e0 Justi\u00e7a \u00e9 uma forma de cidadania, mas precisa de limites para n\u00e3o comprometer a credibilidade do sistema judicial&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>Custo difuso, inseguran\u00e7a jur\u00eddica e o papel das Cortes<\/p>\n<p>A flexibiliza\u00e7\u00e3o na concess\u00e3o da justi\u00e7a gratuita, segundo os participantes do Meet Point Estad\u00e3o Think, produz efeitos que extrapolam o Judici\u00e1rio e alcan\u00e7am a economia como um todo. O diretor executivo Adauto Duarte destacou dados do setor banc\u00e1rio para ilustrar o tema. &#8220;Temos estat\u00edsticas que mostram que 93,7% dos trabalhadores banc\u00e1rios que entram na Justi\u00e7a do Trabalho pedem justi\u00e7a gratuita, e cerca de 90% desses pedidos s\u00e3o deferidos&#8221;, relatou. &#8220;H\u00e1 casos de pessoas com renda mensal de 80 mil reais que pedem gratuidade e conseguem, enquanto outras, com renda muito menor, n\u00e3o t\u00eam o benef\u00edcio.&#8221;<\/p>\n<p>As despesas desse modelo, afirmou, s\u00e3o dilu\u00eddas na sociedade. &#8220;Do custo total anual da Justi\u00e7a do Trabalho, em torno de 27 bilh\u00f5es de reais, apenas 2% retornam em custas, apontou. Reduzir a litig\u00e2ncia abusiva ajuda a diminuir custos e pode contribuir para taxas de juros menores&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Credibilidade e investimento<\/p>\n<p>A advogada Maria Cristina Mattioli chamou aten\u00e7\u00e3o para os reflexos macroecon\u00f4micos da inseguran\u00e7a jur\u00eddica. &#8220;O risco jur\u00eddico afasta investimento direto e tamb\u00e9m investimento interno&#8221;, alertou. &#8220;O aumento do n\u00famero de a\u00e7\u00f5es e dos valores pedidos eleva o contingenciamento nos balan\u00e7os das empresas e gera incerteza.&#8221; Ela ressaltou que a gratuidade envolve custos al\u00e9m das custas. &#8220;H\u00e1 reflexos como honor\u00e1rios periciais custeados pela Uni\u00e3o e a impossibilidade de recuperar honor\u00e1rios da parte contr\u00e1ria mesmo quando o benefici\u00e1rio recebe valores elevados&#8221;, completou.<\/p>\n<p>Para a advogada, tamb\u00e9m falta rigor na puni\u00e7\u00e3o de abusos. &#8220;O C\u00f3digo de Processo Civil prev\u00ea o dever de boa-f\u00e9 e instrumentos contra a litig\u00e2ncia de m\u00e1-f\u00e9. Quando h\u00e1 deslealdade, precisa haver puni\u00e7\u00e3o&#8221;, defendeu. Ela ainda argumentou que a condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica deveria ser reavaliada ao longo do processo. &#8220;A situa\u00e7\u00e3o da pessoa pode mudar. Por isso, a autodeclara\u00e7\u00e3o isolada n\u00e3o \u00e9 suficiente.&#8221;<\/p>\n<p>Uniformiza\u00e7\u00e3o como sa\u00edda<\/p>\n<p>Ao tratar da necessidade de previsibilidade no sistema judicial, o ministro Ives Gandra comentou o espa\u00e7o ocupado pelo ativismo judicial no debate. &#8220;Estamos descumprindo a literalidade da lei ao ignorar a exig\u00eancia de comprova\u00e7\u00e3o&#8221;, advertiu. &#8220;Ju\u00edzes n\u00e3o s\u00e3o legisladores. Quando passam a decidir com base na pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a, criam inseguran\u00e7a e estimulam conflitos.&#8221; Para ele, a uniformiza\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel. &#8220;O que gera seguran\u00e7a jur\u00eddica \u00e9 o legalismo. Precisamos de governo de leis, n\u00e3o de homens&#8221;, concluiu.<\/p>\n<p>Adauto Duarte destacou que o tema vem sendo apreciado pelo Supremo Tribunal Federal. &#8220;Essa discuss\u00e3o no Supremo pode oferecer uma resposta emergencial \u00e0 sociedade, mas precisa avan\u00e7ar tamb\u00e9m no Congresso, com crit\u00e9rios claros e objetivos&#8221;, avaliou.<\/p>\n<p>Para os participantes, \u00e9 necess\u00e1rio preservar a justi\u00e7a gratuita como instrumento de acesso ao Judici\u00e1rio, mas com regras precisas, ison\u00f4micas e fiscaliz\u00e1veis. Sem isso, o benef\u00edcio corre o risco de se transformar em um incentivo permanente ao lit\u00edgio de baixo custo, com impacto direto sobre a efici\u00eancia do Judici\u00e1rio, a economia e a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. &#8220;A Justi\u00e7a precisa proteger quem \u00e9 vulner\u00e1vel, mas tamb\u00e9m precisa funcionar com responsabilidade. Quando o custo de litigar \u00e9 zero para todos, o sistema deixa de servir a quem realmente precisa dele&#8221;, resumiu o ministro Ives Gandra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Meet Point Estad\u00e3o Think re\u00fane ministro do TST e especialistas para discutir a concess\u00e3o do benef\u00edcio e os impactos na litigiosidade.\nA justi\u00e7a gratuita foi concebida como um inst","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[130],"tags":[],"class_list":["post-122676","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-releases-economia"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=122676"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/122676\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=122676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=122676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=122676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}