{"id":119367,"date":"2025-11-13T11:30:00","date_gmt":"2025-11-13T14:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/agencia-memoria-da-eletricidade\/a-usina-flutuante-poraque-o-navio-que-fez-a-energia-eletrica-navegar-pelo-brasil\/"},"modified":"2025-11-13T16:04:56","modified_gmt":"2025-11-13T19:04:56","slug":"usina-flutuante-poraque-historia-energia-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/agencia-memoria-da-eletricidade\/usina-flutuante-poraque-historia-energia-brasil\/","title":{"rendered":"A usina flutuante Poraqu\u00ea: o navio que fez a energia el\u00e9trica navegar pelo Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><i>Criada para servir na guerra, a Poraqu\u00ea virou s\u00edmbolo de resili\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o no setor el\u00e9trico e hoje repousa sob as \u00e1guas do rio Tocantins como um \u00edcone da mem\u00f3ria energ\u00e9tica nacional.<\/i><\/p>\n\n\n\n<p>Durante a Segunda Guerra Mundial, em plena d\u00e9cada de 1940, o mundo vivia o auge da corrida tecnol\u00f3gica. Nos Estados Unidos, o engenheiro Walker Cisler foi convocado para liderar um projeto in\u00e9dito: criar usinas el\u00e9tricas flutuantes capazes de cruzar os oceanos e fornecer energia em zonas de guerra. Assim nasceram quatro navios movidos a vapor \u2014 <i>Impedance<\/i>, <i>Inductance<\/i>, <i>Resistance<\/i> e <i>Seapower<\/i> \u2014, este \u00faltimo destinado a se tornar a lend\u00e1ria <strong>Poraqu\u00ea<\/strong>, a primeira usina flutuante do Brasil. As embarca\u00e7\u00f5es foram constru\u00eddas pela Bethlehem Steel Company, na Pensilv\u00e2nia, e projetadas para resistir \u00e0s intemp\u00e9ries do mar e da guerra.<\/p>\n\n\n\n<figure>\n<figcaption><\/figcaption>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>A <i>Seapower<\/i> foi lan\u00e7ada ao mar em 1943 no porto de Charleston, equipada com caldeiras a \u00f3leo e turbinas a vapor capazes de gerar energia suficiente para abastecer uma cidade de m\u00e9dio porte. Ap\u00f3s atravessar o Atl\u00e2ntico em meio aos ataques de submarinos alem\u00e3es, o navio ancorou no rio T\u00e2misa, em Londres, onde testemunhou o desfecho da guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o fim do conflito, a embarca\u00e7\u00e3o retornou aos Estados Unidos e, mais tarde, a Brazilian Hydroelectric Company, do grupo Light, adquiriu o navio e o trouxe para o Rio de Janeiro em 1950. Rebatizada como <i>Piraqu\u00ea<\/i> e operada pela Marinha do Brasil, sob supervis\u00e3o do almirante Miguel Magaldi, teve a miss\u00e3o de enfrentar a grave crise energ\u00e9tica que atingia a ent\u00e3o capital federal. Operando no sistema da Companhia Carris Luz e For\u00e7a, a <i>Piraqu\u00ea <\/i> foi alvo de cr\u00edticas. N\u00e3o por seu funcionamento, mas por priorizarem os bairros tur\u00edsticos, como Copacabana e o J\u00f3quei Club, na G\u00e1vea, enquanto grande parte da cidade permanecia \u00e0s escuras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1954, foi deslocada para Niter\u00f3i, ajudando a amenizar o problema de energia do outro lado da ba\u00eda. At\u00e9 ser vendida anos depois, em 1968, para a Companhia Estadual de Energia El\u00e9trica do Rio Grande do Sul (CEEE) e rebocada at\u00e9 Porto Alegre. O estado vivia uma estiagem severa e os reservat\u00f3rios viviam secos. A usina flutuante, ancorada no Gua\u00edba, foi respons\u00e1vel por fornecer parte da eletricidade \u00e0 regi\u00e3o metropolitana at\u00e9 1975.<\/p>\n\n\n\n<p>A embarca\u00e7\u00e3o foi vendida em seguida \u00e0 Companhia de Eletricidade de Manaus (CEM). L\u00e1, a usina-navio foi rebatizada de <i>Poraqu\u00ea, em<\/i> homenagem ao peixe-el\u00e9trico amaz\u00f4nico capaz de soltar descargas de at\u00e9 600 volts. A simbologia n\u00e3o poderia ser mais apropriada. A cidade crescia rapidamente com a cria\u00e7\u00e3o da Zona Franca e a velha usina flutuante, mesmo cansada, ajudou a evitar apag\u00f5es e iluminou o novo polo industrial, operando ao lado da Usina de Mau\u00e1 e de outras t\u00e9rmicas locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1978, a <i>Poraqu\u00ea<\/i> foi transferida para a rec\u00e9m-criada Eletronorte e rebocada at\u00e9 Bel\u00e9m, onde seria usada para refor\u00e7ar o sistema el\u00e9trico da capital paraense. Sua chegada tomou as manchetes dos jornais e recebeu o apelido de \u201cPrincesinha do Guajar\u00e1\u201d, noticiada como a \u201cm\u00e1quina da Segunda Guerra\u201d. A empolga\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, logo deu lugar \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o: faltavam pe\u00e7as e cabos que j\u00e1 n\u00e3o existiam no mercado. T\u00e9cnicos tiveram de improvisar, buscando sobras de guerra e equipamentos antigos em S\u00e3o Paulo e Mato Grosso do Sul.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone wp-image-119396 size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"557\" src=\"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-popa-lateral.jpg\" alt=\"Vista da popa e lateral da usina flutuante Poraqu\u00ea, marco hist\u00f3rico da energia el\u00e9trica no Brasil.\" class=\"wp-image-119396\" srcset=\"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-popa-lateral.jpg 1000w, https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-popa-lateral-300x167.jpg 300w, https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-popa-lateral-768x428.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista da popa e lateral da Usina de Poraqu\u00ea. S.d | Foto: Acervo Mem\u00f3ria da Eletricidade.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure>\n<figcaption><\/figcaption>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>O calor e a umidade da regi\u00e3o castigavam a embarca\u00e7\u00e3o e sua tripula\u00e7\u00e3o. As caldeiras come\u00e7aram a dar problemas e o custo de opera\u00e7\u00e3o subia sem parar. Foi ent\u00e3o que, nos anos 1980, com a constru\u00e7\u00e3o das grandes hidrel\u00e9tricas na regi\u00e3o, como Tucuru\u00ed, a <i>Poraqu\u00ea<\/i> perdeu espa\u00e7o e ficou desativada, esquecida no porto de Bel\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu fim veio em 1991. Por determina\u00e7\u00e3o do Governo Federal, o navio foi doado \u00e0 cidade de Camet\u00e1, no Par\u00e1. L\u00e1, foi naufragado para servir como barreira contra a eros\u00e3o do rio Tocantins, protegendo a orla e as antigas igrejas da cidade. Fragmentos de sua hist\u00f3ria, como imagens, v\u00eddeos e os di\u00e1rios de bordo, permanecem preservados pela Mem\u00f3ria da Eletricidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quem passa por Camet\u00e1 talvez nem imagine que, sob as \u00e1guas que circundam a cidade, repousa um peda\u00e7o da hist\u00f3ria el\u00e9trica do s\u00e9culo XX. A <i>Poraqu\u00ea<\/i>, que nasceu da urg\u00eancia da guerra e atravessou meio mundo levando luz a cidades inteiras, descansa no fundo do rio Tocantins como um monumento submerso. Entre o ferro e o lodo, dorme a mem\u00f3ria de um tempo em que o Brasil tentava iluminar o pr\u00f3prio futuro e, por um breve momento, conseguiu fazer a energia navegar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone wp-image-119397 size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"557\" src=\"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-gerador-general-electric.jpg\" alt=\"Placa de identifica\u00e7\u00e3o do gerador de corrente alternada da usina flutuante Poraqu\u00ea, fabricado pela General Electric.\" class=\"wp-image-119397\" srcset=\"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-gerador-general-electric.jpg 1000w, https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-gerador-general-electric-300x167.jpg 300w, https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/usina-flutuante-poraque-gerador-general-electric-768x428.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Placa de identifica\u00e7\u00e3o do gerador de corrente alternada refrigerado a hidrog\u00eanio da Usina de Poraqu\u00ea, fabricado pela General Eletric. S.d | Foto: Acervo Mem\u00f3ria da Eletricidade.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure>\n<figcaption><\/figcaption>\n<\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><b>Sobre a Mem\u00f3ria da Eletricidade<\/b><\/h2>\n\n\n\n<p>A Mem\u00f3ria da Eletricidade \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos dedicada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da hist\u00f3ria do setor el\u00e9trico brasileiro. Desde 1986, realiza projetos de pesquisa hist\u00f3rica, conserva\u00e7\u00e3o de acervos, produ\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es e coleta de relatos de hist\u00f3ria oral, promovendo o conhecimento sobre a trajet\u00f3ria e os desafios da energia no Brasil. Seu acervo re\u00fane milhares de documentos, fotografias, v\u00eddeos e registros sonoros que contam a evolu\u00e7\u00e3o do setor el\u00e9trico e podem ser acessados gratuitamente pelo site.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"VHS.128.01\" width=\"500\" height=\"375\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kE0w7ymCJ_o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>A <b>OESP<\/b> n\u00e3o \u00e9(s\u00e3o) respons\u00e1vel(is) por erros, incorre\u00e7\u00f5es, atrasos ou quaisquer decis\u00f5es tomadas por seus clientes com base nos Conte\u00fados ora disponibilizados, bem como tais Conte\u00fados n\u00e3o representam a opini\u00e3o da <b>OESP<\/b> e s\u00e3o de inteira responsabilidade da <b>Ag\u00eancia Mem\u00f3ria da Eletricidade<\/b><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Criada na Segunda Guerra, a usina flutuante Poraqu\u00ea virou s\u00edmbolo de inova\u00e7\u00e3o e marcou a hist\u00f3ria da energia el\u00e9trica no Brasil.","protected":false},"author":1,"featured_media":119395,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1680],"tags":[],"class_list":["post-119367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agencia-memoria-da-eletricidade"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=119367"}],"version-history":[{"count":24,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":119456,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119367\/revisions\/119456"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/media\/119395"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=119367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=119367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bluestudio.estadao.com.br\/agencia-de-comunicacao\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=119367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}